Ao Paço!
Apanhei uma sexta-feira das duras, mas divertidas. A agenda, de papel como convém, atirava a geografia para Mateus, quase a bordejar o Marão e para o Fontelo.
No Palácio de Mateus, jornada de editor, ‘Agricultura(s) a minha vida!’, o livro do José Martino que editámos neste Armazém. Sempre a lavrar terra, faltava outro item, a conversa no Paço. A jornada começou numa geografia e culminou na outra, lá chegarei, é já ali, no fundo da A 24, ou, indo pela Nacional 2, na dobra de Paraduça.

Ínsua, a praça maior do Castendo
Chegar à Ínsua é um exercício de facilidade geográfica, mas descobrir a Casa, esse infindável palimpsesto de património, é um desafio à nossa capacidade de espanto. Entre a pintura que nos fita, a cerâmica que reluz e o mobiliário que guarda segredos de séculos, impõe-se uma formidável vista para o Castendo, onde a paisagem parece curvar-se perante tamanha altivez.

Caramulo, do Vale de Besteiros às Terras de Lafões
O Caramulo é um daqueles segredos bem guardados que mostram o lado mais charmoso e puro do Centro de Portugal. É um lugar com uma vibe muito própria, que mistura uma beleza natural bruta com uma história de sofisticação e saúde que vem do século passado. Antigamente, o Caramulo era famoso pelas suas estâncias sanatoriais.

Fogo novo no Dão
O epílogo, correu de feição e copo na mão. Eu, de sentidos apurados e ouvidos atentos a este “orgulho na cultura do vinho”, deixei-me seduzir pelo convívio. Entre brancos de frescura cortante e tintos de veludo, confirmei o que todos sentiam, há fogo novo no Dão. É a força da terra, a alegria do produtor e o poder de quem o bebe. É o Dão, pois então!

Comida de conforto ou Cozinha Beirã?
A cozinha beirã é uma das mais ricas e reconfortantes de Portugal, marcada pelo uso generoso de carnes, especialmente cabrito e borrego, enchidos de qualidade superior e, claro, o icónico Queijo da Serra. Como a região das Beiras se divide entre o litoral e o interior montanhoso, a gastronomia varia bastante, mas é nas montanhas que reside a verdade, digo eu, pensando em responder a um desafio do João d’Eça Lima, que oficia na Louçainha e encontrando na geografia do Dão essa “Cozinha Beirã” que existe, em abono da verdade. E do rigor.

Santa Comba, a do Dão
Chego-lhe pela Nacional 2 que me deixou memórias, uma delas bem sonora, era eu ainda um adolescente a atender telefones, mas já a falar nos rádios. Mas sim, para quem sai de Viseu, descer a Fail e contornar o IP-3, apesar das restrições das obras, pela 2 é bom andamento. Também podemos descer à Pinoca e ir pela N-234.

Viseu by nigth
O casco está velho, continua calcetado e com povo na rua, não o botellón, mas os que gostam de tabaco e álcool. Ora de álcool vamos bem, de tinto, do Dão, a coisa está ruim. Velhaca mesmo. E a noite prometia.

Lafões
Sim, conheço-a bem! Desde a infância, quando a subíamos a caminho das férias de Verão, ou quando ficava em Guimarães e vinha por ela, ao Viso, de camião com meu primo Alberto. A Estrada Nacional 16 é uma das rotas mais bonitas e históricas da região Centro, especialmente onde atravessa o coração de Lafões. Antigamente, esta era a principal ligação entre o mar, em Aveiro e a fronteira, no Vilar Formoso. Hoje, Nacional16 tornou-se uma estrada para viajar devagar, tem vários miradouros, proporciona uma bela road trip e tem ao lado, na vilegiatura, amplas termas, água quente, das profundezas da terra.

Em terras hospitaleiras, de bons vinhos e azeites
Oliveira do Hospital, inserida no coração da região do Dão e da Serra da Estrela, tem uma forte tradição agrícola, faz parte da sub-região de Alva, uma das sete divisões do Dão. O número de produtores que engarrafam e comercializam marca própria é relativamente restrito, existem cerca de cinco marcas principais, com presença ativa no mercado.

Vinhas urbanas, a filosofia da terra na Pousada de Viseu
Conheço uma vinha, quem desce para S. Salvador, mas ainda dentro do perímetro de Viseu. Conta três mil metros quadrados. Há outra, na Avenida António Almeida Henriques, em Ranhados, ao lado da Escola Agrária e separa as duas vias da estrada. E mais uma, na Pousada de Viseu. Uma geografia, do impossível a que a realidade deita veracidade. Vinhas urbanas.


