Bons vinhos, melhores petiscos, agradável serviço. O “Café do Gouveia”, que vai já na segunda geração, é entreposto agrícola, feitoria de conversas, empório da merenda.
Meu Sogro, creio, ter-me-á falado do Senhor Gouveia que eu não conheci, certeza tenho de me ter contado dos brancos de Oliveira de Barreiros. Vinhos brancos de qualidade, num Café com resultados visíveis e impacto na comunidade e no ambiente “vínico” que se vive nesta extraordinária, e notável, aldeia. E quando a jornada coloca a N-231 no radar laboral, tento encontrar maneira de ali me acolitar, boa energia e conectividade, a identidade nesse eco de referência. E sempre, algumas vezes escolho garrafa para ser justo, o branco de serviço.


Nas lides, a “Luisinha”, nuns dias; Dona Luísa nos outros, avio o branco amesendado, ora com queijo, do duro por favor, ora do amanteigado que o almoço ficou para trás.

A garrafeira, portentosa e com copos de bom préstimo e dedicados ao vinho, exibe as marcas da família e de outros produtores locais, ali está, para quem não tem medo de ouvir ou conversar, um ponto de encontro cultural e de reflexão, podia chamar aqui a sociologia para discutir o apodo, porém descarto-a, com todo o respeito pelas ciências sociais. Para mim, que não regateio o cigarro, no exterior, e me marco ao varandim a observar a Pedra Cancela, logo abaixo, os vinhedos e a Estrela, de branco nas unhas e cigarro na boca, despertando consciência e inspirando as muitas gerações que ali demandam. Sobremodo, a senioridade para futuro sustentável. É ouvir e aprender. Adiante, mais um branco, por favor.

O quotidiano de Oliveira de Barreiros é feito de trabalho, pausas e andanças. A serenidade de quem conhece o ritmo da terra, um destes lugares, cada vez mais rarefeitos, que guardam a alma de uma comunidade e do passante. Ali, até eu, abrando o tempo, deliciado a ouvir as histórias do lugar. Conversas, que as escuto pois sou profissional do ouvido, de trabalho, a chuva que abençoou os campos, as colheitas que se avizinham. Não é apenas ponto de encontro, é refúgio para espíritos vadios, laboriosos ou convivas em aldeia que me ilumina as palavras, em Café que as partilha.
Tenho memória, afetos e dali, pressinto o coração ao Dão, onde o vinho é mais do que uvas fermentadas, é herança, amizade. A figura do Senhor Gouveia, um nome familiar em Oliveira de Barreiros, é lenda viva que se mantém no meu coração e na comunidade, e de quem eu gostava de saber mais. Já lá vão meia dúzia de reportagens, chegará o dia de aprofundar a pele. O Café Gouveia, e o armazém no tardoz, outra empresa, creio, mas da mesma família, servem a terra e o seu ofício. Os afamados brancos não são apenas vinho, mostram reflexo de trabalho paciente e um saber transmitido, comunicado, conectado.

As vinhas, na sub-região de Silgueiros, gozam de franca hospitalidade. Solos de granito que conferem a estes vinhos brancos singular mineralidade. Oliveira de Barreiros é uma das doze povoações que compõem a freguesia de São João de Lourosa, no concelho de Viseu. A altitude andará um pouco abaixo dos 494 metros da cidade, logo ao fundo, a Pinoca marca o vale. A família sempre conseguiu conjugar saber antigo e ciência. A segunda geração tem enólogo que esteve no começo do novo Dão. Ali os vinhos, só quero saber de brancos, aqui não me abondam marcas, trazem frescura e a acidez equilibrada, que os distinguem. Façamos a prova cega, se dúvidas houver. Eu estou preocupado em procurar prova de Gouveio, já a bebi em lote. A Gouveio, não há acasos neste Armazém, é uma casta de uva branca que se encontra no Dão, embora alguns apreciadores do copo de três a confundam com a Verdelho, mas são variedades geneticamente diferentes. A Gouveio é valorizada pela capacidade de produzir vinhos com boa acidez, estrutura e potencial de envelhecimento, o que a torna importante.

Quase ao lado, com as portas abertas à vida rural, existe um armazém de produtos agrícolas, um ponto vital para todos os que trabalham no campo. Ali, encontram-se alfaias, sementes, rações, enfim, os produtos essenciais para a lavoura. O lugar não vende apenas mercadorias, oferece esperança e sustento. É onde a dureza do trabalho se encontra com a promessa de recompensa, espaço que simboliza a dedicação e a resiliência de um povo que vive do que a terra dá. Umas petingas e uma bifana, que o vinho está-me a cair bem. Produtores, conscientes do potencial da terra, têm vindo a reestruturar as vinhas e a aplicar técnicas modernas que, respeitando o legado, elevam a qualidade dos vinhos à excelência. Escolha ideal para harmonizar, parece que é moderno dizer assim, o petisco.
Também não desprezo a influência das serras circundantes, e ao fundo, majestoso e intemporal, o rio Dão, desenfreado a rasgar paisagem em beleza agreste, esse vale encaixado que nos tira fôlego. A natureza e a engenharia humana, agora tragam a filosofia, o rio que corre e a vida que flui, o Dão que molda a terra, tal como a lavoura e o convívio moldam a alma do Café Gouveia.

Incansável, a Dona Luísa, esmerado atendimento e simpatia, muita, entretida ao vai e vem da cozinha ao balcão, todos cumprimenta, todos conhece e eu, que gosto de vinho comido, a olhar à vitrine, essa sinfonia de amores. As vitualhas, umas e outras consoante os dias, na montra!

Um irresistível queijo da Serra da Estrela, velho ou novo conforme o apetite, azeitonas, presuntos, chouriços e salgados, com um cuidado que só a Dona Luísa sabe dar, incluindo delicioso pastel com bacalhau dentro. Mais do que vender víveres e mantimentos, Dona Luísa oferece conforto e partilha, com uma provisão de boca que alimenta corpo e a alma, aparelhado o itinerário.

Víveres, mantimentos, provisões, tudo ali há, nessa profusão de contrastes, a bruteza, que justamente é a beleza, do granito, a delicadeza dos gestos, a labuta na lavoura e a merecida pausa. À merenda, gritam no Caramulo e prego eu, a pausa, essa história de conexão profunda, natureza e ser humano nessa, cada vez mais escassa, harmonia, num ciclo de trabalho, quinhão e porção, e, bem no fundo da alma, essa esperança que nos tempera o diário. Constatar que, ano após ano, se mantém o legado, testemunho de cumplicidade, entre o comércio e a aldeia. O Dão, também, é isto. Brindo-lhe com branco, outro se faz favor, mais uma fatia, do amanteigado e um casqueiro, e brindo à amizade, à memória e à história de uma família e de uma comunidade. Gesto simples para tanta inclusividade, sustentabilidade e satisfação, conquistado na alegria da recepção e melhor hospitalidade. Sempre fiel à sua identidade e missão.

Para mim, e naquela estrada, um papel essencial, não apenas na qualidade; na inspiração. A chama continua acesa, o pipo cheio e a vitrine, esse adorno que nos aguça essência e palato, bem vincados. Beijinho Dona Luísa.






