Lembro-me como afora hoje. Depois do Ribeiro das Perdizes e antes da Metalúrgica de meu pai, como quem atravessa a Monheca a caminho do Barrocal. Todos os dias, fosse sol ou geada, a encarnada ali estacionava. Dentro da vermelha, homens febris, esticando braços, apalpando, separando, espalhando. Pouco antes das sete da tarde ali encomendava às que iam na bonda de outras paragens.
Estava nesses lamentos, ainda não eram cinco e trinta, quando chegou o progresso. Um correio, dos eletrónicos que os ferroviários abalaram com a lembrança, perguntava se já tinha aberto o Envelope. Que não, que vem lá o maio e o ganapo comungará com Deus! Que a abre que logo os correios te levam novas.
Envelope para aqui, missiva para ali, assarapantei-me na exaltação, cresci no lamento, debulhei as cebolas, do Maior Rio e deitei-lhes azeite de Moura. A Estação dos Correios fervilhava de préstimos, encomendas, postais e códigos, carteiros e clérigos. Miguei o tomate de Alpiarça, telegrafei ao Vimioso, a mala posta trouxe toucinho e do Minho veio, pelo arauto, o tamboril. Do internacional empurraram as sobras do caranguejo, do Mondego o mensageiro entregou um Carolino e do Almonda veio o papel com que enxuguei as beiças.
Que fazer com tamanha azafama, ante um comboio de socorro, sem pessoal de prevenção e de piquete atrasado. Haja novas e ouvidos colados ao chefe. Lê a carta, porra, lê a carta. E li. Li, mas antes, ative-me no fogão, aos tachos e à panela que Carolino é rapaz bem capaz de tragar almudes de água, incha e não estrebucha. Nisto lá se veio o moço da estrebaria, dos Himalaias, com a mula carreada de sal e um extremo agradecimento a quem mo proveio.