O Dão em prosa, roteiro filosófico e vínico em Nelas
Nelas não é apenas um ponto no mapa; é um coração aberto do tamanho das serranias, onde a terra é de quem a ama e a trabuca. É o lugar onde Dionísio e Baco velam por vinhedos imensos, debruados por oliveiras e castas lendárias. Este roteiro é uma jornada pelas estradas que ligam a história, a filosofia da terra e o vinho que nos sobressalta.
As vinhas da montanha
Queijos. Queijos e vinhos. É isto que gosto na altitude, ao alto, na montanha, em Gouveia. O queijo, os sabores, mai-la serra e a Estrela, aparição em Gouveia, jardim dos hermínios, queijaria da montanha, transumância, lã, carne, leite, cabritos, taninos, sustentos e vida.


A Logística no Dão, entre vinhas, chuva e a N231
Já vos falei nas minhas aventuras logísticas, creio. É uma memória que remonta aos primeiros anos oitenta, quando me escapulia de casa, ainda em Castelo Branco, para ir ganhar dez escudos na descarga do camião da Martins e Rebelo que vinha, penso eu, de Vale de Cambra.

Dão à chuva
Sim, olho a chuva miúda, enrolando o tinto, meditando nos que puxam os rígidos arames, esticam os pendões e cortam as ervas, aí percebe-se melhor o que nos Dão, o rio.
Por São Simão, Agricultura(s) lá longe
Foram uns tipos, aliás muitos tipos, que andaram a lavrar semanas a fio. E foram esses tipos que me empurraram para pouco mais de três centenas de quilómetros às terras do Camilo, da Prelatura e todos quanto. Durante meses a fio, José Martino, agrónomo que cultiva saberes e sabores, escreveu “Agricultura(s), a minha vida! Reflexões Críticas na Imprensa” e nesta sexta-feira, manhã cedo, o meu diesel lançou-se em desaforos pela causa ambiental e o EX30, com a minha comadre saída das emergências direta para a navegação, fez-se ao caminho, à Gráfica Diário do Minho.


“Agricultura(s) a minha vida!”
A lavoura tem várias disciplinas, a viticultura uma delas. Fará sentido discutir a dita nesta agremiação vínica, um Armazém. De secos e molhados. Muito meditar, o cheiro da gráfica, o congeminar, a tinta a cair no branco, que já teve festival literário de sabor vínico.
No telúrico caminho do Vouga
Atinge-se o sítio através da densa floresta. A barragem repousa serena junto à pequena aldeia de Várzea de Calde, cujas casas são banhadas pelo sinuoso rio Vouga, bravo nestes dias de chuvas.


Pelas ruelas do casco velho
Que fazer em dias de sol matinal que não tecer tapeçaria e reclamar semântica. O sol da manhã, ainda tímido, baixo e brando, espreguiça-se sobre o horizonte serrano, pinta nele esse cobre antigo, as cumeeiras de telha de Viseu. A cidade acordou num murmúrio tranquilo e sussurrante, e eu decidi que era dia perfeito para me perder. Não no sentido literal, claro, mas na aventura hedonista de desvendar o labirinto de granito secular, onde cada esquina promete uma história saborosa.
2025 Ano Internacional das Cooperativas
O meu primeiro emprego, assim que larguei o Estado, foi na Adega Cooperativa de Tondela. Estive lá por duas vezes. Em 2021, comecei nos preparos da vindima, com o beneplácito do engenheiro Brites, que tinha no quadro técnico ainda outros dois engenheiros, um de produção, outro de floresta. Sim, havia uma secção florestal. Os dias mais duros eram quando a produção ultrapassava as 800 toneladas, à data eu avisava o Brites. Vi o funcionamento técnico, adegueiro incluído, contabilístico e comercial. E ligava ao Dinis a perguntar quantos pregos, enquanto eu ia ao Alambique, abriam-se meias garrafas de Tinto para aviar a carnuça.


A travessia de ferro e o tempo do vinho
Sai-se de Viseu para Oeste, ao encontro das faldas do Caramulo, logo após o cruzamento de Orgens, o proscénio agrícola da região abre-se, assomado em Figueiró, onde se vislumbram as vinhas, a ecopista e o vale de São Cipriano. Avançando cerca de seis quilómetros, chegará aos Coutos, com as faldas do Caramulo nos olhos e muito para debulhar. A Travessia de ferro e o tempo do vinho.
Lembre-se de Santa Eulália. No Couto de Baixo, uma aldeia bem preservada, com ruelas encaixadas em grossas paredes de granito, o pelourinho namora a fonte de Santa Eulália.
Uma passeata pela Comarca de Viseu
Tenho galgado a região, atrás das letras e das anotações, num quotidiano que me espanta pelas pedras que se cruzam, as vozes que se incrustam, a memória que se encaixa no coração. A Custódia, uma Casa Nova na planície, perceberá bem este retalhar, este ver para contar. Não serei escritor, que isso é vontade e oportunidade mesmo que a tipografia abonde a favor das minhas venetas, talvez um escrevedor, como ‘o sobrinho da tia Júlia’. Nestas cavalarias dei por mim, há um par de meses, feito santo da porta, percorrendo, ao dia, o rincão. E para isso convém anotar história.


