Vem lá a Feira, a Grande Feira do Vinho do Dão!


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Vem lá a Feira, a Grande Feira do Vinho do Dão!

Lá, nos socalcos do Dão, a vindima está por estes dias a começar e no Largo do Município celebrar-se-á o vinho. Lá, em Nelas, vinhedos imensos, debruados por oliveiras, olhados por Dionísio, namorados por Baco, guardiões de pipas e de cachos, que a terra é de quem a ama. A cuida e a trabuca.

Nelas é a Estrela ao alto, Caramulo à vista, prenúncio de Bussaco, ou Buçaco se os puristas o reclamam, concelho que vive. Vive de Vilar Seco à Lapa do Lobo, do Alfrocheiro à Malvasia, como quem desce da Aguieira para o Carvalhal, Redondo como o Pilongo. Encruzado como quem abala de Canas de Senhorim a Moreira. Um Santar, uma Trincadeira, um Bical aqui, uma pincelada de Tinta Roriz acolá. Uma Malvasia Fina, netas e entrenós, abrolhamentos e gavinhas.

Nelas é povo bom, entre Dão e Mondego, cepas e vinhas com pendão e porte, uvas de dezenas e muitas castas, Rufete, arreia nomenclatura, Tinta Pinheira digo e acrescento: Verdelho, Campanário e Castelão, Cidreiro e Jaen. Todas as nossas.

Nelas, coração do Dão, vive e trabalha por entre os solares e a história, a penedia e a adega, os fornos e a indústria, o comboio que haverá de voltar a apitar nesse colher e desengaçar.

Socalcos e encostas, montes e vales, roseirais e laranjais, palácios e solares, granito velho, casas nobres. Do Tavares e dos Rosados. Ermidas, igrejas, capelas…de Nossa Senhora da Tosse, que o povo mudou, pedra por pedra.

Este concelho de Nelas, situado entre rios que se cruzam Norte, Ocidente e Leste, é o vértice que rasga estradas a outros distritos que a circunscrição é grande e em dia de vindimas é festa e isso é muito mais que vinho.

O coração da Região do Dão, Demarcada em 1908, recebe negócios e alegrias, em chão antigo. D. Sancho fez aqui Cabeça de Couto, um exímio mosaico, outorgado por reis e governos. Mas, estas terras têm outros tesouros, supranumerários essenciais.

A Urgeiriça, das minas e do hotel dos ingleses.

Outras curas, outras águas, nas Caldas da Felgueira, por onde vinha meu avô e nós para o ver, termas que terão curado o padre José Lourenço, que o outro, o padre José Inácio de Oliveira fez erguer tábuas para os banhos e, com eles, a capela do Bom Sucesso. E lá vieram os viandantes procurar nas Caldas da Felgueira a cura para as maleitas… Águas termais que se deram a conhecer ao mundo nas Exposição Universal de Paris em 1867.

História, cultura e enoturismo…triunvirato fecundo e no dote, património, casas que hoje são propostas turísticas. E de cultura, com a Fundação Lapa do Lobo, a Casa das Fidalgas, do Cruzeiro, o Solar dos Abreu Madeira, pelourinhos do Folhadal ao Vilar Seco, da Aguieira a Canas de Senhorim. O Paço dos Cunhas ou, por lá, dos Filipes…

Casa antiga, com adegas e labirintos de flores. Granito, oliveiras e vinhas por entre pinheiros e roseirais. Outro, o histórico edifício da Federação dos Viticultores do Dão e as rosas, que daqui correm à Europa.

Nelas é terraço que namora a serra da Estrela, vinhas acolitadas nos pinheiros, laranjeiras que coçam as cepas, que se ampliam, se crescem e se multiplicam.

Descoberta de quem pisa a terra, cheira uma adega, ouve o comboio…Ferrovia que há muito aqui chegou, locomotivas com estação em Nelas e apeadeiros no Folhadal, Felgueira e Lapa do Lobo. Carruagens que trouxeram a indústria, os empregos. O design, as venturas da cortiça, as fábricas, que se estendem na zona industrial quase até ao IC 12.

