Por São Simão, Agricultura(s) lá longe


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Por São Simão, Agricultura(s) lá longe

Foram uns tipos, aliás muitos tipos, que andaram a lavrar semanas a fio. E foram esses tipos que me empurraram para pouco mais de três centenas de quilómetros às terras do Camilo, da Prelatura e todos quanto. Durante meses a fio, José Martino, agrónomo que cultiva saberes e sabores, escreveu “Agricultura(s), a minha vida! Reflexões Críticas na Imprensa” e nesta sexta-feira, manhã cedo, o meu diesel lançou-se em desaforos pela causa ambiental e o EX30, com a minha comadre saída das emergências direta para a navegação, fez-se ao caminho, à Gráfica Diário do Minho.

Que profunda ironia habita o percurso, o rasto diesel, incisivo e teimoso, trocado pelas emissões zero a rasgar trezentos quilómetros de curso pela defesa de um Verde menos danoso. Uma operação planeada com rigor militar, que nos saíram ao caminho, e contingências a bordo, não vá o tempo mudar e a lavoura adiar.

Largar a Região Demarcada do Dão e partir à desfilada não se faz sem motivo necessário. E lá chegámos com os tipos já no descanso. Os tipos, essas peças físicas de metal, madeira ou outro material, contém caracteres, sejam (letra, número ou símbolo.

E é no simbolismo que pega para vos falar desses caracteres, cunhados em relevo, que dispostos e combinados formam palavras, linhas e páginas inteiras para impressão. Este sistema tem sido a base da impressão desde Gutenberg, embora hoje tenhamos o design visual dos caracteres, mesmo que existam apenas em ficheiros de software, eu vi-os. Foram eles, tipos feitos blocos construtivos do texto impresso, quem cuidou de lavrar as 205 páginas de “Agricultura(s), a minha vida! Reflexões Críticas na Imprensa”, de José Martino, manual de boas ideias, que fora tomado bússola para a coesão e estaríamos todos bem.

Só isso justifica que as andanças. Mas há mais. “Como as regiões vitivinícolas portuguesas estão predominantemente em territórios de baixa densidade, a sua promoção e usufruto pelo enoturista faz crescimento económico, gera emprego no Interior, em suma, é uma forte alavanca da coesão territorial. À medida que novos turistas descobrem o país para lá dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, e dos destinos turísticos de sol e praia, em busca dos destinos dos vinhos de Portugal, há uma enorme janela de oportunidades que se abrem e continuam a abrir, maior divulgação internacional das paisagens diferentes que se alteram a cada 50 km percorridos, biodiversidade, património cultural arquitetónico e histórico”. Aí está, arrancado da courela de Martino, a sensatez para a urgência. Mas há mais razões que levaram este Armazém a enveredar por ser também editor.

É o reconhecimento de que a Verdade do país reside na sua coerência geográfica e social. A edição é um ato político de fé. Mais do que um registo de reflexões, “Agricultura(s), a minha vida! Reflexões Críticas na Imprensa” surge como uma ferramenta de trabalho e de pensamento dirigida a autarcas, governantes, decisores públicos e sociedade civil. O livro apresenta um conjunto robusto de ideias e propostas de políticas públicas que visam desbloquear o vasto potencial do mundo rural português, assumindo-se praticamente como um manual de ação.

Entre muitos e imperiosos temas, gestão florestal e o combate aos fogos rurais, com propostas concretas de intervenção, a crise na viticultura, devido a preços baixos e importações, a crítica às políticas agrícolas, a favor da fileira dos cereais, considerada condenada ao fracasso. É um forte apelo à reforma fundiária, à liderança política e ao investimento no Interior do país para garantir a sua sustentabilidade. São estes os motivos que nos fazem pensar. E, para gáudio desta odisseia, S. Simão da Aguieira esperava-me no regresso. A história da Quinta de São Simão da Aguieira está profundamente ligada à história da região demarcada do Dão e à viticultura.

São Simão, também conhecido como Cananeu, foi um dos doze apóstolos de Jesus, um enviado para uma missão. A nossa, a deste Armazém, a do José Martino, a de todos devia ser resgatar os 70% do território nacional que destratamos.

Volto ao “tinto no branco”, festival que um dia se espera que regresse à cidade vinhateira, para recordar João de Sacadura Botte, figura incontornável na história do vinho do Dão. Foi o enólogo responsável pelos estudos que levaram à delimitação oficial da Região Vitivinícola do Dão em 1908. E proprietário que foi da Quinta de São Simão da Aguieira, gerida pela Sociedade dos Vinhos Borges, a maior mancha contínua de vinha na Região do Dão, com cerca de 74 hectares, sendo a matéria-prima para alguns dos seus melhores vinhos. Também este livro é um soco na nossa casa comum, um assomo de esperança.

“Agricultura(s), a minha vida! Reflexões Críticas na Imprensa”, escrito por José Martino e em venda neste Armazém é a defesa dos agricultores e do mundo rural, um compromisso com o interesse público. É no copo tinto que a memória entorna, que o rural se faz eterno e essencial. Saibamos ver além do copo. Do vinho falarei em breve, prenda da Anita para jornada de avanço, já o Livro precisa ser lido, para entendermos o país por inteiro, vermos os atavismos e arrancar-lhe das mandíbulas o sustento.

A coesão é a meta final, suprema. Os tipos descansam. E a voz da lavoura, que é o livro, ganha corpo perene, visível e sem dilema, tornando a bússola de ideias o necessário apetrecho para quebrar a modorra. E para que todos sejamos um. Um país mais decente e mais justo, mais organizado e produtivo. Mais feliz.

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