Santa Luzia, a Beira toda numa mesa


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Santa Luzia, a Beira toda numa mesa

Chegámos à Beira, sem nunca sair dela, quase à mesma hora que meu Avô Artur pedia a minha Tia Dina para colocar o copo de vinho em banho-maria, religiosos dez minutos antes da meia hora, expressão que meu Pai usava para sinalizar 12 horas corridas ao dia. Assim, famintos e bem amesendados, prescindidos os enchidos entradeiros, chegou presunto de fino corte, gordura que se derrete na boca, suculência e sabor em textura firme e tenra, de bom aroma. Ao lado queijos da terra, sabor intenso e agradável, complexo e persistente, resultado de um longo processo de cura, no que ao velho diz respeito. O amanteigado cumpriu com o compasso e contemplámos a beleza da vida.

O Restaurante Santa Luzia, em Viseu, é a Beira toda numa mesa, uma instituição da gastronomia beirã, que há décadas serve a tradição, agora com o Idílio ao leme. Nome apreceituado para mesa com uma notável consistência. Fomos de cardápio nesse ícone, espaço amplo, confere conforto mesmo em dias de casa cheia, que aconteceria num logo depois breve e furtivo. Há estacionamento, acessos fáceis, pormenores práticos que são um luxo na restauração moderna, como a esplanada sempre pronta, à espera do obstinado teimoso, decoração simpática, moderna e arejada, mas com um pendor inegavelmente clássico e sóbrio. Não cede a modismos excessivos, primando pela funcionalidade e conforto, exalando a confiança de uma casa com história.

O elogio da cozinha regional chegou com as escolhas de meu cunhado. Na carta um hino à cozinha tradicional portuguesa e nós, nos ‘Filetes de Polvo e Migas’. Eis a mestria da cozinha. O polvo, executado com a sabedoria da Beira Alta, polme leve, tranches aprimoradas e migas ao prato, esse toque rústico que nos diz, estás em casa. Polvo tenro, em filetes com uma panagem fina e crocante, prato bem-feito, elegância e simplicidade.

Apesar da chuva, e de dois dias de sol, os deste ano ainda só os vi no Alentejo, mas o aprovisionamento é outro ramo da taifa que nisto dos abastecimentos tem que ser a Escola da Armada. E é-o. Preparados para a opulências, eis um ‘Arroz de Míscaros’, o carolino de bom bago, caldoso, os míscaros, cogumelos selvagens, manjar da época, sabor terroso e intenso, a envolver o paladar com a riqueza da floresta. Sublime.

Nos beberes, a Anita põe-me baraço curto, um Encruzado que chegou para os quatro comensais que esportularam, meu cunhado, 130 euros e já vamos justificar o importe. A refeição, genuína e justa, pedia uma aguardente, de cariz austero e tradicional. Um toque final que limpa o palato, acrescentei-lhe um café e selei a alegria de estar vivo em dia de intempérie. Um ritual muito português. Meu Filho também os cuida, afiliou-se numa mousse de chocolate honesta e assim ficámos.

A garrafeira da casa privilegia o Dão, há outros pratos, Cabrito Assado, Arroz de Cabidela, Posta de Vitela são referências, a competência estende-se aos pratos de peixe e sazonais. Serviço, amplamente elogiado em testemunhos públicos e comprovado de forma empírica, algures entre o Descartes da razão e o David Hume do empirismo radical. Diligente, sabedor e excecionalmente acolhedor, doses generosas, preços que não mordem, atenta a qualidade, o um dos pilares inabaláveis da gastronomia de Viseu, com sala para eventos.

É sítio onde a tradição é honrada, a comida é substancial e reconfortante, o almoço de peito cheio. Eis a essência, casamento feliz entre os sabores do mar e da terra, terminando no rigor simples de uma aguardente.

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