O Fonte do Ouro Branco 2023, da região do Dão, é um vinho branco produzido pela Boas Quintas, em Mortágua, desenhado pelo enólogo Nuno Cancela de Abreu. O que importa. Nuno Cancela de Abreu quando chegou ao Dão, tenho para mim que nunca de cá saiu embora lhe reconheça o profícuo currículo, veio para criar vinhos com identidade regional, frescura natural e elegância contida. Aliás, é dele um dos brancos Dão Nobre, a classificação mais alta da Câmara de Provadores do Dão.

Produzido na Quinta da Fonte do Ouro, em solos graníticos pobres, clima mediterrânico de altitude, este branco é uma expressão pura do Dão moderno.
Aroma maduro, mineral, corpo robusto e boa acidez. Resultado das castas escolhidas, Encruzado e Arinto, a que pouco ligamos, mas que nos traz notável elegância e distinta mineralidade, muitas vezes atribuída aos solos graníticos da região. Esta mineralidade complementa a sua acidez natural. No Dão, a Arinto é frequentemente utilizada em lotes com outras castas brancas tradicionais da região, como o Encruzado, que lhe dita complexidade, um subtil toque resinoso e capacidade de envelhecimento.


Assim o bebi, na companhia de um bacalhau com natas, num tango para dois que muito me fez feliz, porque é um vinho estruturado, com 13º, que não esquece textura, untuosidade vá, e aveludada, sem perder frescura.
O Fonte do Ouro Branco 2023 é um vinho que reflete com precisão a filosofia que o Dão procura, com a botelha a custar 6,10 euros, resultado de um breve contacto pelicular, mosto prensado e fermentado a baixa temperatura e lá estão os aromas primários. Estagiou durante dois meses em cuba com bâtonnage, técnica que lhe deu maior untuosidade, e uma acidez vibrante que sustenta o corpo.
É também um Dão moderno; nada contra os antigos – antes pelo contrário, mas é preciso escutar o mercado; preciso, mineral e gastronómicos, com capacidade de evoluir em garrafa. Juntar tradição e modernidade, acessível no preço e ambicioso no perfil, não é fácil, mas essa, que me perdoem, é arte de Mestre.
A vindima de 2023 na região do Dão foi considerada de qualidade alta a muito alta, com um volume superior ao do ano anterior. O ano foi globalmente ameno, o que favoreceu o desenvolvimento das vinhas, maturações antecipadas, vindima precoce, feita ainda antes das chuvas de Outubro e cá o temos, concentração e equilíbrio.

Fresco, mineral e com boa capacidade de evolução em garrafa, deixa-nos um final saudoso, longo, seco e elegante. Há mais uma garrafa?