Entre Currelos e a Foz do Dão, os rios vinhateiros
“In vino veritas”, o antigo sussurro romano ecoa nestes rios, afirmando que na embriaguez a língua desata e a Verdade se revela, límpida como o mosto. A verdade é aqui, nessa alegoria festiva, o reencontro de dois rios, belos e irreverentes. Partamos à descoberta desses rios vinhateiros. Primeira Paragem, Oliveira do Conde, em Carregal do Sal, partindo de Viseu, tome a estrada para a Pinoca e, depois, em Nelas, corte para a Nacional 234.
No concelho de Carregal do Sal, o Dão já percorreu uma parte significativa do seu trajeto, descendo dos planaltos da Beira Alta.
São os Santos, senhores, os Santos
O calendário beirão assinala a Feira das Febras, e com ela, Mangualde, no coração da sub-região vitivinícola de Terras de Azurara, transforma-se num epicentro de fumo e sabor. Os Santos trazem-me todas as recordações de uma infância feliz e a lembrança de minha mãe que pregava, e fazia, que casacos compridos só a partir desta data que, no calendário, traz também a Feira das Febras, o popular e carinhoso nome que atribuímos à Feira dos Santos de Mangualde, um evento grande e secular.
Chega sempre no primeiro fim de semana completo de Novembro, coincidindo ou ficando perto do Dia de Todos os Santos, dia um.


O Touro, a Lapa e o Abade: meia geografia ao Dão
Chegar ao Touro, já nas faldas da Nave e no coração das Terras do Demo, é pisar a linha da Demarcação Vinícola do Dão. Porém, o passeio vale a pena, a promenade leva-nos pela última capela construída pelo povo, deixa-nos cruzar os Caminhos da Lapa e, na volta, atravessamos a Ponte do Abade e regressaremos à circunscrição do Dão. A Região Demarcada do Dão, instituída em 1908, abrange a província histórica da Beira Alta, estende-se por parte dos distritos de Viseu, Coimbra e Guarda. É conhecida como a primeira região de vinhos não licorosos a ser demarcada em Portugal.
Vinhos para o Inverno
Estamos nesses dias e, oficialmente, só falta mudar a hora ao relógio para esse arranque, o ritual de acender a lareira e pegar na tenaz. O crepitar do Inverno vem lá, mais mês menos semana que o tempo anda avariado, tempo de manducar de boa gana, pôr os dentes em função, limpar a barbela ao canhão da véstia e afinfar aos cartapácios, nas serranias e “vias sinuosas, por entre ribeiros e corgos, pinhais afora, que andam faunos nos bosques, Cinco reis de gente, luz ao longe, humildade gloriosa!”.
Cepas, letras, escritores, o Mestre que a geografia é nossa e é sentimental, estrada fora, refugiemo-nos na literatura e tragam vinho, do bom, que “o pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos”.


O Desvio do Tempo, a odisseia do viajante no Castendo
O Castendo é Roriz, o Mosteiro do Santo Sepulcro, o Mareco, vistos de outra ronda.
A alma de viajante parte de Viseu, alheia à Estrada Nacional 16, num assomo de património rodoviário. O caminho faz-se pelo cruzamento de Povolide, onde se pedem mãos atentas e ouvidos no motor, a estrada é fabulosa, mas sinuosa, e exige contemplação. A subida é um prazer para os amantes dos automóveis, que cortam logo à direita, para o coração do Pindo. É um dever servi-lo com a elegância da prosa. A jornada começa na tranquila aldeia de Encoberta, onde os caminhos rurais da Beira Alta o esperam.
Carvão do Sul
O Carvão do Sul é a metáfora ardente deste nosso tempo, uma arte que se manifesta no ritual sagrado do churrasco, na festa simples e gulosamente fraternal. Não é apenas a mesa posta, mas a generosidade da maionese, alva e cremosa, que evoca a grande celebração brasileira, um banquete que se enraíza e floresce numa comunidade cada vez mais vasta e vibrante em Viseu.


