Regresso a Carregal do Sal


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Regresso a Carregal do Sal

Fiz-me ao Carregal do Sal manhã cedo, uma oitava de quilómetros pela Nacional 231 e, ali meio escondido pela vegetação, eis o marco da estrada que assinala a Baiuca. Compulsado o dicionário lá me assinalou a taberna. Estou no caminho para chegar, lá a Currelos, não sem antes atravessar o Loureiro e avançar às Cabanas do Viriato. No vestir, camisola larga que a Primavera vai de contento e sapatos de caminhar a condizer com os calções. Carregal do Sal é jornada ampla, para mais de três dias se quisermos esmiuçar o concelho, com o rigor geográfico das estradas e focado na alma vinhateira das quintas.

O motivo da jornada foi a apresentação de uma agenda de eventos, que começam já este fim-de-semana com o AquiDão Fest, mais virado para os bairros digitais e que traz com ele um festival de ‘street food’. Em Maio temos a Edição 2026 da ExpoDão, incluindo o II Rally Espumante do Dão, mais a pinha e o pinhão, o vinho e o espumante do Dão, o sal e um arroz colaborativo. Tudo motivos que me levaram a uma das minhas estradas predilectas, a descer ao Dão, por Sangemil e ainda bem não já subo a Cabanas de Viriato. Vinhedos, oliveiras bem cuidadas e pinheiro mando a bordejar as margens ao rio e eu, lesto, pela M590.

Com o espírito aberto, seguimos pela M585 para cumprir o ritual da gastronomia premiada. No centro de Carregal do Sal, o Talho do Luís espera-nos com a sua alheira de cozido à portuguesa. É um prodígio de engenho, o sabor do cozido tradicional, comprimido num enchido que pede um lume brando e boa companhia. A poucos minutos, a Queijaria Flor da Beira oferece o contraponto, o queijo premiado, cujo aroma a flor de cardo e leite de ovelha bordaleira é o perfume da região.

Almoço em Currelos, lá vos contarei, localidade situada no atual município de Carregal do Sal, antiga, ainda dos alvores da nacionalidade portuguesa, possuindo raízes que se estendem até ao período romano. Aliás, Currelos foi, durante séculos, um centro de poder local, funcionando como julgado e unidade administrativa, antes de se integrar no concelho de Carregal do Sal. 

A tarde convida a serpentear as estradas secundárias até à Quinta Ribeiro Santo. O nome vem do ribeiro que atravessa a propriedade, onde as vinhas, rodeadas de pinhais, dão vinhos de uma frescura vibrante e grande longevidade. É aqui que o enólogo Carlos Lucas interpreta o terroir de forma magistral, oferecendo brancos minerais que ligam na perfeição com o Queijo Flor da Beira.

Para fechar o ciclo de “duas mãos cheias de quintas”, o concelho revela-se em cada desvio. Ao percorrer a N234 e as ligações para as freguesias de Currelos e Beijós, cruzamo-nos com o legado de produtores que mantêm o Dão no topo. Do concelho sai 35% da produção total de Vinho do Dão e antes do sol se pôr, uma passagem pela Oliveira Milenar, de Casal da Torre, sob os seus ramos, o tempo para.

Fora Verão e iria em busca dessa paz, na Praia Fluvial de Papízios, descendo pela M595. Com o Mondego a correr aos pés, abre-se uma garrafa de um destes produtores, corta-se uma fatia do queijo e outra da alheira. Ali, entre o rio e a vinha, percebe-se que Carregal do Sal não se visita apenas, saboreia-se com a lentidão que as coisas boas exigem.

Anote na agenda, no próximo fim de semana, o AquiDão Fest, virado para os bairros digitais e festival de ‘street food’; ainda em Maio a Expo Dão, com foco mais no setor empresarial e na viticultura e, em Julho as festas do concelho.

Entre 12 e 20 de julho, realizam-se as festas do concelho, evento “mais virado para as festas da população, com música e tradições” – e a pensar nisso, ao longo dos nove dias o palco da praça vai receber diversos artistas nacionais.

Se o bulício requerer introspeção, há outro roteiro. Carregal do Sal é um dos pontos mais importantes do megalitismo na Beira Alta, integrando a rede europeia Megalithic Routes. O concelho oferece um dos percursos pré-históricos mais bem preservados do país.

Parta, depois de visitar, o Museu Municipal Manuel Soares de Albergaria onde está o espólio recolhido nas escavações e contextualizar a importância destes monumentos (atenção: encerra à segunda-feira). O Dólmen da Orca (ou Orca de Fiais da Telha) é a “joia da coroa” do roteiro e um Monumento Nacional.

É um dos maiores e mais bem preservados dólmenes de Portugal. Impressiona pelo corredor longo e pela câmara que mantém a laje de cobertura original. Ainda é visível parte da mamoa, o monte de terra que cobria a estrutura.

As Orcas do Ameal estão situadas a sudoeste do Dólmen da Orca, são monumentos mais antigos, cerca de 6.000 anos. Câmaras poligonais mais simples, que demonstram a evolução das técnicas de construção megalítica na região.

A Orca da Palheira é outro exemplar significativo que integra este circuito, reforçando a densidade de monumentos neste planalto granítico.

Estes locais completam o percurso, oferecendo uma visão clara de como estas comunidades utilizavam o território, não apenas para fins funerários, mas também em estreita relação com a paisagem e o Rio Mondego.

O circuito completo tem cerca de 12 km (linear, com ramais), mas os monumentos principais (como o Dólmen da Orca) são acessíveis de carro por caminhos rurais sinalizados.

A não perder: As vistas para a Serra da Estrela a partir do Marco Geodésico da Víbora, que fica próximo do trilho e oferece um enquadramento paisagístico soberbo sobre o vale do Mondego.

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