Farrusquinha, By Oliveira do Conde 


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Farrusquinha, By Oliveira do Conde 

Há um pátio, a que se chega cruzando a taberna, ao lado da mercearia e onde se esconde uma formidável mesa. Por ali passam comboios, autoestradas, rodovias e ferrovias, mas o mais fabuloso é o rio que corre aos pés da Albergaria. Um apeadeiro feito cais do encontro, por onde deambulam amizades e conversas, crescem préstimos e boas vontades. 

No lume duas senhoras envaidecem as brasas que hão-de lascar a mesa, mas antes de sair é preciso entrar e se há fogueira que se faça fumeiro, tragam morcelas e azeitonas, das miúdas, e chouriças mais carne da salgadeira. Escorropichem-se os garrafões, esfreguem-se as mãos e empurre-se a barriguinha. Desculpas ao bandulho, palamenta no fio dos braços e ala. 

E ala que vieram os primórdios, acepipes entradeiros, sopesados no casqueiro e tragam-me o babete que as medalhas são no dez de junho e hoje anuncia-se o inverno do nosso contentamento que há bacalhau amarelo em brasa vermelha, batatas ensopadas em azeite e amigos na mesa. O mais generoso, e mais fértil até, que temos quando um deles nos traz o preto e o branco. Um preto e um branco, como o bacalhau tostado no carvão, a que se acrescentou outra negrura, a da morcela singela que encavalitou a broa e empurrou a chouriça. 

Um festim entradeiro, ou direi enchideiro, que escorregou à mesa comprida perjunto com o tal do bacalhau, dançando com batatas, simples e gulosas e guarnecido por um saboroso pão. O festim, ao estilo farrusco, é um clássico do encruzado e do avesso, que traz com ele os rigores do frio, anunciando o luar de janeiro e prometendo, enquanto o há, uma manteiga de forma, prensada na francela e desta feita, para que os esquecimentos não sejam copiosos e as lágrimas sejam de sangue, atabalhoaram-se dois desses lacticínios da Serra e acrescentaram-se os figos, poucos para a demanda, mas secos. 

Mal fôra a entretinha quando aviandámos os quartilhos, meios que as coisas boas são raras, olvidadas por entre as memórias e os aprestos dos hospitaleiros dos meus amigos. Lá dentro, meio quartilho de nozes, verdes, entretidas a bebericar whisky e esquecidas durante uma grosa de meses. Um outro quartilho, de mel fermentado no alambique, transtornou-se no branco e avinhou-se em duas primaveras.

E com os dois quartilhos, fermentados nessa Estrela que queremos ver verde, de novo e com as pedras encavalitadas que todos somos pedreiros todos somos livres, assim pensava eu quando, de e a modos, que para ali ficávamos, desfiando bacalhau, mastigando batatas, ensopando azeites, vertendo taninos, roendo queijo, lambendo marmelada e rédea solta à língua que a Farrusquinha são duas donzelas, duas porfias e ditosas senhoras que se esmeram nos préstimos e nos créscimos. 

E a mesa, esse tabelião de amenas cavaqueiras, encontra–se na cozinha velha, onde sobra até o pátio, local de fumadeiros e bebedeiros, donde vertemos as mágoas feitas de reencontros que o que foi não volta a ser mas indómita é a vertigem da amizade. E ali, vigiados pelas chaminés e guardados pela cozinha de verão tombamos os quartilhos, vertemos as aguardentes, lambuzamos as beiças e ripámos do rapé, tingindo negruras, lavando almas, enchendo o pleito e enrijecendo o coração. E o fígado. Que nunca é como começa, será sempre como acaba, e para que não nos falte o que se nos escasseia, mesmo sem agenda e calendários, aligeirámos o almanaque. 

A 10 do Entrudo voltaremos, mais e muitos, trazendo Mindinhos e Teodósios, e os da Lixa mai-los outros, os que minguam copioso e opíparo recontro. Mas agora, agora afio a cutelaria do Ivo e derranco o sol de inverno entumecido pelo meio quartilho que trouxe no alforge.

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