Geografias rasgadas pelo Dão, gente decidida, paisagem que nos inquieta. Tradição e modernidade, gastronomia soberba, a concupiscência na identidade, um coração aberto do tamanho dos vales e acerros, surribas aqui e ali, serranias e um vinho que nos sobressalta. Adoça, seduz, com uma personalidade única. Obstinado, rústico, melífluo, tranquilo, rude, suave. Libidinoso. Carnal, quase lascivo.

É primeiro fim-de-semana de Setembro. Todos os anos, com o aproximar das vindimas, a Praça do Município, em Nelas, ganha vida. O Coração do Dão acelera o pulsar, as batidas sincronizam-se e aqui se celebra a Região Vinícola. O Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, experimentadores de garfos, bacelos e castas. Ali se guardam verdadeiros tesouros, vinhos do Dão, velhos e raros, brancos e tintos, que mostram como são capazes de se aquietar anos, para soltar alegorias em mesas de feitoria.

Destacado papel de Manuel Vilhena, evidente na criação de um tipo de vinho do Dão de qualidade inigualável. Desde cedo ficaram famosos os vinhos da Quinta da Cal, já o nosso merecimento tem sido escasso. Mais de 25 milhões de litros de vinho do Dão, que engrossam os 610 milhões de litros, mais almude menos almude, que os vinhos portugueses somam juntos. E mais valor na garrafa, para chegar ao lavrador, o benfazejo.

Guardadores da história da terra, continuadores da melhoria das cepas. Casa de saberes que saiu do engenho de Monteiro do Amaral, gizada por Luís Quartin Graça. Homens lendários, como Magalhães Coelho e visionários…. É aqui em Nelas, na Quinta da Cale, que se abriga a mais extraordinária colecção de castas regionais, ampelografia em vinha tratada pelo saber fazer.

Touriga Nacional, rapariga de méritos e que nos últimos anos andou a dar umas voltas por outras latitudes, esmiuçando as potencialidades que lugar quer ocupar este coração no mapa das regiões vinícolas.

A vindima é já a seguir e nalguns lados até começa pela noite. Mas isto não é só desengaçar, esmagar e vinificar. Para isso é preciso adega. Lá está, a da antiga cooperativa, recuperada, pelas mãos da Lusovini.  

E no campo, pés no prado, centenas largas de bordaleiras, que haveremos de ter alavão e o queijo Serra da Estrela, amanteigado, de cortar em talhadas enquanto se pensa em debicar esse outro queijo, aquele velho que na Serra é qualidade ser duro.

Hoje a pisa manual é coisa festiva, há mais de quatro mil anos que se produz vinho. Fenícios, Gregos e Romanos mantiveram a tradição da produção do vinho na Península Ibérica. Vinhos manuais, ancestrais, criados com moderna tecnologia, ciência, agronomia e enologia, que a ensinam ali na Quinta da Alagoa, não a de cá, a de lá.

São as festas, no lagar e no lugar, comemorações das colheitas em honra de Dionísio e de Baco, da transformação do fruto em vinho, sangue da terra. Suor também.

E os escanções, companheiros profissionais de ofício, especializados e conhecedores de vinho. E lá está, desde 1966, a Estátua do Escanção, ali ao Largo General José de Tavares. Em Portugal outra não lhe conheço, e no mundo também não. Além de recomendarem vinhos cuidam da sua compra e da cave. Não são unânimes os filólogos quanto à origem do vocábulo, que significa aquele que repartia o vinho, que deitava o vinho nas taças dos convivas.

A Associação dos Escanções de Portugal, a que eu tenho subida honra em pertencer, tem-no feito notar. Moreira das Neves também. “O primeiro escanção que houve em Portugal, feito por D. Afonso Henriques, parece ter sido Fernão Peres, cavaleiro que gozava do maior prestígio. Em 1278 havia o scançanus maior entre os oficiais do sucessor da Coroa.

