Quinta de São Simão da Aguieira 2023


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Quinta de São Simão da Aguieira 2023

No negrume lapidado do vidro, repousa uma alma tinta, um segredo ancestral da Dão. A luz escorrega pela curvatura esguia, revelando o rubro discreto do rótulo, como o manto que a terra vestiu no crepúsculo da vindima. Quinta de São Simão da Aguieira, nome que murmura pedra e sol, a aspereza doce de uma paisagem onde o tempo molda o carácter. Cada gota é um fragmento de 2023, ano em que a videira bebeu a essência do xisto e do granito, transformando-a em promessa. Ao inclinar a garrafa, vislumbro não apenas um vinho, mas a paciência da natureza e a mão do homem, unidos no silêncio de um ritual imemorial. E penso em como são estranhos os caminhos comerciais da Região Demarcada do Dão. O mercado assemelha-se a um duopólio sombrio, uma estrutura anquilosada onde a exceção é a regra. No meio, debatem-se os pequenos produtores, cujas garrafas, por mais cintilantes que sejam, raramente vislumbram o brilho das garrafeiras de topo ou das vastas prateleiras dos supermercados.

A grande distribuição, pilar dos mercados sólidos e maduros da Europa, podia, com uma diferença logística que seria irrisória, fazer a ponte. Seria um gesto de responsabilidade social que, ironicamente, ninguém parece querer ver ou, sendo fulminantemente franco, prefere ignorar. Fazer negócio nos Vinhos do Dão parece ser, ainda, uma coisa de conluios, de acordos feitos às esconsas, na ausência de transparência que o século XXI exige. O mundo de hoje já não se compadece com estas moscambilhas anacrónicas, mas seja. Esta é a batalha silenciosa que acompanha cada vinho da Dão. Por isso, ao beber esta garrafa da Borges, que me custou 6,99 euros no supermercado, preço que sublinha o esforço de democratização deste grande produtor, celebramos não só o carácter austero do vinho em si, mas também a abertura deste Armazém ao mercado editorial. É a prova de que a qualidade, por vezes, consegue perfurar a cortina do sistema.

O Quinta de São Simão da Aguieira Dão DOC Tinto 2023 da Borges emerge como uma expressão notável da região da Dão, evidencia uma abordagem que alia a tradição à modernidade. No nariz, revela complexidade sedutora, notas intensas e juvenis de frutos vermelhos silvestres, enriquecidas por um frescor cítrico, elegantemente complementado por nuances delicadas de baunilha e bergamota, um convite olfativo que antecipa a experiência gustativa. E este, mesmo engarrafado em Gondomar, é um Dão em esplendor contido, à espera de desvelar melodia. Com um teor alcoólico de 13,5% volume, mostra-se com certificação vegan, mercado dita, carácter e frescura. Acompanhou uma robusta feijoada, com couve e cenoura e boa carne e melhores enchidos.

O vinho é produzido a partir de um blend clássico da região da Dão, na boca confirma a promessa aromática. Apresenta-se com taninos suaves e uma estrutura exemplarmente equilibrada, demonstra já uma notável integração apesar da sua juventude. A fruta exuberante da Touriga-Nacional e da Alfrocheiro Preto é temperada pela mineralidade austera da Jaen e pela elegância da Tinta-Roriz. O final é notavelmente fresco e longo, realçado por uma acidez vibrante que limpa o palato e incita a um próximo gole. É um vinho versátil, apto para consumo imediato, mas com potencial para evoluir em garrafa, ganhando ainda mais complexidade.

A colheita de 2023 na região da Dão foi marcada por um ciclo vegetativo que, apesar de alguns desafios climáticos, permitiu a obtenção de uvas de excelente qualidade, refletindo-se na concentração e no equilíbrio dos vinhos. O ano caracterizou-se por um Inverno relativamente chuvoso que repôs as reservas hídricas do solo, seguido por uma Primavera amena. O Verão apresentou períodos de calor intenso, mas intercalados com noites mais frescas, crucial para a preservação da acidez e o desenvolvimento dos aromas. A maturação das uvas ocorreu de forma gradual e homogénea, resultando em bagos sãos e com bom potencial polifenólico e aromático. A vindima realizou-se em condições favoráveis, permitiu a colheita no ponto ótimo de maturação, conferindo aos vinhos desta colheita uma frescura vibrante, taninos elegantes e uma capacidade notável de expressão varietal.

O Quinta de São Simão da Aguieira Dão 2023 chega em bom vidro, desafiando o seu preço, com uma sedosa textura e taninos polidos que lhe conferem profundidade e harmonia. É um tinto com notável potencial de guarda, pois tem ainda muito a revelar, provando que a qualidade autêntica e longeva consegue furar as barreiras da opacidade do mercado regional e chegar, elegantemente, ao consumidor comum. Triste é não ser para todos.

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