O “Velho” Barbosa, sim pedi-lhe autorização para este trato. O Enorme Barbosa deu-me, da generosidade mais pura que há. Conheci-o assim um dia de Primavera adiantada, bancos no pátio e conversa. E o que eu aprendi. A começar na estrada.
Em 2014 dizia, talvez mais ao antes, quando os caminhos do Dão se revelavam em cada curva. Fizemos, a Isabel e o Valter quando estávamos na Cacho, fizemos, chego-lhe, um vídeo fabuloso a subir Povolide, descer a Pindo e arribar na Corga. Quinta da Corga.
Cito-me, desse registo que o tempo não apaga: “Entrar em terras de Penalva é escancarar as portas das cepas; uma ouvidoria à escuta do Dão e conhecer a paixão pela viticultura. Estamos no berço da Touriga Nacional, todo o Dão o é, mas na Adega da Corga, na freguesia de Pindo, o esplendor vai mais longe e esta casta é a garantia de bons vinhos e do preenchimento das três parcelas da casa agrícola da família Barbosa”.
Ali, gerações de viticultores agruparam-se na Adega da Corga, deixando o leme entregue a Rafael Barbosa Formoso, o neto que o Velho Barbosa viu crescer entre os bardos. A vida crescida nos vinhedos e amadurecida na enologia da UTAD), unindo o saber empírico do Avô ao rigor da ciência. Fui eu que o pressenti, o diálogo perfeito entre o passado que plantou e o futuro que vindimou.
O Velho Barbosa. Soube da novidade por entre o chilrear da passarada, o cantar do galo e o dia a erguer-se. Homem robusto, firme e justo. De saber. E fazer. E mostrar. E explicar. De tudo do vinho, do bacelo ao pipo, da poda ao lote final que descansa na cave de granito. Fica-se de alma doente pela partida, mas de coração alegre porque o guardamos assim, naquela cadeira de ensinar, onde cada palavra era saber passado, ali mesmo, ao da jornada, ao que ia. Um ensinamento de vida. Fico-lhe com mais pertença. Explicou-nos o ser. E o saber.
Deixou uma Corga viva. Deixou o Adega da Corga Touriga Nacional, esse vinho que é o espelho da sua alma, austero, mas profundo; elegante, mas com a força da terra. Deixou bons vinhos, acepipes, merendas e a Corga mais o Pindo unidos no mapa da excelência.
Boa leva, bornal cheio. A viticultura mais praticada e assinada por ele, um Bom e Enxuto Lavrador. Sinto-lhe a falta, como se sente a ausência de uma árvore centenária que dava sombra a toda a aldeia.
Mas fica a sina da metáfora e da semiótica nas mãos do Rafael. O neto não herdou apenas a terra; herdou a responsabilidade de manter o esplendor que o avô desenhou e que já leva a sua mão. Eis quem soube transmitir conhecimento e passar testemunho.
Eu, só posso agradecer cada conversa, ali, de gravador posto, para a telefonia e para o mundo. Saibamos ser merecedores desse legado. O Senhor António Barbosa continua presente, em cada garrafa aberta, em cada videira que brota. Lá. Na Corga. Um douto senhor do Dão.









