Com o petiz além Pirenéus, em dia de namorar e sem chuva, procurei a esplanada do Level, em Marzovelos, para mim o bar que melhor trata os vinhos em Viseu. E assim foi, 14 euros por três copos bem medidos, entre eles um Encruzado que minha mulher aprecia mais ao branco. Em noite seca, mas fria e esplanada sem os guarda-sóis abertos, que creio até terem aquecimento. Por lá uma displicência, compensada pelo facto de poder ser eu a escolher o meu tinto. Não havendo de serviço aberto, fui-me ao escaparate e suscitou-me a curiosidade este tinto, Quinta do Paúl, com uma pequena vinha em Vila Chã de Sá. Aberto, o frio aconchegou o copo e respirámos, eu e o vinho. Num segundo copo estava ainda melhor, mais carnudo, de cor vermelho carregado, anotou a Anita entretida a consultar mapas e localizações. O meu palato tomou-o como velho, os meus preferidos, mas revirei, eu e o barmen, e não lobrigámos ano de colheita. O vinho, saboroso para a quietude pretendida e não encontrámos consenso, eu a apontar 2014, minha mulher apostada no 2018.



Em bom rigor a regulamentação dos vinhos do Dão DOP – Denominação de Origem Protegida não exige a indicação do ano de colheita, porém é norma para a grande maioria dos vinhos de qualidade que encontramos no mercado. E este era bom, muito bom. O ano de colheita só é obrigatório sempre que o vinho pretenda ostentar categorias de qualidade superior ou menções específicas, como Reserva ou Garrafeira. Ainda assim, e mesmo nos vinhos de entrada, é do interesse do produtor colocar o ano para garantir a rastreabilidade e informar o consumidor.



Da prova, adorei este Quinta do Paúl, perfil clássico, com mão do enólogo Jorge Nogueira, que infelizmente ainda não conheci, e uma filosofia de práticas agrícolas responsáveis e sustentáveis, com intervenção mínima e uso de técnicas tradicionais, como a pisa a pé em lagar. O lote, num rótulo bem municiado onde crepitavam os 13,5% de volume, ideal para aperitivar o jantar, tem e estrutura da Touriga Nacional e bons aromas florais, a Tinta Roriz deu-lhe cor e corpo e o Jaen, cada vez mais uma casta apetecida, com suavidade e o perfume de fruta fresca. Predominam as notas de frutos vermelhos e pretos, com um toque de complexidade. Na boca, é daqueles que se recordam para sempre, encorpado, taninos macios e redondos, o que o torna elegante e fácil de beber, com um final persistente. Em boa companhia que este não pede meças à elegância.






