Kelman Encruzado 2022


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Kelman Encruzado 2022

Acho que este ainda não se verteu por aqui, o meu método rudimentar de listar o que bebo, a par do caderno das provas, dizem-me que não. Também importa saber que este veio, a mesa pedia mineralidade, a seguir a um anterior. Confusos? Nunca se repete um vinho. Na mesma refeição e é com essa estória que regresso a este Kelman Encruzado 2022.

O projeto Kelman Vinhos nasceu da vontade de Juliana Kelman, luso-brasileira, de honrar as origens familiares no Dão, iniciando a produção em 2013. Acredito que o meu gosto pela casta, e a dos convivas que deram uso à palamenta para os secos e molhados, reside, em parte, no seu forte sentido de lugar e na filosofia de mínima intervenção que a produtora adota, combinando a sabedoria ancestral da região com a enologia moderna. E tudo por 9,75 euros a botelha.

Tomo a localização da Quinta Kelman como entrada para a minha admiração. A propriedade situa-se na sub-região de Terras de Senhorim, em Nelas, no coração do Dão, um planalto protegido pelo anfiteatro das Serras da Estrela, do Caramulo e da Nave. Observo que as vinhas estão plantadas a uma altitude de cerca de 430 metros, em solos arenosos de origem granítica decomposta. Este terroir é o que confere ao vinho a sua acidez natural, frescura e inconfundível mineralidade. O clima temperado, com a sua acentuada amplitude térmica diária, promove a maturação lenta e equilibrada das uvas. Foi isso que encontrámos na mesa e no copo, um vinho que é 100% Encruzado, a rainha das castas brancas do Dão. Reconheço-lhe perfil nobre, a capacidade única de conjugar volume e frescura, algo raro no universo dos brancos. O Encruzado permite a criação de vinhos sérios, estruturados e com um notável potencial de envelhecimento.

A vindima foi manual, e a vinificação seguiu o caminho da excelência. Após a decantação, o mosto limpo foi transferido para barricas novas de carvalho francês com tosta leve, onde fermentou e estagiou por cerca de 12 meses, com batonnage regular sobre as borras finas. Entendo que este estágio em madeira não camuflou a fruta, antes a acentuou ao integrar e acrescentar uma camada de complexidade, volume e untuosidade que se sente na boca. A produção é limitada, um fator que adiciono à aura de exclusividade, embora não saiba o número exato de garrafas engarrafadas. Continuamos a dar pouca informação ao produtor.

A Vindima de 2022 e a resposta do Encruzado são outra semiótica, foi ano de desafio climático em Portugal. No Dão enfrentámos um ciclo vitícola marcadamente quente e seco, com precipitação muito reduzida e vagas de calor intenso, especialmente nos meses de Vrão. Esta realidade levou à antecipação da vindima, habituemo-nos, e a uma quebra de produção na Região, estimada em cerca de 15%.

É aqui que vejo a resiliência e a nobreza da casta Encruzado, revela uma notável capacidade para lidar com o stress hídrico, mantendo um equilíbrio quase milagroso entre açúcar e acidez. O clima de 2022, embora quente, permitiu uma concentração de sabores nas uvas, e o Encruzado conseguiu conservar a acidez que tanto prezo.

O resultado no Kelman Encruzado 2022 é um vinho de intensa concentração aromática e volumosa, poderei dizer voluptuosa sem me tomarem por erro? Estrutura que consegue preservar a frescura e a acidez viva que a casta lhe empresta, característica crucial para o seu potencial de envelhecimento. Encontro no copo a prova de que a altitude e o solo granítico do Dão atuam como amortecedores naturais contra o calor. E as alterações climáticas, mas não vejo ninguém a rentabilizar a virtude.

O Encruzado, durante séculos misturada nas vinhas velhas, muitas vezes sob o nome de Salgueirinho, ascendeu à botelha, em 1950, pela batuta do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, em Nelas – nomeadamente do Engenheiro Alberto Cardoso de Vilhena, que lhe viu potencial, isolado e reconhecido. Vinhos de ensaio da década de 60 mostraram uma longevidade e elegância surpreendentes, mesmo sem as modernas técnicas de vinificação. Apreendo que a casta não se exprime de forma exuberante na juventude, prefere companhia da barrica e tempo em garrafa para revelar complexidade. Considero-a formidável.

Untuosidade da barrica entrelaçada com a mineralidade do granito, culminando num final de prova persistente e citrino. Acredito que este vinho não procura o aplauso fácil, mas sim a admiração do tempo. Guardo a certeza de que é um branco de guarda, nascido de um ano desafiador, mas dotado da força silenciosa das suas raízes.

Na prova, encontro uma cor citrina pálida, o nariz revela-me aromas intensos de fruta branca e citrinos, com notas florais e um toque muito subtil, quase doce, de tosta fina da barrica. Na boca, sinto um vinho de grande volume e estrutura. A acidez é firme, vibrante, mas elegantemente integrada com a untuosidade. A persistência é longa e distingo claramente um final de prova marcadamente mineral.

Penso que este é um daqueles brancos capaz de durar anos, décadas, e é, também, a prova de que o Dão merece o seu lugar de eleição. É para mim um vinho autêntico, elegante e muito gastronómico.

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