Uma passeata pela Comarca de Viseu


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Uma passeata pela Comarca de Viseu

Tenho galgado a região, atrás das letras e das anotações, num quotidiano que me espanta pelas pedras que se cruzam, as vozes que se incrustam, a memória que se encaixa no coração. A Custódia, uma Casa Nova na planície, perceberá bem este retalhar, este ver para contar. Não serei escritor, que isso é vontade e oportunidade mesmo que a tipografia abonde a favor das minhas venetas, talvez um escrevedor, como ‘o sobrinho da tia Júlia’. Nestas cavalarias dei por mim, há um par de meses, feito santo da porta, percorrendo, ao dia, o rincão. E para isso convém anotar história.

D. Maria I, mandou cobrar contribuição sobre todo vinho, vendido na comarca de Viseu, para financiar a construção do novo Hospital da Misericórdia.

“Lançou-lhe com grande pompa a primeira pedra o bispo D. Francisco Monteiro Pereira d’Azevedo no dia 29 de março de 1793 e sob a mesma pedra se colocou um exemplar de todas as moedas portuguezas cunhadas até aquelle tempo no reinado de D. Maria I, a qual, por provisão de 12 de Fevereiro de 1799, obrigou todos os concelhos da antiga comarca de Viseu a pagarem um real de contribuição por cada quartilho de vinho e arratel de carne em favor das obras do dicto hospital, mas muitos concelhos, alegando a distância d’elles à séde da comarca, não quiseram sujeitar-se á dicta contribuição”.

Alguns foram compelidos judicialmente e outros nada pagaram até hoje, pelo que, aberto o novo hospital, “a Misericórdia se recusou a aceitar doentes pobres d’aqueles concelhos e só mediante uma avença com as respectivas camaras os aceita, – avença que hoje é de 160 réis diarios pelo tractamento de cada doente pobre dos ditos concelhos.” Tudo escruto no “Portugal antigo e moderno, diccionario”, de Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, continuado por Pedro Augusto Ferreira.

Assim motivado, ainda a lamber a malga do café, topei aqui roteiro capaz de me levar ao coração da Região Vinhateira, Mosteirinho do ferro mai-lo Mosteiro das cepas, merecem bem aqueloutro Assento do Turco, uma desfilada, pé na poldra, credo na Santa Eufémia. Uma Pedralta, talvez até uma Encarnação, correndo a esse Dão, tingido o Vouga e espreitado o canal, essa força, telúrica, dos rios que nos correm pelas entranhas, mastigando o granito, aviando o cereal ao espigueiro e sobressaltando o pasmo.

Viver cá é também amar este bulício de grande cidade, espantar com a quietude das aldeias e manter as ganas de descortinar sempre mais um naco, mais um pouco do tanto que não conhecemos. Não sei e terei dificuldades em lobrigar adega onde me possa acolitar a ver o todo, mas talvez sorvendo grande golada consiga essa ventura de o desbravar, essa senda bandarilheira de quem procura posto de vigia, chão miúdo capaz de nos aplacar sôfrega ânsia de o conhecermos por inteiro. Não sei, mas deixo-vos o Rosário, à laia de introito e de provocação. Talvez tenhamos mesmo começado a ser por ali, pelo vinho, alma suada, que olha ao céu antevendo granizadas, que olha à terra pesando o poceiro, pensando no refratómetro. Gostaria de vos propor uma meia rota, assim de trocadilho posto.

E Viseu é isso, lugar de “mercadores, almocreves, camponeses e artesãos ferreiros, armeiros, lagareiros, adegueiros, sapateiros, algibebes, peliqueiros e tosadores, tintureiros, tendeiros, físicos, boticários, ourives, licenciados, proprietários de linhares, vinhas e olivais, pequenos agricultores e arrematadores dos impostos do rei, da nobreza e do clero”.

Começo na Quinta da Pedra Cancela, adega de João Paulo Gouveia, onde as uvas da Quinta do Vale do Dão se transformam nos vinhos Pedra Cancela.

João Paulo, agrónomo e professor de Viticultura no Instituto Politécnico de Viseu, adora que nas suas vinhas e na sua adega se faça, ao mesmo tempo, vinho e ciência. Explica a vinificação com um prazer caloroso, usando expressões como sobrenadante, óptimo de maturação. O seu lagar com pisador automático é um robô que ele mesmo ajudou a inventar, solução de engenharia para a enologia.

