

Altitude. Foi esta menção frontal no rótulo que me assarapantou. Refresquei-o e bebi-o, não no observatório dos costumes, antes na tardoz, que me deu a companhia de fecundo sol. E o rosado. Explicar ao bebedor logo ao que vai, ainda antes da rolha saltar e de prévio esfriamento.
Touriga Nacional e Alfrocheiro, loteadas com saber, deram-me este Naco Rosado de Altitude 2023, já lá subimos, antes os 13º, que me obrigaram a surripiar um bocado ao Serra da Estrela Velho, 180 dias curados e descansados na tábua, consistência quebradiça e untuosa. Um quase alaranjado que partilhou cor com o vinho. Cor e palato, o picante do queijo a arrancar das entranhas do vinho taninos sofisticados, educados, saborosos. E o casqueiro, como de costume, Rio Maior. Os dois, juntos, aferrolharam a barriguinha e ali ficámos, a matutar na pinga.
Criado pela Casa Américo, com vinhas em terras graníticas entre os 400 e os 600 metros de altitude, chegou intenso, boa fruta, acidez final e um belo final, de trago único e, serenem, ele lá fica, inquieto, sabendo bem, que voltamos a ferrar-lhe lábios.

Américo Seabra, o fundador, plantou cepas em Vila Nova de Tazem e acrescentou sete quintas ao cadastro fundiário. Um palacete no centro da vila, com 10 mil metros quadrados de vinha. Não sei de onde chegaram estas uvas, para um vinho que custa 9,99 euros, na distribuição, e que é fiel companheiro de tardes fecundas de sol e ligeira brisa. Bom de conversa, elegante e harmonioso, um delicado vinho para um belo fim de tarde, que reclama acepipes. Que o diga eu, atirado a tamanha ventura que tive de lhe chegar, ainda, marmelada e um naco de chouriça para roer. E sustentar, que o rosado tem boa estrutura.
Lembremos que a Casa Américo adquiriu, e colocou em funcionamento, a extinta Adega Cooperativa de São Paio, em Gouveia, ganhou capacidade de vinificação e armazenamento. E assim se resgata património e se preservam identidades. E neva em Gouveia. Pelo que Altitude e altitude estão lá. Na garrafa.
Produzido com uvas da campanha de 2023, ano bom apesar de alguns extremos, recebeu da meteorologia a bênção que deu ao Alfrocheiro e Touriga Nacional um atempar e, de miúdas, a fresar qualidade, refrescadas com as chuvas de setembro. Boas uvas, num rosé ainda jovem, pelos meus padrões, mas sério e firmeza no final. Um vinho sólido, que ganhará com a guarda, como a Touriga o exige.
Agora sim, subamos à montanha mais alta da Nação. Confesso, não conheço se a designação tem respaldo regulamentar. Mas em boa verdade os vinhos de altitude, ou montanha que neste país teimamos em ter regulamentação diferenciada, são o futuro. Respondem melhor aos desafios das alterações climáticas, com a excelente amplitude térmica das regiões altas. Não sei, em boa verdade, onde começa a altitude, mas num país que tem a Torre a dois mil metros, não podemos exigir que a mesma comece nos mil. Saibamos ver e subir a montanha.
No site há boa informação, o consumidor moderno aprecia esta designação e a prática vitícola da Casa faz o que lhe compete.
No estio as uvas amadurecem ao calor do dia e as videiras descansam com a noite, para reter maior frescura e acidez. É esse o segredo, agregar mais acidez ao vinho.
O Naco Rosado de Altitude, arregimentou-se, em 2023, com a atitude. Bebam e preservem.






