Tenhamos fé, na homília e nos acólitos. Ao viajante importa a poesia da jornada, não se lhe compadece a frieza das planilhas, quer prosa, leveza poética, rigor erudito da solicitação.
O itinerário pela paisagem vínica do Dão, nestes dias antes das chuvas e com os cestos quase lavados, pressinto este épico Outonal, a Jornada de Vinho, Fé e Filosofia.

A quietude, olhos postos na terra, olhos tornados pintor silencioso. Os vinhedos, onde ainda agora a vida fervilhava no pico da vindima, vestem-se em tons de amarelos e vermelhos, rubro da reflexão e o ouro velho da memória. As cores desvendam o velho granito, a terra fértil, e numa alvorada da esperança, marchemos-lhe à Capela, Nossa Senhora da Esperança, para ouvir esse órgão, solidez beirã, esconde uma alma de opulência. Ao transpor o limiar, o confronto, esse paradoxo da Região, a talha que se excede em ouro joanino, a cobrir cada superfície, numa demonstração de fausto que contrasta com a austeridade do exterior. E de tudo o mais.

Aqui, a esperança é virtude tangível, esculpida, pintada. Os azulejos para decifrar antigo códice, uma Última Ceia e a Entrada de Cristo em Jerusalém, a eterna reflexão entre o ciclo e a promessa.
O fio da estória, a caminho da lendária, e multifacetada, atravessar a planura de Povolide, a beleza da jornada está na riqueza do arbítrio, livre de rigidez. Na verdade, o percurso entre Povolide e Canas de Santa Maria é uma travessia íntima do coração do Dão, onde a paisagem rural se transforma, gradualmente, em cenário da história e do vinho. Um caminhar ao longo do rio, os lugares sagrados das nossas estradas.
Povolide é de um verde é profundo e a vida rural tem ritmos e ritos, deixe a quietude na memória e abale-se à Nacional 229-2, a Estrada Municipal que liga Povolide à N 229, numa primeira fase de aproximação ao Solar do Dão.




A estrada serpenteia por campos e pequenas quintas, o cheiro a terra e a granito húmido a entrar pelas janelas do carro, uma breve despedida do ambiente mais puro, já a convergir às grandes vias, a travessia de Viseu e o encontro com a Estrada. Caminho para Sul, ao encontro da Estrada Nacional 2, a verdadeira alma da viagem, de novo na grande rota, a formidável estrada, a topografia do Dão, cartografada aqui mesmo, e eis outra paisagem vinícola a ganhar forma. Curva para Tondela e vislumbre, o ar torna-se mais fino, os horizontes abrem-se, as colinas onde se aninham as quintas. Aqui também respira. O Dão respira. As vinhas, nestes dias, vestidas a fogo, carmim, bronze e âmbar.


E, de repente, ao cheiro da bifana, desvio para Canas de Santa Maria, o regresso à paz, a íntima estrada que me conduz a Canas de Santa, a Igreja Velha de Canas de Santa Maria, esse monumento gótico, austero e singular. Como o vinho, lembrete de que a verdadeira beleza reside na essência, despojada de excessos.
Povolide, lá atrás, pela Via Romana destes tempos modernos, e o legado, as vinhas em socalcos, mantos despojados de púrpura e bronze, à espera do frio com uma dignidade filosófica, metáfora do tempo, findou a colheita, mas a promessa da próxima safra dorme sob a terra.

Após a elevação do espírito, impõe-se a recompensa do corpo. Secos e molhados, a robustez da terra. o Cabrito do Caramulo, um tinto assertivo, velho e vivido, a arte de fazer vinho. Uma lição de paciência, o aroma da barrica, esse vetusto silêncio onde o vinho envelhece e aprende a ser, um ápice sensorial, um tinto Dão, estruturado, essência líquida desta paisagem outonal. O vinho, mais do que uma bebida, é a materialização do tempo. Essa nota imperativa, o gótico em final de tarde, o granito, já no declínio da luz. O campanário de duas ventanas, apontadas ao céu, forma e essência, a dignidade.




Alma plena, palato afinado, o esplendor barroco, o rigor gótico, a alma arrancada às mandibulas da história, a erudição da paisagem. A Beira Alta espera por si, vestida no seu mais belo e filosófico traje de Outono.
Bona Viagem!