O tempo e as modas fizeram esquecer o velho escanção das Cortes reais e coube à extinta, mas lembrada, Junta de Turismo das Caldas da Felgueira, por iniciativa do seu presidente, dr. Eurico José de Loureiro e Amaral, já falecido, apontar-lhe o nome e consagrar-lhe, em 1966, no Largo General José Tavares da vila de Nelas, um monumento, apresentando-o de trajo à moderna, com a tambuladeira simbólica. No plinto, a legenda de homenagem: ‘Ao Escanção Por Bem Servir’. Na constituição heráldica das armas de Nelas entram, no chefe, dois cachos de uvas de púrpura e folhados de verde, e, no contrachefe, um cacho igual. Quer isto dizer que Nelas tem como honra ser terra de bom vinho. Também agora se pode orgulhar de ter levantado ao escanção o primeiro monumento do mundo”.

A estátua de Nelas foi traçada pelo escultor Domingos Soares Branco e Eurico de Amaral, , filho, conheceu e contou-me as ditas do Ferramentas. Boa sorte, teve o escanção Fernando Ferramentas, que na época trabalhava no Hotel Aviz, em Lisboa, onde Eurico de Amaral ia almoçar algumas vezes e que serviu, diz este meu eu temerário, de inspiração ao escultor.

Acredito que o comércio tem de ser mais robusto, lavrar mais leira, acartar mais euros. ‘As músicas que o vinho Dão’, do Leal e da Sandra, livro que fica no tempo, contado. Letras e acordes que o pressentem na ambição. Contado como as preocupações, os cansaços e a festa. E mais uvas. Encruzado, a timidez com que se apresenta nos primeiros meses de vida é contrabalançada, porém, com uma exuberância e longevidade fora do comum, que surpreende tudo e todos. Haja estágio, nos carvalhos ou nas botelhas, descanso, pois à frescura e vivacidade próprias da casta associa-se, numa combinação perfeita, a complexidade dos aromas do envelhecimento. E ficar velho é uma arte. Como a da Touriga Nacional, nada e criada no Berço do Dão, ex-libris da viticultura portuguesa, não temendo confronto. E se há fama no Dão a esta casta o devemos. Cincinnato da Costa, em 1900, considerava-a quase exclusiva das vinhas do Dão, entrando em plantações numa proporção de 9/10. Grande capacidade produtiva e excelência qualitativa da Touriga, fraca suscetibilidade a doenças criptogâmicas. E, no rasgo o Visconde de Villa Maior que dela escrevia, “dá ao vinho um gosto de fructo muito agradável, que faz lembrar o da maçã reineta”. Aroma intenso, silvestre, esteva, a cor que o tempo traz, o aveludado e delicadeza do seu sabor são atributos que testemunham a personalidade e nobreza desta casta.

O favorito, todos o temos, Alfrocheiro: não é citada pelos autores que estudaram as cepas e até parece que surgiu ligado a uma casta branca cultivada no Dão e que hoje se chama Douradinha. Alfrocheiro ficou desde 1909, também conhecida por Tinta Francesa de Viseu.

É tempo de colher as uvas, são os dias mágicos da vindima, o longo fim da aspereza do trabalho, alegria pelo desenlace…haja sol que vão correr suores, escorrer lágrimas e estalar foguetes, meio cuidado acabou, é época de recolher proveito, estagiar rendimento e desengaçar…desengacemos que daqui até ao S. Martinho é tempo de lavar cestos, é tempo de vindimas.

Setembro é um dos meses de inquieta meteorologia, o São Pedro e os céus são mais olhados e contemplados. O Dão clama calor de estio e água, não tem faltado, provavelmente muitos mondaram, e ainda assim esperamos crescimento, dos proventos. Bem precisos são, em ano farrusco de cinzas. Antes pegar na tesoura, no balde e cortar as uvas. A jornada é longa, depois de 11 meses na vinha, entre Setembro e Outubro são dias senfim, como no tegão, a rolar e a pisar. A vindima são quotidianos de caixa às costas, poceiros semfim, assim mesmo, como no tegão.

