O ‘Especial’ era, e sempre será, uma lenda, ali, no balcão corrido do ‘Lampião’, mesmo junto às instalações da extinta Empresa de Auto Viação e Turismo, defronte do Avenida, onde nós, os putos, podíamos conversar e aprender com os mais velhos e essa é chave para história completa. A memória das pessoas, e da terra, é, afinal, tudo o que conta. E que lugar mais poético para um vinho nascer do que Moimenta de Maceira Dão, no concelho de Mangualde, onde a vinha respira entre rio e serra.
Nessa senda da excelência do Dão, que o ‘Especial apreciava qualidade, o Monteirinhos Avô António Encruzado 2022 é uma verdadeira preciosidade. Contudo, este vinho não é apenas sobre castas ou terroir; é sobre a memória de um homem e a sua terra. A história começa em Moimenta de Maceira Dão, no concelho de Mangualde, onde a Quinta dos Monteirinhos se aninha nas paisagens suaves do granito. É lugar de vinhas ao alto, em colinas verdejantes, a brisa que desce da serra, que protege das geadas, e onde a família Monteirinhos, há mais de um século, se fundiu com a própria alma do Dão.


Foi neste cenário que se forjou a lenda de um homem conhecido carinhosamente por ‘O Especial’. Este profundo conhecedor, e sabedor, da região, foi guardião dos segredos do terroir, deixou legado, mais do que uma propriedade para os filhos, lavrou conhecimento e paixão, entregou destemor e confiança. Tudo isso, afianço-vos porque a memória ainda vai funcionando, se me soltou ao copo, largo e de pé alto. O vinho “Avô António” é fiel depositário dessa herança, tributo vivo à sabedoria e dedicação d’o ‘Especial’!
E não foi fácil a vindima de 2022, seca severa, Julho extremamente quente, com ondas de calor que levaram as temperaturas a picos elevados. Contudo, a adaptação das vinhas do Dão a estas condições é incrível. O solo granítico e a altitude das parcelas desempenharam “papel principal”, cantava a Adelaide Ferreira. A vindima foi, em geral, antecipada, para garantir que as uvas fossem colhidas no momento certo, antes que o calor excessivo comprometesse a frescura. Para os brancos, esta vindima foi teste de fogo: manter acidez e frescura num ano tão quente. No entanto, os vinhos brancos que foram bem trabalhados revelam um perfil muito interessante. Apesar do calor, as castas brancas do Dão, como o Encruzado, conseguiram manter uma acidez notável, que lhes acrescentou nervo e elegância.

Os vinhos apresentam uma fruta madura, mas com notas frescas e minerais, que os tornam complexos e cativantes. Os brancos de 2022 são, em geral, vinhos com bom volume de boca, mas com uma frescura que os equilibra, permitindo-lhes uma boa capacidade de evolução. Não paguei o vinho, cortesia de uma ceramista, mas encontramo-lo nas lojas a 17,80 euros por botelha.

O Avô António Encruzado 2022 é legitimo representante desse trabalho, que me encantou a mesa. Um vinho que, tal como a pessoa a quem é dedicado, se revela de complexidade notável. Destaco-lhe os aromas cítricos, vivos mal cheguei o copo ao nariz, notas minerais e florais, e, direi, uma subtil sugestão de tosta de barrica. Na boca, revela-se com grande equilíbrio, bom volume e uma acidez perfeita que lhe confere frescura e um excelente potencial de guarda. É um vinho gastronómico. Ponto final.
A Quinta dos Monteirinhos situa-se em Moimenta de Maceira Dão, no concelho de Mangualde. A produção deste Encruzado chega às garrafas vinda de uma parcela única, antes, porém, estágio de 9 meses em barricas de carvalho francês, para ter uma hora feliz na altura do parto, que é como quem diz, quando se lhe afinfa saca-rolhas.

Já vos contei aqui o desafio de conhecer os pormenores dos vinhos e das parcelas, o site do produtor está bem municiado, falta mais que o consumidor é exigente. Não me basta dizer carvalho francês, por há-os de quatro tipos, todos diferentes. Carvalho de Allier, grão mais fino e porosidade mais baixa que traz subtileza aos vinhos, um toque mais delicado de madeira. Depois ainda temos o Carvalho de Tronçais, o mais nobre, um grão ainda mais fino e uma estrutura muito apertada. Discreto, este carvalho acrescenta complexidade, harmonia e pede tempo. Temos ainda o carvalho das florestas de Nevers e Limousin, sabendo eu que Allier e Tronçais são os mais conhecidos e procurados pelos enólogos que buscam máxima qualidade e finesse nos seus vinhos. E o consumidor quer, e tem o direito de saber, o tipo de madeira. Ora eu, que ainda conheci o ‘Especial’, teria horas de aprendizagem. Da boa e prática. Pragmática.
O Avô António Encruzado 2022 é mais do que um vinho; é uma homenagem sincera, uma garrafa que conta a história de uma família e, sobretudo, a memória de um homem que sabia ouvir a terra e traduzir os seus sussurros em vinho.






