Veio de reforço, um segundo vinho em noite de acolitar um alto de bacalhau, assim uma bela posta de cura à antiga, carreada de cebola, uns bonitos alhos, um saboroso azeite do Mondego e umas extraordinárias batatas a murro, a nadar no precioso ouro verde. Convenhamos, é preciso robusteza para adornar o gadídeo. O Alfrocheiro debitou perfume, a Touriga Nacional assentou estrutura e os quase oito anos na botelha deram-lhe classe. Classe de clássico — o prato, o vinho e a vida, que há jantares assim, esfuziante e portentosos.



E nisto, sentado à mesa a olhar para o meu copo, por um fugaz instante o tempo pareceu suspender-se entre o cristal e o rubi profundo deste Pedra Cancela. Ali, naquele reflexo, não vi apenas um vinho de 2018, mas a própria resiliência da Vinha da Fidalga, cujas raízes mergulham na terra desde o século XVIII, resistindo a invernos e a guerras, histórias que tanto nos fascinam. Senti o aroma da Touriga Nacional a subir, altiva e soberba, trazendo consigo o sabor das violetas silvestres e a firmeza de quem guarda a honra da Beira. É uma casta estruturada, quase arquitetónica, que serve de baluarte a este lote. Depois, deixei que o Alfrocheiro me seduzisse, um vibrante companheiro de armas, fresco e jovial, que tinge o copo com a cor da paixão e nos acaricia o palato com a doçura das bagas colhidas na orla da mata, e dele sou devoto.

Este vinho, com os seus 13% de volume, não precisa de gritar para se fazer ouvir. É equilibrado, sereno e profundo, um verdadeiro fidalgo que sabe que a verdadeira força reside na elegância. Ao beber este néctar da Lusovini, senti-me mancomunado com o Dão, o granito e o sol que bate nas encostas. Bebemos a história, a terra e o silêncio. Este lote é um abraço entre duas das personalidades mais fortes do nosso Portugal vitivinícola: uma estrutura vertical e firme que lhe dá espinha dorsal. A Touriga Nacional é elegante e altiva, os anos passam-lhe por cima deixando um rasto de sofisticação. No equilíbrio surge a sedução do Alfrocheiro, de cor intensa, mas é no palato que brilha, com acidez vibrante apesar dos anos e notas de frutos silvestres. É aveludado, quase carnal, e traz uma frescura que faz com que cada golo peça o próximo. E sim, não deixei serventia ao dia seguinte.



A colheita de 2018, um ano que permitiu maturações equilibradas, resultou num vinho que já teve tempo para acasalar os seus taninos na garrafa. O mais? Músculo e identidade. O que chegou ao copo é o resultado de uma reconversão minuciosa na vinha que quis unir o saber técnico moderno à herança secular daquela terra. Vem tudo debitado no rótulo, para aguçar a curiosidade e levar passantes e comprantes. O resto é temperatura, os recomendados 18 °C, como manda o rótulo, para que a fragrância das castas não se perca. A namorar o vinho, esse Bacalhau à Lagareiro: posta alta, de cura tradicional, lascada com a pressão do garfo, revelando o branco imaculado que só o tempo e o sal sabem esculpir. É um casamento de linhagens — de um lado, a fidalguia da vinha; do outro, a nobreza do mar. Deixei que o azeite, esse ouro líquido, denso e frutado, inundasse o prato, unindo as batatas a murro, tostadas pela pele, e os alhos confitados que se desfazem na boca. É aqui que o vinho faz a sua magia. Onde o bacalhau é sal e gordura, o Alfrocheiro deste Dão responde com a sua acidez vibrante, limpando o palato, enquanto a Touriga Nacional se mantém firme, enfrentando a intensidade do alho com a sua estrutura soberba e floral.
Bebi, comi e silenciei-me.
Nada mais restou que não quedo, a saborear este momento, nesse abraço dos valentes.






