Quinta dos Monteirinhos Lux Edition 2016


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Quinta dos Monteirinhos Lux Edition 2016

Veio-nos por acaso, e já depois de aviados dois brancos. Prevenidos, arejou na botelha nos entretantos d’os Encruzado, sim, duas delas, uma adegueira, o que não importa aqui, ademais não estranhou provimento. De meandros, vitualhas, uma morcela que pouco bailou, e deita-me ao copo se fazes a bondade. Bom de beber, rendeu guarda ao arroz de costelas e, por mor, ao cabrito no forno. “Leitão de mês, cordeiro de três”, deixei o caprino ao fim e assoberbei-lhe. Catano. Estou a beber uma coisa boa, disse para comigo. Endiabradamente boa. Um baile, ou melhor uma vernissage. As duas, seja.

A garrafa do tinto veio da Quinta dos Monteirinhos, Terras de Azurara, concelho de Mangualde, berço de vinhos de inconfundível distinção e uma das sete sub-regiões do Dão. A Quinta pega-se em solo ancestral, há muito na tutela da família Monteiro Albuquerque, cujo saber se estende por mais de um século e muitas gerações.

Eu e meu primo ainda recordámos o Especial, o Lampião e o Tó, creio que até o Chico, motorista dos bombeiros que conduzia o Internacional sem carta de condução, por lá esteve. Cantámos-lhe as virtudes e as memórias. Poderoso. De sobra ou provimento, o vinho assoberbou-me. E assoberbou-me precisamente por não ser austero, antes uma légua de bom e tranquilo passo.

Os vinhedos, plantados com proficiência em solos de muito granito e pouco xisto na Quinta. É importante conhecer “a estética do lugar”. As palavras não são minhas, mas beneficiam a descrição das videiras postas ao sol, assim acolhidas ao Caramulo e à Estrela. O Dão tem poderosos tintos. Um tinto “à patrão” e 2016 foi um período desafiador no ciclo vitícola, marcado por contrastes que exigiram vigilância máxima, paciência na condução da vinha. Atento e vigilante, a lembrar a Titi e os tempos da Rádio. Ano bom, o 2016, altíssima qualidade, mormente colheita menos abundante.

O Lux Edition a bailar e explico já. Não somos muitos os que gostamos de vinhos velhos, a filosofia e a razão nem sempre correm bem e, às vezes, uma guarda severa pode dar tropeção. Admito que poucos queiram correr riscos, mas tem saído sempre ‘El gordo’ ao desfiar das probabilidades. E voltou a ser o caso, com a graça de Todos os Santos que é para isso que nos juntamos à mesa. A novena aos dias. O vinho acariciou saudades, lambareiro fez-se à carne. Bem sei, uns modernos na barriga carreados de alheiras e bitoques, mas eu, petisqueiro encostei um rancho ao primeiro golo. E, contudo, a moenga na cabeça. Ou garrafeira bem provida, ou feliz achado, o tinto custou, em restaurante, 14 euros, creio. Mas fixei-lhe âncora e haverei de ir de volta a saber disso e do mais. O nome, outra precisão minha.

O cabrito, assado em forno restaurador, mas vestido de caçoila, pedia inteligência tânica. E nós tivemos essa sorte. Uma sorte verde. O lugar do momento. Ali mesmo, o Lux Edition 2016, estrutura necessária para confrontar a untuosidade da carne, sempre a exalar essa profundidade aromática. A evolução dos vinhos transcende-me e não me canso de ser-lhes fiel. E a memória. Caramba a memória, o vinho, as pessoas, as histórias, a conversa.

Aos costumes, blend sumptuoso, exaltado, Touriga Nacional, a mais de metade o que o moldou às rugas do tempo, e nos vinte do cento, Tinta Roriz, que o amaciou, e outros 20% de Jaen, que o namorou. Bem sei, nove anos, eu carrego 54, e, contudo, mantiveram-se fiéis nesse amor mais doce ao vinho. Não esperávamos irreverência, tão pouco a ligeireza, queríamos um vinho feliz. Sim este Lux Edition 2016, e os vinhos são sempre o lugar, onde se vindimam, descansam, embotelham, descansam e o desembotelhar. E este foi feliz. Foi-o sim senhor. Serena palidez, a inexorável marcha do tempo, elegia, muita, ao nariz. Sério, complexo, fruta madura, a madeira que se alisou e tornou leves os 13,5%, corpo pregueado, sedoso ao paladar. A acidez, ligeira, mas vital, manteve-lhe o equilíbrio. E tomei-o em comida e em tabaco. Final longo, elegante. Uma despedida, uma garra que se desprende e nos inculca esse pensar, enfim, a exaltação da combinação gastronómica beirã. Que a bebemos e a comemos, sem titubear. No lugar.

Foi isso tudo e muito mais. Os taninos de conforto e franqueza para o arroz de entrecosto, de boa nota. A solidez bem calçada, de novo, os aromas de fruta madura, uma doçura intrínseca, upa, aristocracia e generosidade e isso é incontestável. Chancela posta naquela promessa de longevidade inabalável da colheita de 2016. Um acaso providencial. Assoberbados. Conversa dessas memórias, o Especial e todas as tutelas do Lampião, que ainda lá vi, ao lado, os autocarros da Viação e Turismo de Lamego. Tempo como este vinho. O trouxe, o merecemos. Assentadoria sem circunscritos à largueza. Uma epifania, linhagem nobre. Talvez seja mesmo isso, o prodígio. Uma edição de luxo em tempo de merecimento. Supimpa.

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