“O mosto tem que ser fino, fino, fino, não pode ter um resquício de nada”, para antecipar a elegância aos vinhos, nos vinhedos esse grande penedo, a pedra que separava as freguesias de Silgueiros e Oliveira de Barreiros, a Pedra Cancela.

A quinta tem 14 hectares, sendo 10 deles de vinha, 5 em produção sustentável, que dão origem ao vinho Pedra Cancela eco-friendly. Produz brancos e tintos Quinta de Pedra Cancela, em várias gamas, sendo que os vinhos premium também são engarrafados em garrafas de 1,5 litros. O vinho topo de gama é o Pedra Cancela Signatura, em anos de colheita superior e com edição limitada.

Atravesso a estrada e estou na, tantas vezes aqui falada, Quinta de Reis. Não é preciso gostar de vinho, embora ajude, para fazer uma visita à Quinta de Reis. Basta gostar de conversar, o proprietário, um médico que se tornou enólogo depois de se reformar, é um conversador tranquilo e amável. As vinhas, as oliveiras, o carvalho altíssimo que ali em Silgueiros chamam de “Carvalha”, porque se crê que quando são grandes, os carvalhos se tornam fêmeas, a charmosa casa restaurada, a adega que renovou e o velhíssimo alambique que vai restaurar.

É assim desde há muito, uma das entradas ainda se chama “a porta da escola”, porque parte da moradia foi construída para servir de sala de aula às meninas da aldeia, sendo a professora delas, durante quase 30 anos, a tia de Jorge Reis. Serviu ainda de abrigo a reuniões de conspiradores do regime. Ali morou republicano, democrata, e faziam-se reuniões secretas, no tempo da ditadura. Toda a gente na aldeia se lembra do hastear da bandeira nacional no 5 de Outubro. Na varanda da casa, para não sobrarem dúvidas.

Em homenagem ao tio Armando Ferreira de Almeida Reis, criou o vinho Homem Bom, Jorge Reis dedica-se também ao olival, cujo azeite de oliveira galega com cheirinho a maçãs, dá toda uma conversa. Pergunte-lhe por ele.

Os vinhos Quinta de Reis absorvem a produção de uma propriedade não contínua, à moda do Dão, de um total de 15 hectares. Faz vinhos com predominância das castas da região, Encruzado e Touriga Nacional, alguns monocasta. Na quinta, as vinhas mais antigas têm 30 anos. Em anos de colheita primor, sai um Quinta de Reis Wine Note.

Volto à estrada, desço e corto na curva que indica Pindelo, pata visitar a CM Wines, berço dos vinhos Allgo, que tem na Touriga Nacional, o porta-estandarte da empresa.

Convém conhecer a vinha Parruivas de onde sai Grande Vinho do Dão. O local e os pormenores, desde a poda e as regas quando há falta de água, duas vezes cem mil litros de água por hectare, quando há falta dela. Cuidado e profissionalismo. Os tintos, depois do Outono, fazem o seu caminho. Pergunte pelo parque de barricas, dinheiro em somatório.

Na volta, venho pela Quinta da Vinha Paz, da família Canto Moniz, há várias gerações. Vão, e Dão, na quinta geração da família a fazer vinho.

Os vinhos chamam-se Vinha Paz em homenagem à avó de Henrique, Maria da Paz Othon, uma descendente de normandos, que também faziam vinho. A adega onde nascem os vinhos é do tempo dela, e talvez dos seus avós. Tem 150 anos, nenhum dos vinhos ali produzidos conhece outro esmagamento que não os dos pés humanos. É assim desde 2001. A quinta não foge à tradição de pequena propriedade e os cerca de 30 mil litros produzidos permitem manter o método antigo.

A quinta mãe tem 8 hectares de vinha, dos quais três são produzidos em modo biológico. Na gama Vinha Paz, há um vinho especial, o Othon, produzido a partir das vinhas velhas.

Meia caminho e há que descer à Quinta de Lemos, um colosso a fazer vinhos de luxo.

No Dão, a Quinta de Lemos é um transatlântico, um avião jumbo. Na região de pequenas propriedades, uma quinta de 50 hectares de área e 25 hectares de vinhas, que se estendem diante dos olhos como um tapete verde para lá da linha do horizonte, um colosso vinhateiro. A explicação existe e chama-se ter dinheiro para realizar os sonhos. Celso Lemos, um magnata do têxtil, natural de Viseu, decidiu investir numa quinta moderna para fazer vinhos para o segmento de luxo. Construiu de raíz adega moderna que funciona por gravidade, com projecto de arquitectura inovador, e ainda um pequeno hotel para os clientes, ademais um restaurante que ostenta uma Estrela Michelin, devido ao labor incansável de Digo Rocha, cozinheiro, como o meu amigo, e bem, se diz, quando falamos de “culinária”.

