A ‘Vinha do Rego’ lá está para demonstrar, logo ali na curva de Casal Sancho, que é possível crescer de forma sustentada, sensata também e robusta. Como este vinho que chegou em almoço supimpa, cinco convivas, talvez um pouco mais de outras tantas botelhas. Depois mudámos de região, cortesia aos amigos. Antes da mudança de rumo, sem adornar, o Fidalgas de Santar Tinto 2018. E não foi apenas um acompanhamento, antes âncora do convívio, tornado parlatório. Depois de outros néctares, chegou suave, com a sobriedade necessária, porém uma intensidade que exige atenção. Não é um vinho que grite, mas que sussurra elegância e estofo. Um murmúrio, leve, para temperar paladares e tentações. A brandura da mesa, uma maciez para deleite da gentileza recebida.

O vinho traz com ele a secular tradição de Santar, que tanto destratamos, o Dão no seu ponto, a elegância intrínseca que a Região exige e a concentração que a colheita de 2018 lhe outorgou. Paladar macio e aveludado, a suavidade de um abraço e a firmeza de uma convicção. É um vinho que perdura na memória do palato, não pela exuberância desmedida, mas pela harmonia profunda e o equilíbrio que só os grandes tintos do Dão conseguem alcançar. É a prova de que crescimento e tradição podem ser sinónimos de excelência. Por isso esta não pode ser apenas descrição, antes brinde sentido à sua identidade nobre e ao ano que o viu nascer. Foi o quarto vinho, ou quinto, de um repasto, e nele se encontraram história, o terroir e o labor de um ano excecional, ainda que escasso na produtividade. Mereceu a conversa.
O vinho Fidalgas de Santar emana da histórica vila de Santar, no coração do Dão, um terroir de granito, com uma filosofia que merece o nome da localidade, vinhos nobres, elegantes e de aroma inconfundível. Esta busca pela excelência, com um sabor complexo e delicado, reflete um caminho de crescimento sustentado. Vejam a novel “Vinha do Rego”, ainda a medrar e como já mostra ambição, e cuidado com a matéria-prima e na honra às castas tradicionais do Dão: Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen e Tinta Roriz. Um lote usual, que compõe este tinto Reserva que custa, no produtor, 11,20 euros. O investimento na plantação de vinha nova é o gesto mais eloquente de que a tradição avança, enraizando o futuro no respeito pela terra. É um crescimento que se quer lento e profundo, como o próprio vinho que se propõe a criar. E isso, meus amigos, isso é o Dão.

O Relatório da Vindima de 2018 no Dão conta-nos a excelência da escassez, no Dão marcada por esse paradoxo, produção pouca, qualidade excelente. Após um Inverno seco, a Primavera refrescou com umas boas chuvadas, capazes de reporem as reservas hídricas e isto importa ao sistema radicular, que principia nas primeiras camadas do solo. As raízes de uma videira concentram-se nos primeiros 40 a 60 cm, ainda assim, podem atingir profundidades de vários metros, especialmente em videiras mais velhas, podendo chegar a mais de 10 metros. As raízes mais profundas conferem às videiras uma maior resistência a períodos de seca, pois conseguem aceder a água em camadas mais fundas do solo. Daí as reservas de água e os lençois freáticos serem importantes.
A vindima foi exigente, a produção total da Região, 22 milhões de litros, ficou aquém do habitual, 30 a35 milhões de litros, contudo, o resultado qualitativo foi motivo de exaltação. E mostra como não devemos ter mais olhos que barriga. E cá estão tintos muito equilibrados, exibindo o perfil floral e fresco, ótimos taninos, resiliência na vinha e mestria da adega, e assim s emolda o carácter a um vinho que cai no copo com a densidade de uma memória profunda e a luminosidade de uma promessa.
Um grená denso ao centro, com reflexos púrpura nas margens, revelando juventude e concentração. A cor é um rubi vivo, clássico do Dão. O nariz é perfumado e veemente. Um convite ao pomar, com notas de frutos vermelhos a dançar com um toque subtil na integração da madeira. É um aroma que se revela, sem pressas. Abram-no e deixem-no esperar.

Na boca, promessa cumprida, estrutura e uma textura de camadas, macia e sedosa. É muito redondo e deveras fascinante. Aliás, tentador. A fruta madura regressa, perfeitamente emoldurada por taninos finos e elegantes, que lhe conferem corpo. O final é prolongado, complementa e enaltece o conjunto, assegurando-lhe a persistência. Sim, dizei que esta é uma crítica sentida, até admito que seja o sentimento no quarto vinho, com a semântica das palavras a bailar com a palamenta.
Porém, no que me importa, deixou saudades. E isso, amigos, isso é o que se espera de um Dão.