Dos palácios de Mangualde à terra do Queijo e do Alva
Eis um itinerário que nos leva de Azurara ao Alva, no limite Sul e a face mais histórica da região do Dão, combinando o vinho com a tradição do Queijo Serra da Estrela. Uma viagem ao coração da Beira Alta, navegando pelas estradas que ligam a excelência do Dão, dos seus vinhos de altitude ao tesouro cremoso da Serra da Estrela. É um percurso onde o tempo se curva à história e a paisagem é dominada pela poética do granito, o solo que dá carácter e mineralidade a tudo.
Uma Jornada de Vinho, Fé e Filosofia
Tenhamos fé, na homília e nos acólitos. Ao viajante importa a poesia da jornada, não se lhe compadece a frieza das planilhas, quer prosa, leveza poética, rigor erudito da solicitação.
O itinerário pela paisagem vínica do Dão, nestes dias antes das chuvas e com os cestos quase lavados, pressinto este épico Outonal, a Jornada de Vinho, Fé e Filosofia. A quietude, olhos postos na terra, olhos tornados pintor silencioso. Os vinhedos, onde ainda agora a vida fervilhava no pico da vindima, vestem-se em tons de amarelos e vermelhos, rubro da reflexão e o ouro velho da memória.


Nem mais Cabriz, tampouco botelhas distribuídas pela Vinalda
Já vou à decisão, antes a Marrã, merece bem mais que estes que duvidam do dinheiro, e do trabalho, dos lavradores. Antes, o situacionismo. O Vinho do Dão está nas mãos das distribuidores e eu outorgo-me no direito de beber o que bem me apetecer e não o que me querem servir.
Ora em Sábado reportado, fiz-me às Terras do Demo para moderar política. Ao caminho, café no Touro, ala por Porto da Nave e paragem para contemplar castanheiros, o planalto, a safra da maça e, ademais, parar para fotografar.
Os melhores anos 2025
É uma azáfama, entre fatos e vestidos, sapatos e sandálias, todos na demanda do grande reencontro, cura temporária para nostalgia aguda. Os amigos reencontrados, a química que acontece quando histórias partilhadas, cristalizadas na memória individual, ganham vida e calor através do olhar, da gargalhada conjunta e do abraço que reconhece o tempo passado.


O Café do Gouveia
Bons vinhos, melhores petiscos, agradável serviço. O “Café do Gouveia”, que vai já na segunda geração, é entreposto agrícola, feitoria de conversas, empório da merenda.
Meu Sogro, creio, ter-me-á falado do Senhor Gouveia que eu não conheci, certeza tenho de me ter contado dos brancos de Oliveira de Barreiros. Vinhos brancos de qualidade, num Café com resultados visíveis e impacto na comunidade e no ambiente “vínico” que se vive nesta extraordinária, e notável, aldeia.

Nacional 17, vinhedos na Beira da Estrada
Percorria a Nacional 17, deliciado com o esplendor das vinhas, a música no rádio, os vidros abertos, o sol do meio-dia a maturar as uvas, subidas e descidas, esta imensa Beira, onde, a cada curva, novos cenários e, já em Seia, a Região Demarcada do Dão, vinhas de altitude, um tapete verde, na montanha, videiras, robustas, adaptadas ao clima, e às suas oscilações, a desafiar a gravidade nas encostas inclinadas, prometendo, ali mesmo a complexidade e a frescura que caraterizam os vinhos da circunscrição. Nisto, uma paragem na beira da estrada, para retemperar energias e gravador. E foi ali, na Senhora da Lomba que o reencontrei. Ou melhor, que ele me topou, que eu, destrambelhado, não o vi. Gritou-me: “Amadeu, ainda nas rádios?”. E eu, com 40 anos de amizade às costas, sentei-me e alegrámo-nos. Com o reencontro, o olival e a vinha na bordadura do asfalto.

Quinta de Lemos
Saí de casa esbaforido. A camionagem ocupa espaço, há que balancear, mas antes esfalfado, afobado e apressado, mas não exausto, que faltar a um convite do Diogo Rocha, jamais. Aliás, estou tirocinado para ser desabalado, até açodado, vai para mais de uma dúzia de anos, sim que o recordo, sair em apuro e alvoroço de Castelo Branco, onde fora de terra em terra e me escapuli ao Mercado 2 de Maio e ele, sabendo-me na telefonia e como gostamos de brincar com as palavras, me diz para o microfone, um “Queijo Serra da Estrela tamanho roda de camião”.
Real vindima
A Quinta dos Reis, situada em Viseu, é uma propriedade vinícola com uma história rica e longa, que remonta a meados do século XIX. A paixão pela viticultura está vincada nesta estória contada, dobrado que está o centenário, já se enchem cubas e tonéis.
Jabuticaba! Encontrei-a no acaso da estrada. Descia a Nacional 231, a caminho de Seia quando enormes letras me pediram atenção. Fui a Seia, vim e desci, atravessando o coração do Dão, uma das mais importantes regiões vitivinícolas de Portugal.


