É uma azáfama, entre fatos e vestidos, sapatos e sandálias, todos na demanda do grande reencontro, cura temporária para nostalgia aguda. Os amigos revistos nesse ressignificar, a química que acontece quando histórias partilhadas, cristalizadas na memória individual, ganham vida e calor através do olhar, da gargalhada conjunta e do abraço que reconhece o tempo passado. A alegria do deparar, topar, dar com o êxtase de constatar que os laços resistiram ao silêncio e à distância, reforçando a identidade coletiva e o sentimento de pertença. É o momento de maior frenesim da noite, cumplicidade embriagante, e onde se celebra o simples, mas profundo, milagre de estarmos ali, juntos, a criar memórias sobre o alicerce sólido das antigas. E acrescentadas. Um quase banquete no templo da nostalgia, perante o impassível ar desta Grande Beira, que recebe como ninguém, o aroma da história, essa trama, tornada cabala pela magia dos números. 27 de Setembro, Sábado de 2025, no coração de Viseu. Não é apenas um jantar, com ceia, boa música, mulheres lindas, a Anita, é um ritual anual, uma tribo, Os Melhores Anos, à mesa e na pista de dança. E que se comeu?


Portugal e Beira, no conforto telúrico do ‘Lombo de porco recheado’ e do ‘Arroz de Pato’, à frescura atlântica das ‘Ameijoas à Bulhão Pato’ e o ‘Mexilhão’, esse bivalve a quem entrego a alma. Não sem me aprontar à tibornada de bacalhau, muito, boa e regada batata, abençoadas oliveiras.
Os vinhos Casa da Ínsua, Denominação de Origem Controlada Dão, a pagar tributo, líquido, a uma tradição vitivinícola que remonta ao século XVII, na sub-região de Castendo, Penalva do Castelo para os viajados. O Branco Colheita, o que toquei toda a noite, revela-se fresco, por vezes com notas minerais e persistência. Estrutura, adequados ao momento, pingoleta de uma casa que é um marco na história e no enoturismo da região do Dão.







Culinária gastronómica, migas e esparregado, legumes e batatas, o Casa da Ínsua Dão, nascido na terra, fluía, branco, esse brasão de família. Mas à medida que a noite avançava, a doçura do vinho, trocada pela lambarice de uma aguardente, essa euforia, o som do Arede a fazer de nós um reencontro sónico. Nós com nós, connosco próprios, brilho maior, a música dos Resistência, pureza acústica, catalisador perfeito para esta nostalgia agridoce, que nos assaca a cada acorde. Ouvir “Não Sou o Único” ou “A Noite” é viajar sem sair do lugar, é sentir o tempo voltar para nos abraçar com a força que só nós sabemos ter.




No palco essa tapeçaria de lendas: Fernando Cunha, Miguel Ângelo, Olavo Bilac, a simpatia inabalável dos anfitriões, e o turbilhão criativo de Fernando Alvim a pairar, numa energia contagiante de camaradagem. E conversas, porra, o que se partilha enquanto bebericamos essa Aguardente Velha Chancella, cor âmbar profundo, promessa de velhice, destilados, prontos a incendiar a alma, a nossa, que pensa, vagabundeia, afasta-se e contempla. Quais Tennessee Whiskey, esse contraponto rústico e familiar à elegância portuguesa. A doçura envolvente do Disaronno Originale e a cremosidade sedutora do Disaronno Velvet Liqueur garantiam o final de festa, euforia, prazer, uma quase indulgência, no nós para com nós. Líquidos em efervescência, gargalhadas ao fígado, chamamento ao cigarro e à chuva, na busca dessas conversa e de como somos felizes. Aqui, mais uma noite memorável no coração da Beira.




A grandiosidade e a longevidade de Os Melhores Anos em Viseu são inseparáveis da visão persistente de um dos seus fundadores, Eduardo Pinto, cuja paixão pela celebração se manifesta em muitos anos. Hoje a curadoria mantém filosofia meticulosa na arte do receber. O evento é a hospitalidade, o anfitrião. E essa também é memória grada. O social incontornável, ‘irreal social’, a capacidade organizativa do Grupo Visabeira, de juntar marcas e acrescentar valor, deixem-se de tretas que os vejo daqui de casa, a visão carismática da liderança e o salto a geografias pouco ousadas, de ao pé de casa e dos outros mares. O poderio empresarial, teremos nós, acaso, vergonha do que alcançámos, claro deixámos asneiras pelo caminho, como todos nós, soubemos emendá-las e voltar a repeti-las. Seja, a festa é um patamar de excelência, garantindo uma produção impecável, um cartaz de luxo e a manutenção de uma tradição que, desde 1993, até mesmo 1983 se quisermos ser precisos, todos os anos, convidados de todas as gerações e quadrantes do país no coração da Beira.


No entanto, o coração do rabugento só descansou quando o encontro se fez com Tim, a voz maior dos Xutos. Um ritual discreto, consumado, talvez, com a intervenção do histórico Arimateia, guardião da alma do The Day After.


E ali, sob o palco, reconhecendo a figura do baterista, o virtuoso José Salgueiro, que tece ritmos nos Resistência, mas também na memória dos Trovante e desse reencontro prometido em palco que iremos ao Porto, sentir a presença destes pilares da música portuguesa, a tecer banda, a banda sonora da nossa própria existência. Hora do Cacau em tempo suspenso, a grande Beira reunida à mesa, a certeza do pertencimento, esse sim papel e prato principal.






Amigos de décadas e reencontros fugazes, todos unidos pela certeza de que tudo se trata quando há amizade, música e vinho. E mesa, porra, vinho de comer, nesta lenda anual, onde os laços se fortalecem com o vinho e a dança, e de que a juventude, afinal, é um estado de espírito que se convoca sempre que as primeiras notas de uma canção familiar ressoam. Namorei a Anita, miúda sedutora, de olhos de ver para cá do nosso eu, escrutinar o mais fundo de nós, um banquete a quem lê corações. Voltaremos a brindar a esta lendária e grande festa. E essa conversa, breve, com Olavo Bilac, uma das vozes magnéticas e inconfundíveis do pop rock português, figura essencial, mais pecador que santo, harmonias épicas em tamanha orquestração.




O dia a nascer e nós de saída, o ar, antes denso de música e risos, tornou-se subitamente cristalino, uma última conversa, profícua a jornada, nunca é adeus, antes coisas de velhos, um virar de página lento e cauteloso. E, no fim de tudo, o meu tudo que cavalo velho rompe solas, um prego suculento, a carne de vitela em bom pão, a selar, ali a noite, adestrado ao caldo verde, com tora e broa, o selo final da experimentação repetida, primal e perfeita.


Vim com a inteireza perdida, deslumbrantes, a melhor versão de nós mesmos, banhados na luz quente da memória e da cumplicidade. Mas tudo o que é intenso é, por inerência, fugaz. O relógio, mestre cruel, ditou a fuga, um abandono consentido pela velhice, a minha, e com ela um beijo de despedida, prometido o irrefutável do regresso. Partimos para que o voltar seja, de novo, este milagre de estarmos aqui, juntos, sob as estrelas da Beira, nos melhores anos que ainda hão de vir. Mas no já dos dias, no quotidiano, estes ainda são os melhores anos, vividos. Com a Anita.








