J. Cabral de Almeida Tinto Musgo 2022


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J. Cabral de Almeida Tinto Musgo 2022

Topei-o no supermercado, mas nessa manhã que buscava vinho para o almoço, trouxe um branco com ele. Adoro o rótulo, o relevo do rótulo e a sobriedade do conjunto. Eis um vinho tinto completo, sóbrio e pujante. Minha Mulher diz que este já passou na mesa, mas é a circunstância que dita a compra. Eu creio que não, porém, encontrei-lhe algo de novo.

Na quietude do copo, o vinho é um universo em constante mutação, e prová-lo apenas uma vez é como ler primeira página e julgá-lo por inteiro. Na primeira prova, a timidez do vinho pode esconder alma, revelando apenas as notas mais óbvias. Para quem o aprecia e dele escreve, assim é. Os aromas e sabores, antes contidos, ganham complexidade e profundidade. É por isso que devemos regressar, uma e outra vez, para descobrir a história completa que cada garrafa tem para nos contar.

Bebi-o como vinho de serviço e preparei-me. De serviço e à surrelfa. Enquanto armadilhava o esquema de um novo livro, é formidável como vinho e escrita dançam juntos, bispei-lhe segredos, saboreando a sua evolução, do primeiro ao último golo.

Os musgos são um filo cosmopolita de pequenas plantas criptogâmicas não vasculares, de organização simples, como o vinho. Simples e bom. Tenho de conhecer o enólogo.

A escrita também se faz assim, tecida. O vinho chegou-me de expressão pura e descomplicada da região. Criado pelo talentoso João Cabral de Almeida, celebrei escrita e vinho, louçania e letras.

A vindima de 2022 no Dão foi, sem dúvida, um ano desafiante, mas que acabou por se revelar notável, demonstrando a resiliência das vinhas da região. Levei quatro dias a beber esta vinho, tenho as rolhas certas, contudo, o quarto dia foi de sala.

Manteve os taninos presentes e bem integrados. Apesar da concentração, os vinhos mantiveram uma boa acidez, o que lhes confere frescura e impede que se tornem pesados ou demasiado alcoólicos. São vinhos com grande potencial de guarda.

João Cabral de Almeida, enólogo e produtor com forte ligação ao Dão, tem como filosofia a busca por terroirs que se expressem com carácter e originalidade. O nome Musgo evoca a humidade da floresta, a frescura do solo granítico e a subtileza que se encontra em cada canto desta paisagem. Tal como a escrita.

O J. Cabral de Almeida Musgo 2022 é um tinto que se destaca pela sua abordagem moderna e fresca, pouco extraído, suave e sedutor. O enólogo não se fixa a uma única quinta, mas sim a vinhas selecionadas na região do Dão. A sede da empresa, no entanto, situa-se em Viseu. E isso tem mérito.

O vinho é um espelho do tempo, e cada prova é um instante único. O que hoje se nos apresenta com a vivacidade da juventude, amanhã pode revelar a melancolia da maturidade, com notas de terra, prová-lo em diferentes momentos é testemunhar a viagem, sentir a alma e amadurecer. Lição de paciência, contemplação, e esse convite a olhar para lá do imediato, dança em constante movimento, um poema, que a repetição da prova nos permite decifrar e amar.

Repeti-me? Seja. Penso, que faço bem em manter opções, de compra e de prova, em aberto. O remanescente marchou com uma paella, doméstica. A sua acidez e os seus taninos suaves conseguem cortar a gordura e complementar os sabores complexos do prato, sem os ofuscar. Arroz Carolino, frango, camarão e lulas, pimento, tomate e salsa. E uma pitada de açafrão, uma especiaria fascinante, história rica, sabor e aroma únicos. E assim, fecho-lhe o círculo, este Dão Musgo 2022, com histórias e teve na paella parceiro à altura. A simplicidade como mantra, a magia da cozinha e do vinho está nessa singela valsa.

O Musgo 2022 é um excelente exemplo de como o Dão pode ser reinterpretado com elegância e respeito pela sua identidade. É a prova de que a tradição e a inovação podem coexistir harmoniosamente numa garrafa. Sejamos ousados.

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