Dona Sancha Branco 2024


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Dona Sancha Branco 2024

Apanhei-o, numa corrida, pelo casco velho. Estava de serviço, foi o que cheguei aos lábios, em modo branco e havia acabado de enfiar uma bifana de picanha, no +55, com umas pedras de sal, em bom pão de centeio e dois copos de vinho. Não ia mudar a cor, a tarde trazia calor e, dobradas as escadas para a Bica das Três Fontes, vislumbrei o Irish Bar, estive na inauguração, mas falhei o aniversário este ano.

Porto seguro para o estio, a simples ideia de um copo de vinho fresco foi bálsamo que embalou pés. Ao serviço o Dona Sancha Branco 2024 e cajus, que vinho é de comer. Um ritual, a garrafa a ser retirada de cave climatizada, precisão, a temperatura certa. Foi dali que me chegou o branco, um vinho da região do Dão que, só por si, já é um convite ao deleite e devia ser obrigação na hotelaria da região – ainda no ontem estranhei vinho que meti à boca com a indicação de ser um Dão, em bag in box. Acondicionado em Viseu sim, lá dentro mistela da UE, em letras bem pequeninas, tudo feito para enganar incautos.

O Dona Sancha, confesso, para mim é produtor novo, não simpatizo com a marca, ainda estou nas primeiras provas e a tentar compreender o vinhateiro, que tem boa distribuição. O site não é amigo do utilizador, a informação rotineira, a tradição, mais o legado e o emblemático, confesso, é conversa que não seduz, porém, o sítio na internet do Dona Sancha tem dinheiro dos contribuintes europeus. Opiniões, que ainda são livres.

Gosto do serviço a copo, 5 euros, a botelha vale 11. Aqui ao lado, onde são exímios a vender vinho local, sempre a copo, paga-se 2,5 euros em zona turística, com ele o pintxo, ideia basca, para picar. Um naco de pão, umas rodelas de salpicão, azeitonas, o vinho é comido e do País Basco o petisco correu Navarra, La Rioja, Cantábria, Astúrias e até a Galiza. Adiante que quem quer ser lobo, não lhe bebe o copo. O serviço é profissional, a oferta já foi mais lata, o vinho da sub-região de Silgueiros e, claro, notas de prova. Do produtor fala-me em conversa habitual. O Dona Sancha Branco é um vinho fresco e solto, jovem, de boa assinatura, com “castas como Encruzado e Bical”. O Dão anda assim, o consumidor que o agarra, não lhe consegue rastrear mais informação, eu, reles bebedor, ia garantir que seria Encruzado e Malvasia Fina, assim o assinalaram as minhas papilas.

Sendo, as duas, castas brancas, o perfil impõe estrutura, corpo e acidez com a Bical, que acrescenta idade. A Malvasia Fina é mais aromática, perfume e delicadeza. O nariz sentiu good vibes, notas de fruta e, lá está, um subtil toque floral. Mineralidade evidente. A acidez é virtude maior, que deixa o copo e o bebedor em tensão, no disfrutar, pois então, persistência longa e um final de boca que convida a outro copo, para esbater insistências. Bebi-o.

O produtor da Dona Sancha não conheço. Dona Sancha e Daganel, curiosamente ambos marcas de vinho, instituíram padroado, em 1186, acrescentaram Loureiro e Abadia, esta no mando do presbítero, os liberais acabaram com a prelatura, que durou 646 anos e deixou Mosteiro. Já dobro a curva, antes a sustentabilidade, inclusa no site, que fala muito, mas não diz nomes à passarada, explica flora ou, simplesmente, nome do curso de água que atravessa a propriedade, O algoritmo, este Armazém produz tecnologia e prova vinhos, diz-me que serão 20 hectares de vinha. O Dona Sancha Branco a copo, por 5 euros, reflete trabalho e mãos cansadas. Do produtor e do comerciante, que são quem realmente faz andar o negócio. Eu, ou acrescentava sustento, subia a meia copo ou descia a meio preço. Opções e só vai quem quer. Do Irish o que digo é o gosto que tenho por balcão antigo, cuidado, de serviço profissional e dedicado.

A botelha deste Dona Sancha saiu da cave de vinhos, duas zonas de temperatura e prateleiras de madeira, santuário para manutenção da qualidade do vinho. Uma necessidade para quem valoriza a integridade do vinho, garante de qualidade, contudo, a verdadeira prova de qualidade de um serviço a copo reside na forma como o vinho é tratado depois de a garrafa ser aberta. A frescura de uma garrafa é um estado de espírito. Eu gosto destas caves, mesmo para os tintos que isso de temperatura ambiente é sustentabilidade tida por engodo, a garrafa, coberta por gotículas de orvalho frio, a reverência ao lavrador, o copo de pé alto e elegante, como um Zalto, realeza e pureza. Já o vinho, leveza, mas o som do vinho a escorrer e o vislumbre da cor, atinam os sentidos para se porem finos.

Este não foi simplesmente um copo de vinho; antes a transição, um vinho de passagem, no momento, resposta aos quesitos da frescura, a pequena indulgência que torna o dia um pouco melhor. E, atrás, a Fonte das Três Bicas, e suas tantas virtudes: a fé, para que a região tenha mais Dão ao balcão; a esperança de que haja sensatez na hotelaria e a caridade, paga e não bufes, eis os pilares da religiosidade.

E agora vou-me ao Mosteiro.

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