Dezesseis anos depois, as botelhas chegam a 9 de maio


Publicado por:

a

em

Dezesseis anos depois, as botelhas chegam a 9 de maio

Mal assomei às pedras do granito, topei a comandita, perdão, o conclave – assim me corrigiu estimada camarada de profissão, e acheguei-me. A memória, relha e velha, não os conheceu a todos, com destaque para o Frazão, que me levou de Terrano II a ver as vinhas e o rio pequeno. O grande também. Esquecida a Bull Trade estavam o Nuno da Ladeira da Santa, o Zé Carlos dos Penassais, o Carlos Silva meu confrade e amigo da Udaca e Amora Brava. Também o António Pina, da Adega de Penalva do Castelo, estava na compita. Lá acertámos conversa, a minha cabeça aparafusou recordações gratas ao Jaime Murça, já que nem eu, nem ele, conhecemos o Frazão.  

E subi ao Paço do Fontelo para perscrutar esse Concurso Nacional de Vinhos. O Paço é soberano, e suserano, do Fontelo. O refrigério da mata acolitou, durante séculos, a vida estival da prelatura viseense. Com a salvaguarda do esplendor maior ter chegado no Século XVI, por Dom Miguel da Silva, algures por 1525. E cá, ou lá, pegou no cancioneiro e escreveu sobre o Paço, “aqui, onde vedes a água, que se precipita, rompendo os limites, e a vaga, que se quebra, caindo num lago marmóreo”, na tradução do latim feita por Leonor Santa Bárbara.

Ora por não gostar de vinho, ou por ter escrito sobre a água, talvez por ter sido feito cardeal, D. Miguel da Silva abalou, fugido, sem que a amizade com o rei lhe valesse.

Eu escrevo sobre vinho e enchi o peito de empáfia por saber que ainda valho vinte paus, o preço do meu livro sobre a história da mais antiga região demarcada de vinhos tranquilos do país.

Retomo, passada a vaidade, a grande figura do Renascimento português, fugiu em 1540, perseguido por El Rey D. João III, que talvez bebesse vinho e não gostasse do nosso D. Miguel da Silva, bispo de Viseu e cardeal romano.

Foi D. Miguel da Silva que mandou construir a capela de Santa Marta e é lá que são esperados 130, das 1300 garrafas que participam da 12ª Edição do Concurso Vinhos de Portugal. Bem sei, começa a 8 e abriga-se no Mercado 2 de Maio, mas eu prefiro o 9, sobremodo depois de me ter casado, 16 anos lá atrás, com abundante briol.

Seja. Juntos, Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, Entidade Regional Turismo Centro de Portugal, Comissão Vitivinícola Regional do Dão e Viniportugal vão fazer muito pelo vinho e pelo Dão.

Frederico Falcão, que manda na ViniPortugal, lembrou que o Concurso é selo de qualidade e promoção internacional. A mim, o que me importa é que os grandes escritores do vinho vão passear pelo Dão e em breve, como lembrou, teremos dois master os wine a falar português. Um brasileiro e outro português e do Dão, gritei eu.

Master of Wineé o título de maior prestígio que um especialista na indústria do vinho pode alcançar. Concedido pelo histórico Institute of Masters of Wine, no Reino Unido, implica meia vida de estudos, no negócio do vinho: viticultura, vinificação, marketing e comunicação. Começou em 1953 e implica saber provar e avaliar vinhos com competência. E certezas e lá teremos o nosso Tiago Macena.

O Concurso Vinhos de Portugal é um dos mais prestigiados, grande monta da excelência da produção vitivinícola nacional. A primeira fase da competição decorre entre 5 e 7 de maio, em Santarém, onde um painel de 72 jurados internacionais irá avaliar os vinhos em sessões técnicas de prova.

Para a Capela de Santa Marta só o melhor. Anotei Ruas, presidente da Comunidade e anfitrião do concurso, apontar “Dão Lafões como destino enoturístico de referência”. Espaço largo para a visibilidade do Dão, monóculo, binóculo e posto de vigia. Nuno Martinho, Secretário Executivo da CIM, acrescenta “trabalho de valorização do setor vitivinícola”. É raro ver todas as vontades juntas, e que bonito é, sobremodo quando Arlindo Cunha, amigo e presidente da Comissão Vitivinícola nos diz, e sei-o de saber feito, que “a realização no nosso território do prestigiado Concurso Vinhos de Portugal vai permitir evidenciar ainda mais a qualidade dos Vinhos do Dão, que normalmente obtêm uma percentagem de medalhas significativamente superior à sua quota de mercado – tal como, de resto, costuma suceder nos grandes concursos internacionais em que participam anualmente”. É para esse mercado que trabalhamos.

São do país e ninguém me leva a mal a paixão pelo Dão. É por eles que vou torcer e deles beber. É o Dão pois então.

amadeu@armazemdodao.pt

Carrinho0
Não há produtos no carrinho!
Continuar a comprar
0