Vem lá a Feira, a Grande Feira do Vinho do Dão!
Lá, nos socalcos do Dão, a vindima está por estes dias a começar e no Largo do Município celebrar-se-á o vinho. Lá, em Nelas, os vinhedos imensos, debruados por oliveiras, olhados por Dionísio, velados por Baco, guardiões de pipas e de cachos, que a terra é de quem a ama. A cuida e a trabuca.
A estrada das vinhas
Adoro estradas, tenho até ideias para elas, estradas que contam histórias, como a que atravessa Silgueiros. Está pensado, estruturado, falta-lhe porto, que em breve chegará. Das minhas favoritas, a EN-231 não é apenas um caminho. É um fio de ouro que serpenteia por entre a alma do Dão. Começa a dança em Silgueiros, onde cada curva desvenda um novo segredo. De um lado, o olhar perde-se em vinhas infinitas, que pintam as colinas de verde e ocre, como um mar de folhas à espera do sol. São vinhas em grandes quantidades, um tapete vivo, ordenado em linhas perfeitas que parecem desenhadas pela mão de um mestre.


Como andas tu Vinho do Dão?
A felicidade tem muitos nomes. Anita, Afonso, sol, vinho, pão, amanteigados, embutidos, inebriante. Mas este ano há pouco para celebrar. Numa fuga a esta insanidade, refugiado no mais Norte da Península, vi-me e desejei-me para encontrar Vinho do Dão, na restauração e no comércio. A promoção não está a fazer o seu trabalho, o vinho não sai das adegas do Dão para o cardápio da restauração e das garrafeiras e a aflição de muitos produtores é notória. Porque vão precisar do dinheiro para recuperar as vinhas.
Quinta da Perpita
No emaranhado de ruas que é Oliveira da Berreiros, sobram ruelas, adegas, vinhas e janelas para o lagar. Da geografia, o Dão ao fundo, a vinha do Contador ao longe, e, na atalaia, a elevação onde fica a Quinta do Amandinho, hoje na terceira geração.
A Perpita é um enlevo de vinhas, mas, no que me inquietou, de tecnologia. Lagares em cima, no andar térreo, cubas de mil litros e muita história. Isto, pensado há 120 anos, quando a eficiência energética ainda nem sequer aparecia no dicionário.
Esta sim, também, é terra da vinhateiros, de famílias que emprestaram nome e saber à qualidade destes excelentes vinhos.


O que andamos a beber?
Água, às vezes vinho, expedientes. Não o certificado, o que bebemos do bag in box, para acompanhar a bifana, refrescar o cigarro ou olhar a paisagem.
O que bebemos não é português! “Vinho da UE”! Assim, escrito nos bags, para nos dizer que ele não tem origem nacional. E isto é uma lástima. O comprar por chegar à porta, quando os nossos lavradores produzem bom, também para o bag, Corga ou Adega de Penalva, por exemplo.
33 Produtores no Tondela Brancos
Tondela Brancos, nascido há 10 anos para promover os vinhos brancos produzidos no concelho e na região demarcada do Dão, vai contar este ano com um recorde de produtores presentes, de todo o país.
Nesta décima edição do certame estão representados 33 vitivinicultores de vários pontos do país.
Dão. O Porto e Douro, a região dos Vinhos Verdes e Trás-os-Montes também marcam presença, a par do Algarve.


Quinta do Solar, Campo de Besteiros
15 hectares
40 mil garrafas,
200 000 euros de faturação
A Quinta do Solar, na Póvoa de Arcediago, produz vinhos de qualidade extraordinária. Denominados Maria João, são também uma história de amor.
Cepas do Salgueiral, Lajeosa do Dão
O último viticultor a chegar ao Dão foi Daniel Sobral, que resgatou as vinhas da família ao esquecimento, tem uma pequena adega e vinha nova em plantio.


Cepas do Salgueiral Lageosa do Dão: EP11 – Tondela Brancos
Daniel Sobral é um dos últimos players a chegar ao Dão. Cansado de ver as videiras do avô a definhar, chamou amigo e foi terçar viticultura. Dois hectares, a Cepas do Salgueiral na marca, e eu, que lhe fisguei uma prova da última vindima, anotei a previsão de engarrafarem 15 mil botelhas. Daqui Malvasia Fina.
Quinta do Solar, Campo de Besteiros: EP10 – Tondela Brancos
A Quinta do Solar, na Póvoa de Arcediago, produz vinhos de qualidade extraordinária. Denominados Maria João, são também uma história de amor.
Sei-o, porque o acompanho há bem mais de dois quinquénios. Maria João, uma Senhora, e Joaquim Coimbra, um Cavalheiro. Os vinhos, o enlevo com que cuidam das vinhas, e da casa que vem dos oitenta do outro século, permite-nos perceber o cuidado e o requinte.


