Quinta de Reis Wine Note 2019


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Quinta de Reis Wine Note 2019

Foi Vinho de uma nota só. Uma destas noites, nessas alegorias da escrita, tocou-me um frémito no nervo da alma e sim, fui-me a ele. Havia uma cá em casa, desse rótulo Wine Note, para anos excecionais. A botelha custa, esta foi uma cortesia do meu Amigo Jorge Reis, 10,20 em garrafeiras. E a colheita de 2019 cumpriu, mas antes de chegar ao mercado, ainda estagiou três anos, só três anos depois cantou. E sim, ainda recordo o encontro com o meu Amigo, na Madre de Água, em dia que Deus a dava.

Adiante, tínhamos tempo, o vinho e eu. A alma do Vinho tocou-me singelo, em noite profícua, um tinto de eleição, fruto da união de castas nobres do Dão. A nobre Touriga-Nacional, que lhe deu o fruto vermelho e maduro, acolitado pelo Alfrocheiro, frescura e o aveludado, ajudadas ambas pelo Jaen, a casta que acrescenta estrutura e a subtil nuance a especiarias. A vinificação é um processo de delicadeza controlada nas temperaturas, com fermentação durante cerca de 6 dias, seguida de uma leve maceração pós-fermentativa para extrair a cor e os taninos, com suavidade.

Mas é no tempo que o vinho se constrói, e este Wine Note estagiou durante 13 meses em barricas de carvalho francês. Esta morada na madeira não o dominou, antes o educou e lhe deu complexidade e o distinto veludo que o caraterizam. O single no meu copo deu espaço a essa reflexão sobre o tempo e a busca pela paz interior. O encontro de duas almas, que dançam juntas o amor, as letras e o vinho. E eu fui, nessa noite, a viajar do escritório para a cozinha, a preparar uns torresmos, lascas de presunto e um resto de queijo duro. Broa de milho e reencontrei-me comigo mesmo e essa inquietude, será possível ser feliz sem estar em paz? Talvez não, a harmonia interior pode muito, ou talvez sim, se depois do turbilhão do quotidiano encontrarmos a serenidade do silêncio.

O Quinta de Reis Wine Note 2019 é um belo convite à poesia e à alma do Dão! É um profundo prazer, que se desvenda em cada golo, ou gole se vos aprouver, os segredos mais íntimos, a prosa faz por lhe merecer o prazer. Na boca, o Wine Note 2019 é encorpado, mas sem peso, nada de intromissões em estrutura elegante, sofisticada. A frescura, herança do ano frio, é notável e essencial para o equilíbrio. Os taninos são uma bela espinha dorsal, presentes, polidos e suaves, prometem longa e bela evolução. A madeira, provinda do carvalho francês, está perfeitamente integrada, como um sussurro, e não um grito. O palato é frutado, com o retorno das amoras e ameixas, mas a verdadeira beleza reside no seu veludo distinto e requinte. Foi isso que a garrafa me disse, o canto da terra.

Em cada ida do copo aos lábios, essa valsa, a serena e profunda essência do Dão, a Beira, onde o granito e o xisto respiram a história de Portugal. Este vinho é um naco de paisagem capturado em noite de solilóquio, esplêndido, excelso, extraordinário e transcendente. A palavra pode descrever essa beleza superior, perfeição, ou mesmo a qualidade que ultrapassa o comum, seja no sentido moral, estético ou espiritual. E cabem todos os substantivos na garrafa. Uma nota sibilina na polifonia do terroir. A concretização de um sonho familiar que se estende por quatro gerações na sub-região de Silgueiros, onde a vinha encontra o seu tempo e o seu destino.

O ano de 2019 no Dão foi um capítulo escrito com moderação e equilíbrio, um ano que se pode classificar como uma vindima clássica, mas com o seu toque de distinção. O ciclo vitícola 2018/2019 começou de invernia seca, no ano anterior pingou bem, as temperaturas iniciais foram elevadas, mas o Verão trocou a intensidade por uma amena placidez. Agosto e Setembro brindaram a vinha com temperaturas médias mais baixas do que se esperava e eis uma amplitude térmica notável, e rara, o beijo frio da noite ao fruto aquecido pelo dia. Uma imperturbabilidade, calor e fresco, eis o grande arquiteto da qualidade. A que eu acrescentei ceia tardia, e duas fumaças no remanso da varanda a pensar na meteorologia, que prometia vindima precoce, trouxe maturações mais lentas, incrivelmente homogéneas. A vindima decorreu sob um céu limpo, sem a precipitação que poderia perturbar a colheita. Esta ausência de sobressaltos permitiu uvas, de sanidade exemplar, no ponto ótimo de maturação.

O resultado deste clima bem-aventurado foi a produção de mostos com uma acidez mais elevada e equilibrada, um teor alcoólico de 13,5%. Um legado de grandes vinhos, este 2019, favoreceu a longevidade e a expressão aromática das castas do Dão. O vinho apresenta-se com uma cor vermelha profunda, quase grená, límpida, que prenuncia concentração e juventude com potencial de guarda.

O Olfato, nos modernos dito bouquet, senti-o nesta cadeira vermelha ao aproximar do copo, e ele, comigo, a declamar história num aroma muito elegante e fino, uma polifonia nas palavras do nariz. As notas primárias são de frutos pretos maduros, que se entrelaçam com a inconfundível e etérea nota de violeta da Touriga-Nacional. Por baixo desta camada frutada e floral, o estágio revela-se com leves nuances de especiarias, arrisco que não gosto de ver o vinho assim descrito, a saudade da noz-moscada e o toque tostado do carvalho. Sedutor e original. Salaz na sua solidão, maturidade e complexidade tecidas com mestria.

É a prova de que o Dão, em anos clássicos como 2019, nos entrega vinhos de guarda, onde a acidez e os taninos se fundem numa promessa de futuro. É um vinho que exige paciência, mas que já oferece imenso prazer, harmonizando-se de forma exemplar e se me o chegassem, ou houvesse no refrigerador, tinha tisnado um cabrito no forno, valeu o queijo de pasta curada. E sim, dançámos “até ao fim do amor”, como canta o Cohen e ali ficámos, o final de boca longo e persistente, deixando memória agradável, um eco que se prolonga no tempo.

Sirva-se, entre e deixe-o respirar. Saúde, pois este foi rio que passou, outro tornará a vir, assim haja argumento, que somos de pecado capital. Beber um grande vinho de forma solitária, não é ousadia, é egoísmo que, em certas noites precisamos, para que a dor não tenha razão, nas desdenhando as falanges, mas testemunhando a vanguarda.

Eis o Quinta de Reis Wine Note 2019, harmonia sofisticada, doce e delicada.

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