O projecto começou em 1997, com a restruturação da quinta, da vinha e a construção dos dois edifícios. Os primeiros vinhos foram engarrafados em 2005 e saíram para o mercado em 2010. No enorme edifício de linhas direitas onde fica o escritório, sala de provas e a adega, estão em exibição as garrafas da gama Quinta de Lemos. Garrafas pretas, com rótulos de design minimalista com o logotipo da marca, uma flor de traços simples, em rosa, dourado e prateado.

Além dos monocasta, a Quinta de Lemos produz alguns blends, aos quais deu o nome das senhoras da família: D Georgina, D. Santana, D. Louise e ao D. Paulette. O conceito de viticultura é para criar vinhos premium, desde a monda rigorosa até ao design cuidado das caixas de madeira onde vão todas as garrafas.

Subo, para atravessar a Estrada de Loureiro de Silgueiros, e no fundo da recta encontro o que procuro, uma ampla coleção ampelográfica de clones de Touriga Nacional. Do outro lado da vinha a adega, sonho de um financeiro e um contador de histórias, sim as marcas deste Armazém têm todas pés na vinha. São cinco gerações a fazer vinho, na Quinta de Vale Escadinhas, de onde saem os vinhos Quinta da Falorca, que também é uma das parcelas de vinho que dá titularidade aos rótulos. A Falorca são os Figueiredo. Pedro Figueiredo estudou Gestão e fez carreira na área financeira, até decidir trocar tudo pelo regresso ao berço, assumindo a direção comercial da empresa familiar.

Requalificaram vinhas, construíram a adega, criaram uma gama de vinhos que Pedro depois viaja para levar a vários países do mundo. O primeiro vinho, o Palha Malhada, chegou em 1999. Até esse ano, o vinho vendia-se a granel para a Adega Cooperativa de Silgueiros, que Carlos Figueiredo chegou a dirigir. A partir daí, engarrafaram sempre. A valorização do património com uma marca da vinha.

Na Falorca, há 13 hectares de vinha e 12 hectares de pinhal. Têm vinhos com as castas tradicionais do Dão, incluindo o Touriga Nacional monocasta, o T-NAC, um vinho enorme.

Já no regresso, topo a Quinta de Turquide, solário de boa estrela, em S. João de Lourosa. As vinhas foram reconvertidas, plantados pomares de macieiras e daqui saiu um dos primeiros Druída.

A Quinta da Turquide está na mesma família há mais de 80 anos, tem 7,5 hectares e 50% é da casta Touriga Nacional. Também há Encruzado e daqui saíram uvas para o exclusivo Druída branco, que não bebo há algumas semanas, pelo que haverei de chamar apontador.

E vou-me a Viseu, passo pelo Solar dos Vinhos do Dão, um distinto palacete que até há uns anos foi sede do Paço Episcopal e depois alvo de especiosa recuperação com projecto do arquitecto Souto Moura. Além do Parque do Fontelo, que lhe é adjacente, merece bem a visita. Se for com prova de vinhos, tanto melhor.
Vinhos concentrados, frescos e elegantes como só uma região granítica e envolvida por maciços montanhosos pode proporcionar. Para lá de uma altitude média acima dos 400 metros, há por aqui um cruzamento de influências mediterrânica, atlântica e continental, a proporcionar um ambiente que não tem paralelo em qualquer outra região. E isso reflecte-se no conteúdo das garrafas.
O Dão é a segunda região mais antiga do país, a primeira em vinhos tranquilos, com denominação desde 1908.

Depois de tanto beber, venha a cozinha regional, o Restaurante Santa Luzia, já na saída que liga a Lamego. Cozinha farta e com orgulho em servir os melhores produtos da região, vinhos incluídos. Soberbo o cabrito assado. Na mesma linha o Muralha da Sé, no centro histórico, igualmente exímio nos pratos da tradição e com excelente localização.
Para a digestão, o rumo é a zona histórica, com epicentro na zona da Sé, onde bares, esplanadas, espaços de convívio e animação se enchem de vida e gente nova. Há muita escolha, porém é no Obviamente que o serviço de vinho é mais eficiente e de maior amplitude.