E chegar lá? Bom, uma das mais extraordinárias e belas vinhas é a do troço da EN 231, que atravessa Santar…onde a Dão Sul tem o Paço dos Cunhas de Santar, por lá a mais emblemática propriedade vinícola do Dão, Contador de Amores. Ou pela Nacional 234, ao encontro da Quinta de São Simão da Aguieira. Ainda assim, retomo Santar, a maior mancha vinícola de Portugal, 103 hectares de área, o lar da formosa parcela da “Vinha dos Amores”, onde são colhidas as melhores. A paixão e a volúpia pela terra. Tradição.

Pelo peso da sua história, pela dimensão e pela notoriedade dos seus vinhos, arre caramba, são mais de um cento de vinhas e jardins. Santar, ainda ao cruzado, merece outra ousadia que não singela contemplação.

Juntar iguarias aos vinhos, entreter e boca, o sonho, sempre adiado, de tornar Santar um nervo deste Dão, uma vila capaz de reunir sinergias entre vinho, património, lazer e turismo.

E as Fidalgas de Santar? Além de vinhos juntam-lhe os produtos típicos da terra: o queijo, o mel, o pão e o azeite, economia que puxa pela prensa.

Pulso de homens e mulheres que rompem o granito, sobem os socalcos e contam histórias. Que resgatam vetustos prédios, como foi agora com a compra da Vinícola de Nelas pela Magnum Wines de Carlos Lucas, e a Feira a promover negócios que empurram sustentos.

A Vinícola, fundada em 1939 por amigos beirões, a cumplicidade também granjeia, que em plena segunda guerra mundial decidiram criar uma empresa que permitisse comercializar os vinhos do Dão por todo o mundo.

Apesar das várias e muitas técnicas, e da ciência, eu bem sei, penso eu, avaliar a altura de vindimar…quando os pés das uvas estiverem murchos e as peles dos bagos começarem a contrair. Noutros tempos era assim na Quinta da Alameda…um prodígio de 15 hectares de vinha, em Santar, feito em produção biológica.

E o depois? Na adega, as uvas são depositadas num tegão e selecionadas a partir de um tapete rolante; segue-se o desengaçamento das uvas e o esmagamento, do qual resulta o mosto; o mosto, por sua vez, é fermentado e assim transformado em álcool; no final do processo de fermentação, o vinho é armazenado em depósitos de madeira, cimento ou inox.

O clima no Dão sofre simultaneamente a influência do Atlântico e do Interior, por isso os Invernos são frios e chuvosos, enquanto os Verões são quentes e secos. Vinho pisado em lagares antigos, modernas adegas, um Dão autêntico que é melhor guardar, reservar, de aperitivo, e esse vinho comido, ranchos e cabritos, feijocas e entrecostos, riquíssimas iguarias e finos néctares. Vinho amaciado por mãos rudes e, no entanto, generosas! Mãos de almas inquietas que afagam a vinha e arrancam das mandibulas das serranias o sustento que torna abastada a mesa e fraterna a amizade.

E eu? “O Homem é o Homem e as suas circunstâncias”, dizia Ortega e Gasset. O que é o Homem? Quais as circunstâncias em que se encontra?”. Pois bem, recomenda-se, decidido pelo livro arbítrio de cada um, sou eu e os meus excessos, copo aqui, cigarro ali, mas há; também e ainda; o que se faz, e o amor, essa paixão que nem sempre encontra “o tempo certo do vinho” e prefiro não ir. Não encontro rasgo, tão pouco me doem os cotovelos, essa, essa é alma que me cansa pelo comezinho, sem ganas de crescer além, indo mais longe.

E, todavia, isso não me estorva, venham pois! Ribombe-se o folguedo, vire-se a casaca, subamos às montanhas e serras, tragam um Açor, corram um Alva. Ao Dinha, chamem Besteiros, Azurara pelo Mondego, Silgueiros e Senhorim, todos pelos Dão.

Tragam algazarra, um Buçaco, brando de preferência, que somos todos bastardos, filhos de um Alvarelhão. Um Alvarelhão preto, preto de Mortágua, somos finos, finos como a Malvasia, borramos as moscas, somos um Barcelo com Rabo de Ovelha. Uns Terrantez e tudo isso e muito mais que é festa, suor, calos, cortes e tesouras. E garrafas, caramba e garrafas na economia. Eis a poesia que os vinhos nos Dão…

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