Quinta dos Carvalhiços: EP9 – Tondela Brancos
Um Santo Vinho, produzido nesta quinta, localizada em S. Miguel do Outeiro e onde os abundantes carvalhiços, um tipo de carvalho mais rasteiro, deram nome a casa agrícola com referência a 1595. Aqui produzem-se 50 mil garrafas, valem 130 mil euros. Há “outros tesouros”, conta Paulo Machado, diretor da Fundação Dom José da Cruz Moreira Pinto, hoje Fundação S. José e proprietária deste formidável lugar.
Casa de Mouraz: EP8 – Tondela Brancos
A Casa de Mouraz, produz vinhos biológicos, reúne 35 hectares de videiras, várias marcas em 150 mil garrafas vendidas que colocam a faturação no milhão de euros.
A quinta aglutina várias parcelas de vinha, diferentes solos e altitudes. Protegidas pelos carvalhos e castanheiros, fecundadas com a água de pequenos ribeiros e temperada com o granito, algumas vinhas já chegam aos 400 metros de altitude.


Quinta das Camélias, Sabugosa
A Quinta das Camélias, em Sabugosa, foi adquirida em 2002, por Jaime de Almeida Barros, que reconverteu todas as vinhas.
Pelas imediações há lagaretas, que empurram para muito longe as
práticas vitivinícolas.
Mesmo a carta de Couto do Mosteiro de Lorvão, do ano de 1183, aponta “Sabugosam”, como referência de vila, e de lá siaram vinhos para os monges.
Quintas de Syrlin, Canas Santa Maria
As altas árvores, teixos e carvalhos, marcam o caminho, uma longa e bela calçada, ligeiramente a subir, até à casa. No outeiro, a marca, nos flancos a casa de família e a adega.
Ali estão um engenheiro e uma psicóloga. Augusto e Rosário Teixeira fazem do vinho, também, vida.
Augusto assume a gestão em 2002 e lança a marca em 2012, acrónimo das quintas da Cerejeira e Linhar.


Caves Vinícolas Martinho Alves: EP7 – Tondela Brancos
É uma das maiores vinícolas da região, não tem produção própria, compra vinhos aos agricultores e tem capacidade de vinificação para oito milhões de litros.
Herdeira da extinta Adega Cooperativa de Tondela, as Caves Martinho Alves prosseguem engarrafamento e vendas, motor do negócio que tem ganho vários prémios.
Quinta dos Carvalhiços, S. Miguel do Outeiro
Um Santo Vinho, produzido nesta quinta, localizada em S. Miguel do Outeiro e onde os abundantes carvalhiços, um tipo de carvalho mais rasteiro, deram nome a casa agrícola com referência a 1595.

Quinta da Ramalhosa: EP6 – Tondela Brancos
São 12 hectares; 9 marcas e 40 mil garrafas, que valem €80 000 euros.
A Quinta da Ramalhosa é uma empresa que tem comandante no Micael Baptista, a quem coube resgatar as vinhas da família. É a terceira geração, no início o avô Adriano Batista que plantou as primeiras cepas, depois o pai, Paulo Batista. Tudo numa das sub-regiões mais promissoras do Dão.


Quinta das Queimas, Canas de Santa Maria
Chega-se mal as vinhas assomam à beira da estrada. De Norte, pela A25 e IP-3. De Sul, pelo IP-3. Num e noutro caso, dá sempre para aproveitar a viagem e percorrer uns troços da Estrada Nacional 2.
O destino é Santa Ovaia de Cima, em Canas de Santa Maria. À nossa espera Cristina Videira Lopes, entusiasmada com o negócio do vinho.
A Bela Vista, que toma nome de avenida, são caminhos estreitos, alcatrão adornado por bonitos muros de granito. Oliveiras e pinheiros, mais as vinhas, estão por todo o lado.
Bulltrade: EP5 – Tondela Brancos
Chego à Lageosa do Dão para me encontrar com Jaime Murça. No aperto da mão, contrato firmado nas vésperas, para uma extraordinária aventura pelos patamares, que descem ao rio pequeno. Já foi uma grande empresa, permanece a capacidade instalada e as vinhas. Murça conduz, eu pergunto, vejo e aprendo. Sim, há muita conversa. Mas do fim da rua às cepas, vai grande distância.
A Bulltrade também já pensa em azeites, enquanto estuda a terra e não há videiras sem oliveiras.


Casa de Mouraz, Mouraz
A quinta aglutina várias parcelas de vinha, diferentes solos e altitudes. Protegidas pelos carvalhos e castanheiros, fecundadas com a água de pequenos ribeiros e temperada com o granito, algumas vinhas já chegam aos 400 metros de altitude.
Mouraz é lugar de esperança, uvas e bonança. Aqui as vinhas são cuidadas de forma holística e ecológica há várias gerações.
Quinta das Camélias: EP4 – Tondela Brancos
A chuva mantém-se persistente, e o carro, afoito lá segue o percurso. Saí do IP-3, apanhei a turística Nacional 2, e cheguei a Sabugosa. À minha espera a quinta de Jaime Barros.
Daqui saem 90 mil garrafas, e chegam 400.000 euros de faturação. Os brancos que nos deliciam e chamam novos públicos.
Subir ao outeiro onde está a Quinta das Camélias é contemplar panorama e proscénio do Dão.


