

1992 foi um ano bom. Chegou ainda eu trabalhava na dobra do ano, era uma tradição de puto imberbe, trouxe um mês de reclusão em Vila Franca de Xira e um Agosto de tasqueiro em que tudo era medido a xicaras que se escorriam no final do alvoroço que era preciso pagar ao Zambujo quando não a cantina não fiava e o Roque não nos doseava os cigarros.
Ganhei uma fita no boné e fiz-me ao mar quando os cachos começavam a ser vindimados. Eram tempos de vinhos rudes, aqui e ali vetustos, mas sempre reclamando tempo. O tempo de ver, de voltar a ver, de rever e enxergar.
Calhou-me, num destes domingos de Páscoa que agora só desconto os dias para a Festa das Cruzes, uma nesga desse ano. Na bordada. No bordo de lá deste Caramulo que me faz ser bairradino e dãodino que as regiões já juntaram, nesses tempos rudes, o mau para lotear o bom.


Hoje estão umas jovens viçosas, frescas e roliças que se emborcam a tragos largos, empanzinando uma cozinha rica e gorda, subtil e ténue. Uma cozinha merecida que muito vi, muito quero ver e tudo apreciei, mas nestas berças temos por cá de tudo que fora eu gigante e viveria na cumeada do Caramulo, com o nariz atirado ao Varosa que o diabo está sempre ao sopé das serranias.
Mas a prole atira-me para esta montanha com encosta a poente e vertente a nascente. E de cada vez que rasgo o Buçaco, ou atravesso o Vale de Besteiros agiganta-se-me a vida. Tal qual quando desço a Maeira e subo à Santa Eufémia que o Zonho vem no final do Vale de Cavalos e antes há nogueiras e cepões, bertelhes e coitos. E tudo encoitamos pelo que traguei-o com os cuidados que devemos devotar às coisas velhas. Emancipado por um colheita, um cru tinto de lavrador, arejado na prova e ligeiro na samarreira, ainda acrescentei uma sacudidela ao pó. Velho. De 1983. Esse, de que me lembro. Deparou-se, atirou-se aos olhos melhor dizendo, o cofre-forte das riquezas. Das de aquém Mondego e além Dão.
E já na saída, com o sorriso curioso do Cachopo e a franqueza previdente da Miúda, espreitámos detrás da porta, as iscas e o conchinillo mereceram-se e todo o caminho fez sentido, que construir é tarefa infatigavel.
A lechón aprendida, o nome do obreiro que me mostrou outra botelha – cuja epopeia haverei de contar num destes verões. Mais do resto ficou a amizade e a aragem que acantonei do lado de cá do Caramulo.
Arrumei-a ontem e hoje. Ontem decantado com delicadeza, respirando tranquilamente, arejando a noite, preguiçando a manhã. Vermelho. Um vermelho carnudo e um sumo enxuto, cheio de generosidade. Uma glória, amuderecendo com garbo, aquil e ali um excesso de velhice, na essencial cousa poderosa que enrolou os tomates e cheirou o bacalhau. Um veludo adocicado a descer às goelas apojando-se ao estomago, namorando o palato, inquietando as beiças. Uma morrinha que nos adocica, enternecendo a língua, entaramelando as vinhas, a pensar no que fazer às vides, cozendo a batata e chegando alho às iscas.


Aquele vento quente da nossa infância, a tepidez dos dias intermináveis e tempo que a tudo chega, tudo pode. Foi como nesta botelha. Graça a Deus passou a insolvência da cooperativa, que tão bom reportório deixou, enroscou-se ao passar dos anos trocando o vermelho vivo pelo encarnado carnívoro, um doce a lembrar caldas e marmeladas, um licor tocado pela bondade da velhice, coisa simples e delicada, coisa que nos afaga a amizade e que nos lembra que na pinga, está trabalho e sabedoria.
Merecimento questa formosura é uva que se aquieta ao esquecimento, se esbanja na guarda, se prolonga para o dia.
E o dia, o tal dia, foi este que o vinho é como nós, a mim, tu, e eles, nós todos e os outros. “Com o tempo os maus azedam e os bons apuram”.
E tem Guardão, Cabeço do Velho e um Monte ao São João. Uma Castanheira ao fundo da Ladeira e percebemos. O Lá e o Cá. Envelhecer é uma arte e felizes estes que se prolongam antes da mão.
Viver não é o que fizemos nem o que vamos fazer, mas o que estamos fazendo. Acartando. Congregando. E felizes os convidados para a merenda do Velho!






