O Caramulo é um daqueles segredos bem guardados que mostram o lado mais charmoso e puro do Centro de Portugal. É um lugar com uma vibe muito própria, que mistura uma beleza natural bruta com uma história de sofisticação e saúde que vem do século passado. Antigamente, o Caramulo era famoso pelas suas estâncias sanatoriais.



O motivo? O ar é incrivelmente puro. É subir ao Caramulinho, o ponto mais alto da serra, a 1075 metros de altitude. Se o dia estiver limpo, conseguimos ver um proscénio que se estende da Serra da Estrela até ao mar. E, confesso-vos, a subida dos degraus vale bem a pena pela vista de 360 graus. Ao lado, à espreita, há um outro miradouro, o Cabeço da Neve, pouso obrigatório, com uma vista deslumbrante sobre o Vale de Besteiros. A subida, e lá iremos valeria pelo Museu do Caramulo, museu eclético e de tanta qualidade numa zona de montanha. Tem obras de Picasso, Salvador Dalí e Fernand Léger. É o paraíso para quem gosta de clássicos. A coleção de carros e motas é uma das melhores da Europa, com modelos que contam a história do século XX. Se formos de almoço, não sair sem provar o Cabrito Assado, do Caramulo com Indicação Geográfica Protegida, tal como a Vitela de Lafões, comida de conforto, feita para aquecer o corpo depois de uma caminhada pela serra. E nisso que penso ao escrever roteiro vivido pelas tradições da Serra do Caramulo, combinando a hospitalidade das aldeias, a cultura automóvel e os sabores serranos.



Eu costumo sair de Campo de Besteiros em direção à serra. Para subir a famosa Ladeira, deve seguir pela N 230. Esta é a estrada serpenteante que leva para o alto, com o Vale de Besteiros a ficar cada vez mais pequeno lá em baixo. É o caminho clássico de quem sobe ao Caramulo, cheio de curvas que guardam histórias como a do meu amigo Aniceto e do seu vinho de estalo. Continuando a subida pela N230, faça o desvio para a aldeia de Pedronhe. Esta aldeia típica é um miradouro natural. Vale a pena parar para ver as vistas sobre o vale; em dias limpos, a paisagem é infinita e o ar começa a ficar com aquele perfume puro da serra. De Pedronhe, onde se pode almoçar com mesuras, siga para o centro da vila do Caramulo para visitar o museu.



O Museu do Caramulo, fundado por Abel de Lacerda, é único no mundo pela sua dualidade. De um lado, tem uma coleção de Arte Moderna com peças de Picasso, Dali e tapeçarias de Jean Lurçat. Do outro, o famoso Museu Automóvel, que alberga uma coleção raríssima de veículos clássicos, desde o Bugatti de 1930 até carros de Fórmula 1 e motas antigas, todos mantidos em estado de funcionamento. Aqui prefiro descer pela outra vertente, rumo a Vouzela por Alcofra. Depois de passar o alto da serra, começa a descer para o concelho de Vouzela, via M533 e depois M514. O cenário muda, tornando-se mais verde e húmido à medida que entra na zona de Alcofra.



Em Alcofra, a paragem é obrigatória para provar a famosa iguaria local, uma Sopa Seca. Não se deixe enganar pelo nome, é um prato tradicional de aproveitamento, feito à base de fatias de pão de trigo, ou broa, molhadas num caldo rico de cozedura de carnes, normalmente do cozido à portuguesa, levando bastante hortelã. Depois de montada em camadas num alguidar de barro preto de Molelos, vai ao forno de lenha a tostar por cima. O resultado é um prato reconfortante, denso e com um aroma intenso a hortelã e forno.
https://maps.app.goo.gl/K8kvHzQu7xhSEHiP6
Boa jornada e bom apetite em Alcofra! Este é um destino perfeito tanto para quem quer aventura, trilhos, parapente, como para quem só quer desligar do mundo e respirar fundo. E ver ainda o lento viver das aldeias, uma cozinha sagaz e aproveitadora e o mainstream de encontrar os modernistas na pintura e no viver. Sim, viver com calma. Mas, se me permite, sair fora do trilho, procurar aldeias mais esquecidas, como o Teixo, ou conduzir pela cumeada, em direção a Malhapão. Essencial, porque lhe permite ter um vislumbre destas montanhas, é descer por Vouzela e terminar, já em Lafões, com um pastel, a lembrar doçaria conventual.