Caves Vinícolas Martinho Alves, Tondela
Herdeira da extinta Adega Cooperativa de Tondela, as Caves Martinho Alves têm um novo acionista e uma capacidade de vinificação de 8 milhões de litros.
A compra de uvas aos lavradores, engarrafamento e vendas são o motor do negócio que tem ganho vários prémios, com destaque para o Clube de Escanções, e, em prova cega, a Caixa de Crédito Agrícola.
É também aqui que se criou, numa parceria com a Junta de Freguesia de Parada de Gonta, um vinho que evoca a memória de Thomaz Ribeiro, com o poema Flores d’Aldeia.
Quintas de Sirlyn: EP3 – Tondela Brancos
Saímos da Nacional 2 e embrenhamo-nos na paisagem, destino Canas de Santa Maria. À espera 5 hectares de cepas, 3 marcas, 10 mil garrafas, 40 000 euros de faturação. O dia é de chuva, muita, a custo, o para-brisas deixa-me ver altas árvores, teixos e carvalhos, e eis-me na longa e bela calçada, ligeiramente a subir, até à casa. No outeiro, a marca, nos flancos a casa de família e a adega.


Quinta da Ramalhosa, Mouraz
A Quinta da Ramalhosa é uma empresa que tem comandante no Micael Baptista, a quem coube resgatar as vinhas da família. É a terceira geração, no início o avô Adriano Batista que plantou as primeiras cepas, depois o pai, Paulo Batista.
Outros tempos, em que as uvas produziam vinho para consumo da casa e venda a granel.
O negócio mudou, os mais novos não esquecem o saber dos antigos, mas enxertou-se na Ramalhosa, um caminho empresarial e ainda bem.
Quinta das Queimas: EP2 – Tondela Brancos
Seis hectares de vinha, 15 mil garrafas e 60 000 euros de faturação. Tudo ali, onde as vinhas assomam à beira da estrada. De Norte, pela A25 e IP-3, que também sobe de Sul. Num e noutro caso, dá para aproveitar a viagem e percorrer uns troços da Estrada Nacional 2.


Bulltrade, Lageosa do Dão
A Bulltrade trabalha com vinhos a granel, produção e comercialização de vinhos da Região Demarcada do Dão, vinhos regionais e de mesa.
Possui produção própria e também compra uvas aos produtores locais e exporta para o mercado europeu.
Nas instalações, na Lageosa, há um, confortável, wine bar e extraordinária vista sobre o vale.
Quinta da Ramalhosa: EP6 – Tondela Brancos
São 12 hectares; 9 marcas e 40 mil garrafas, que valem €80 000 euros.
A Quinta da Ramalhosa é uma empresa que tem comandante no Micael Baptista, a quem coube resgatar as vinhas da família. É a terceira geração, no início o avô Adriano Batista que plantou as primeiras cepas, depois o pai, Paulo Batista. Tudo numa das sub-regiões mais promissoras do Dão.

Vintage, uma Maison na Miguel Bombarda
Cheguei lá, como de costume, intrometido e inopinado. Terá sido o amor, essa ciência estranha que me leva aos locais mais secretos e deslumbrantes, ou o estouvado da viagem.
Seja, a Maison fica ali no número 76, da Miguel Bombarda, em Viseu. Bons, e tradicionais hambúrgueres, francesinhas, bifes e saladas.


Ouvidos na estrada: EP1 – Tondela Brancos
Iniciamos hoje uma viagem pelo concelho de Tondela, onde o primeiro fim-de-semana de julho, de 4 a 6, decorre o Tondela Brancos.
Uma série de 13 episódios numa jornada pelas Terras de Besteiros, na demanda desses brancos, em dozes viagens pelos vinhedos, neste formidável Dão, em tom único de sons, cores e sabores.
O distribuidor de histórias
Têm sido dias de passos curtos e muitos. Bastantes no andaço e nas aflições. A ‘Operação América’, como lhe chamamos aqui no Armazém do Dão, enfileira-se, o Tiago e o David cuidam do algoritmo e até a Maria se juntou nestes estranhos dias, da pressa e das aflições, para gerir o tráfego.

