Chegar à Ínsua é um exercício de facilidade geográfica, mas descobrir a Casa, esse infindável palimpsesto de património, é um desafio à nossa capacidade de espanto. Entre a pintura que nos fita, a cerâmica que reluz e o mobiliário que guarda segredos de séculos, impõe-se uma formidável vista para o Castendo, onde a paisagem parece curvar-se perante tamanha altivez.




O caminho é, em si mesmo, uma liturgia. Saia de Viseu para Leste, seguindo a Nacional 16, onde os resquícios de uma arqueologia rodoviária notável nos recordam que o viajar já foi uma arte lenta. Volvidos doze quilómetros, o desvio para a Nacional 229-2 eleva-nos ao planalto de Povolide. Vá com o espírito atento, observe as vinhas, as macieiras e aveleiras; ao cortar para Pindo, entra no fabuloso emaranhado do Castendo. Aqui, aldeias de vetustos muros de granito protegem as vinhas como sentinelas de pedra, em ruelas estreitas onde a dureza da rocha contrasta com a franqueza desarmante das gentes.



A Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo, não é apenas um hotel de luxo e, com justiça, faz-se pagar pelo privilégio da sua atmosfera. É um solar barroco do século XVIII, um profícuo tesouro da Beira Alta com uma alma indissociável da terra e do império. Erguida por Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, o Governador e Capitão-General de Mato Grosso que trouxe o Brasil no olhar, a casa é o espelho de uma ligação transatlântica visceral.



Adentremos, então, na figura de Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, o demiurgo desta Ínsua, o homem que não se limitou a herdar uma casa, mas que nela inscreveu a cartografia de um império e a ambição das Luzes. Luís de Albuquerque era um homem de contrastes. O mesmo capitão que montava a cavalo em terrenos pantanosos era o esteta que encomendava porcelana da Companhia das Índias com o brasão de família, garantindo que, à mesa do Castendo, se servisse com a mesma elegância que nos salões de Queluz ou nas feitorias de Cantão. Falar de Luís de Albuquerque é evocar a figura do estrangeirado que nunca perdeu o húmus da Beira, o fidalgo que trocou o conforto do granito beirão pelo calor húmido e as fronteiras incertas do Mato Grosso. Ele não foi apenas um administrador da Coroa; foi um visionário que transportou, na sua bagagem de regresso, a imensidão do Brasil e o requinte do Oriente para os confins de Penalva do Castelo.





Nomeado por D. Maria I como Governador e Capitão-General, Albuquerque foi o braço de ferro de Portugal no interior profundo do continente americano. Enquanto em Lisboa se discutiam etiquetas, ele fundava vilas e fortes, desenhando a régua e esquadro os limites de um Portugal transatlântico. Dessa experiência de desbravador, trouxe a disciplina do geógrafo. A Casa da Ínsua não é apenas um solar, é a habitação de um homem que sabia ler as estrelas e medir os meridianos. Por isso, no seu recheio, os astrolábios, os quadrantes e os mapas não são adornos, são as ferramentas de quem governou o desconhecido.
Mais do que as paredes, Albuquerque deixou um conceito, a Quinta como Universo. Ao manter a ferraria, a queijaria e o lagar dentro dos muros, estabeleceu um ecossistema de sobrevivência e luxo. Ser senhor da Ínsua era ser senhor de si mesmo, produzindo o pão, o vinho e a inteligência necessária para não depender do mundo exterior. Hoje, quando percorremos os corredores onde o seu retrato nos observa, sentimos essa presença severa, mas iluminada. Ele não habita apenas a moldura; habita o rigor da geometria dos jardins e o corpo dos vinhos que ainda hoje levam o seu nome.
A fachada, de uma imponência quase litúrgica, guarda interiores que são museus vivos, povoados por objetos que atravessaram oceanos, vindos do Brasil e do Extremo Oriente.




Antes da penumbra sagrada do interior, o deslumbramento do exterior. O Jardim Francês apresenta-se numa geometria impecável, onde as sebes de buxo desenham um labirinto de cores que domestica a natureza. O Jardim Inglês é a sua antítese romântica, um refúgio de espécies exóticas e árvores centenárias onde as camélias, algumas únicas no mundo, florescem como joias botânicas. Ao centro, o Tanque, espelho de água onde a fachada se duplica, criando a imagem mais icónica e narcísica da propriedade.
Transpor o limiar da Casa é mergulhar na memória de Luís de Albuquerque. As paredes são uma galeria de presenças, retratos de antepassados que traçam a linhagem dos senhores da terra, entre telas barrocas e neoclássicas que evocam o esplendor da elite setecentista.
O mobiliário é um inventário de mundos, estilos D. Maria, D. José e Império convivem com peças de madeiras exóticas, trazidas de além-mar. Destacam-se os contadores, esses móveis de mil gavetas destinados a guardar o que é precioso, as camas de dossel que convidam ao sonho histórico e as mesas de jantar, palcos de uma sociabilidade imponente.
A porcelana da Companhia das Índias, com o brasão dos Albuquerque, fala-nos de encomendas feitas no coração do Oriente, dialogando com a faiança magnífica do Rato ou de Coimbra. Sobre o chão, as tapeçarias flamengas e francesas abafam os passos e aquecem o olhar, enquanto os mapas e instrumentos científicos revelam o espírito iluminista de um fundador que quis cartografar o mundo.
A Ínsua não se limita à contemplação; é uma unidade produtiva pulsante. Ali nasce o vinho DOP Dão, sangue da terra com rótulo de prestígio, e o queijo que guarda o saber da queijaria própria. O azeite e as compotas são o extrato purificado dos pomares da quinta.



A cozinha antiga e a oficina de ferraria permanecem intactas, testemunhos de uma autossuficiência senhorial que o tempo não ousou apagar. Antes de partir, a passagem pela loja é imperativa, entre a louça vibrante de Bordallo Pinheiro e o néctar da Casa, leve consigo um pedaço deste microcosmos e parta, finalmente, à descoberta total do Castendo.