Da cidade romana de Veseum do século I, à original muralha do século III e à centralidade política adquirida no século XII e que levou D. Henrique e D. Teresa a aqui se instalarem, no paço onde hoje está a Sé.
Por isso há quem sustente, fundamentadamente, que foi precisamente aqui que nasceu Afonso Henriques. A questão é que a cidade viria a colocar-se do lado da mãe na luta pela fundação de Portugal, em que saiu derrotada. E como dos fracos não reza a história…Com ou sem paixão histórica, aí está um aliciante mais para revisitar as origens pelas ruelas de Viseu.

Na Região Demarcada do Dão estão documentadas 80 lagaretas cavadas na rocha, em variadas formas, dimensão e épocas. A partir do séc. XII, com a presença dos monges cistercienses, existem alvarás e vestígios documentados. A partir do séc. XV, existe informação contínua referindo a qualidade e importância económica do vinho no Dão. Devido ao atraso da entrada da filoxera nos planaltos da região, no séc. XIX a vitivinicultura atingiu o máximo da importância, em alternativa às regiões vitícolas já destruídas com os flagelos americanos. António Augusto Aguiar, em 1865, promoveu a ideia da demarcação da região, contando com grandes dificuldades devido a uma situação política instável. Só em 1908 isso aconteceu, tendo sido revista em 1910 e depois em 1912 quando ficaram definidos os limites geográficos da Circunscrição, tal como hoje a conhecemos. Um enclave montanhoso, rodeado a Poente pelos picos do Caramulo e do Buçaco, a Norte e Leste pelas imponentes serras da Nave e da Estrela, barreira importante às massas húmidas do litoral e aos ventos agrestes continentais.

No século XX, o rigor do Estado Novo preservou o sector vitivinícola e incentivou o cooperativismo, foi criada a Federação dos Vinicultores do Centro e Sul de Portugal, substituída em 1937 pela Junta Nacional do Vinho.

São, todos eles, viticultores e enólogos apaixonados pela vinificação moderna, mas que também primam pela tradição e herança cultural, guardiões de um tesouro valioso e único, uma enorme variedades de castas autóctones.

E se tem dúvidas da cidade vinhateira e milenar, vá por Calde e Ribafeita, quem desce ao Vouga e lembra-se, do imposto sobre o vinho com que Dona Maria custeou parte do hospital da Misericórdia, hoje uma bela Pousada.

E o caminho para esta jornada? Boa pergunta e respondo-lhe já a seguir, antes pense na beleza agreste e nobre da Beira Alta. Prepare o seu espírito e a sua máquina, ou telemóvel, pois o caminho que se segue é um convite à contemplação e ao sabor, o itinerário foi traçado como um fio de Baco, ligando as quintas que guardam os segredos mais antigos e os mais recentes suspiros da região, a minha bússola é poética, levada pelo sentimento, se tiver dúvidas, telefono-me que eu vou consigo de promenade, o roteiro é vasto.

Mantenha-se na teia de Estradas Municipais que envolvem a zona de Silgueiros e Tondela. A proximidade a Viseu faz com que esta seja uma paragem fácil de ligar. Deixando o coração de Silgueiros, o caminho estende-se para leste, rumo ao concelho vizinho, onde a paisagem se eleva e o solo é mais rústico. Vamos à Vinha Paz, a partir da zona de Silgueiros, siga para a N 231. Antes de chegar lá, pare na Quinta da Falorca, de um lado e doutro da estrada de Silgueiros, essa bela recta. Para chegar à Quinta de Turquide, já a caminho de Viseu, a Nacional 231 volta a ser mapa, que também o traz ao final da jornada, onde as conversas ganham novo sabor e o vinho provado, e comido, pede mais companhia. Na cidade, a bar Obviamente espera-o no casco velho. Estacione o seu carro em segurança e permita-se o merecido brinde a pé, deixando-se envolver pelas ruas acolhedoras de Viseu.

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Lembre-se que vai viajar em estradas estreitas e sinuosas, que pedem cuidado redobrado com a velocidade. Confirme sempre os horários de visita e prova de cada Quinta. Que a jornada seja rica em aromas e a memória desta viagem seja tão aveludada quanto um Dão tinto de guarda! E, já sabe, se não topar caminho, faça-se anunciar e telefone.

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