Cortiça!
Coleciono rolhas. Não todas, apenas as que me significam algo. Como o Chateaux de 1966 que bebi, regalado. Ou a do espumante quando a Anita fez 34 anos, ou a dos vinhos na profissão de Fé, o último almoço que tive com meu pai.
E assim, recebo a notícia com alegria. O Daniel enviou-me imagem das rolhas dos vinhos das Cepas do Salgueiral. É um bem preciso, a cortiça. E dá charme ao vinho.

Dezesseis anos depois, as botelhas chegam a 9 de maio
Mal assomei às pedras do granito, topei a comandita, perdão, o conclave – assim me corrigiu estimada camarada de profissão, e acheguei-me. A memória, relha e velha, não os conheceu a todos, com destaque para o Frazão, que me levou de Terrano II a ver as vinhas e o rio pequeno. O grande também. Esquecida a Bull Trade estavam o Nuno da Ladeira da Santa, o Zé Carlos dos Penassais, o Carlos Silva meu confrade e amigo da Udaca e Amora Brava.


Carolos
Comi os primeiros nas Terras do Demo, mas, honra seja feita ao Peregrino, cada roca seu fuso, e em Tondela a confraria tem feito um belo trabalho com o milho, espalhado pelas eiras do concelho, além de contribuir para dirimir confusão de gastrónomo. Os Carolos usam a farinha de milho mais grossa, as Papas querem-na fina.
Numa das edições da Ficton, de família pelo braço, chaguei-lhe nos Carolos em vinha d’alhos, a carne, a que acrescentam morcela de sangue, couve ou, em havendo, nabiças.

Prado Tinto 2022
Infiltrei-me numa agência de programação e, num dos interlúdios do briefing, já tinham incendiado as hostes com uma Aldeia Velha. À meia-hora, como dizia meu pai e meu avô se sentava religiosamente na mesa grande do Pevidém, verteram-na no cálice. Um instigador de destilaria, com falange no Bushmils.
Dois provocadores a bem saber. Ou de bom sabor. O Tiago prometeu contar e eu, que por recomendação viária estou limitado ao vinho, afifei-lhe o saca-rolhas e deixei-o espreguiçar-se.
Vinho. Velho.
1992 foi um ano bom. Chegou ainda eu trabalhava na dobra do ano, era uma tradição de puto imberbe, trouxe um mês de reclusão em Vila Franca de Xira e um Agosto de tasqueiro em que tudo era medido a xicaras que se escorriam no final do alvoroço que era preciso pagar ao Zambujo quando não a cantina não fiava e o Roque não nos doseava os cigarros.
Ganhei uma fita no boné e fiz-me ao mar quando os cachos começavam a ser vindimados.


Duas iscas e um copo
Uma cortesia. As gentes da Beira são honestas, honradas e trabalhadores. Os lavradores mais ainda. Foi assim que a um pedido de uma caixa, de várias referências, eu recebi um Encruzado e um Rosé. Seguirá a caixa para o meu amigo consultor, as cortesias também ficaram com engenheiro agricultor. Tranquilo, somos do Dão, “pois então”.
E porquê das prebendas? Temos compliance – que não é arte de adorno, e obriga a não aceitar vinho. Do Dão.
Chambaril
O chambaril, vocábulo que é toda uma orquestra, é singela haste de pau segura, pelos jarretes, o porco que vai à desmancha. E do porco tudo se aproveita. Cabeça e rins também. E o rim, o último que comi foi em Alpalhão, enrolado em ovos é divinal. Encontre-os, corte em cubinhos, bata uns ovos, fogo brando e azeite e temos petiscaria.
A Matança do Porco é uma tradição secular, um ritual, uma festa, uma comezaina. Uma instituição.


Vem aí o carrossel, o formidável alavão
Encontrei-o vai para dez anos. Eu a subir a montanha, ele a meia encosta, com o rebanho a mastigar viçosa relva e chuva, chuva como Deus a dava e, mais acima, neve.
Toda a serra da Estrela era verde, água, nove e trabalho. O Alavão, período em que se produzem mais e melhores queijos, tem casa na montanha. Ele, o pastor, bem mo contou e jamais o esqueci.
Farrusquinha, By Oliveira do Conde
Há um pátio, a que se chega cruzando a taberna, ao lado da mercearia e onde se esconde uma formidável mesa. Por ali passam comboios, autoestradas, rodovias e ferrovias, mas o mais fabuloso é o rio que corre aos pés da Albergaria. Um apeadeiro feito cais do encontro, por onde deambulam amizades e conversas, crescem préstimos e boas vontades.


O Dão
Palácios, torres e igrejas…Vozes claras do viver da gente. Um naco de Portugal…Uma bênção do céu. Águas abundantes que jorram por verdes campos, onde homens levantaram monumentos sem conto…Livros abertos para folhear a história…Um bater de coração que vem de longe, desde que Décimo, Petreio e Cássio foram escorraçados pelos pastores que aqui abriram os caboucos da Pátria…





