As estradas são estreitas, a penedia espreita a cada curva e no ar sente-se o perfume das maças. Visitar Penalva do Castelo é um sufoco pela aspereza das pedras, o agreste das giestas e o viço dos vinhedos. Poderia ser, se quiséssemos brincar com a polifonia das palavras, uma diatribe, mas a verdade é que é neste concelho onde encontramos, sem qualquer desprimor e com um inusitado orgulho, a verdadeira alma beirã.
O Dão, que aqui corre selvagem, antecipa a força da natureza, resguardada pelo tempo que aqui corre devagar e pela paisagem, verde no verão, amarela e castanha no outono, viçosa na primavera. Entrar em terras de Penalva é escancarar as portas das cepas; uma ouvidoria à escuta do Dão e conhecer a paixão pela viticultura.
Estamos no berço da Touriga Nacional, todo o Dão o é, mas na Adega da Corga, na freguesia de Pindo, o esplendor vai mais longe e esta casta é a garantia de bons vinhos e do preenchimento das três parcelas da casa agrícola da família Barbosa, várias gerações de viticultores que se agruparam na Adega da Corga e que deixaram o leme entregue a Rafael Formos, 22 anos de vida crescida nos vinhedos e amadurecida na enologia de Vila Real.
A adega vinifica 180 mil litros de vinho, num ano bom, mas “só engarrafa reservas e garrafeiras”, explica o enólogo que lembra que o primeiro “passa um ano a estagiar na cuba enquanto ao segundo acresce mais um ano na cave”.
A juventude do enólogo, e o seu pujante otimismo, conseguem que os 32 hectares de vinha mantenham as castas do Dão em elevados índices de produtividade. Nos tintos predomina a Touriga, mas sente-se o perfume do Alfrocheiro e a soberba do Jaen. Claro que a Tinta Roriz se assinala pelas uvas mais retintas mas há espaço para brancos com o Encruzado, Malvasia e o Arinto do Dão.
Tal como noutras paragens esta região, uma das mais antigas do mundo, caracteriza-se pelos vinhos de lote, a que as modernices apelidaram de blend. O truque é agrupar os vinhos para que a bordadura e a terra permitam extrair-lhes o melhor. E tudo o que não merecer o estágio mais demorado é envasilhado nos boxes, “uma das melhores invenções para consumidores menos exigentes ou para quem procura vinhos para o dia-a-dia”, adianta Rafael Formoso.
O local parece perdido no tempo, mas graças aos dedicados esforços da equipa de enologia, aconselhados pela experiência do patriarca Barbosa, os vinhos sobressaem pela sua modernidade mas sem nunca esquecerem o berço, estas terras graníticas que lhe dão amarras e sublimam o néctar da uva.
Nas últimas duas décadas a Adega da Corga apostou na qualidade das castas da região, escorou-se na Touriga e o vinho do Dão ganhou aqui níveis excecionais, como o atestam os prémios, mas lá iremos provar um dos melhores tintos da região. Contrariando o fundador esqueça os ensinamentos que mandam beber o branco e guardar o tinto, para envelhecer alguns anos. Os vinhos da Adega da Corga estão prontos a beber no imediato se bem, assim haja a coragem porque a tentação vencerá sempre, que guardados poderão aprimorar.
Mas quer o reconhecimento da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, que tornou o Adega da Corga reserva 2011 premiado com distinção, quer o dos italianos da “Selezione del Sindaco”, que premiou o mesmo reserva, nos garantem que estes são vinhos prontos a degustar. Aliás este foi mesmo segundo ano consecutivo que a Adega da Corga foi eleito “O grande vinho do Dão”, com o Touriga Nacional feito com tradições antigas, por mãos inovadoras que não esquecem as pedradas seculares do concelho. Um vinho que condiz com a paisagem agreste e aconchegante do concelho de Penalva do Castelo onde os vinhedos não têm fim e são produzidos em aldeias enroscadas que escondem as cepas por entre os pinheiros e onde os homens que pisam a terra são os mesmos que pisam as uvas quando é cheda a vindima.
Criada em 1908 os mais de cem anos de viticultura do Dão permitem antever vinhos feitos por gente determinada que não esquece a tradição, mas prima pela modernidade e com isso produzem vinhos com personalidade, harmoniosos entre homem e natureza, sendo certo que o tempo, assim haja a repetida coragem, faz melhorias a tintos e, porque não dizê-lo, a brancos.
Mas Penalva do Castelo, onde está o Mosteiro do Santo Sepulcro, as encostas a norte do rio Dão tornam os vinhedos generosos e na Corga as cepas ficam expostas a Sul, garantindo sol durante toda a tarde a que não terá sido alheio o facto de, logo em 1992, a Adega da Corga se ter tornado um dos percussores da Touriga-Nacional que permitiu engarrafar 12 mil garrafas do Reserva 2011. Mostra-se muito bem na cor e fruta, macio e sensível, apto para embalar um arroz de míscaros com costelas em vinho-de-alhos ou um portentoso feijão branco com carne de porco da salgadeira.
A Corga apresenta vinho feito na sub-região de Castendo que desde 1903 desfruta de renome muito por culpa das serranias que afastam os ventos e permitem tirar partido do clima temperado que, apesar disso, traz invernos chuvosos e verões calorosos.
Em solos graníticos, e aqui e ali com afloramentos xistosos, são um portentoso chamamento para vaguear pela região onde as vinhas enrolam a paisagem e as maças perfumam a penedia.






