Um desafio instigante! Uma ode poética e reflexiva ao Dão e ao Castendo, uma das sub-regiões que beneficia de um clima ligeiramente mais quente e me trouxe este Picos do Couto Reserva, tinto elegante, com boa concentração de fruta e acidez firme, com calibragem necessária para acompanhar gastronomia, em linha perfeita com o carácter de vinhos delicados, frescos e elegantes da vindima de 2021.


O rótulo fornece notas aromáticas detalhadas, que refletem a complexidade esperada de um vinho Reserva do Dão envelhecido em madeira. Eu lobriguei a fruta madura, cor rubi opaca. Elegante na boca, muito fino e de boa estruturam taninos vivos naquele que é uma das referências da Tavfer Vinhos, produzido na Sociedade Agrícola do Castro de Pena Alba.

O Picos do Couto Reserva 2021 é um proscénio, um eloquente embaixador do espírito português na grande tapeçaria europeia do vinho. A sua cor, um rubi opaco e pensativo, anuncia uma vindima de 2021 que foi, ela própria, um poema de inquietação climática, um ano clássico, desafiante e laborioso, onde a Natureza, ora branda, ora tempestuosa, impôs o ritmo da perfeição.
A rolha, marcada pela Tavfer Vinhos, solta o primeiro ato, uma sinfonia olfativa de flor de laranjeira e violeta etérea, casada com o doce e confortante sussurro da baunilha do seu estágio de nove meses em barrica. É um vinho delicado no gesto, mas estruturado na alma, com um tanino vivo e perspicaz que promete uma longevidade serena, até 2030, tecendo o seu futuro no presente. Eu não esperei, nessa inquietação filosófica de Castendo. O Dão é um universo de serras e granito, uma fortaleza de frescura indomável. Contudo, o que é o Castendo, o quadrante de Penalva do Castelo, senão a dúvida filosófica do Dão?

Enquanto o Dão, noutras zonas, se veste de uma elegância austera, Castendo ousa ser mais quente, mais solar, desafia a norma com um toque ambicioso. O seu microclima concede à Touriga Nacional e ao Jaen uma maturação plena e generosa, resultando em vinhos que são simultaneamente finos e densos.
Aqui reside a interrogação: é o Castendo mais verdadeiro por ter mais corpo, mais carne? Ou é apenas a manifestação de que a identidade não reside num único timbre, mas na capacidade de ser, em simultâneo, vigoroso e refrescante?
A prova é a resposta, este Picos do Couto é a prova de que a grandeza de uma região não se mede pela uniformidade, mas pela capacidade de conciliar os opostos. Castendo oferece ao Dão a sua estrutura ponderosa, sem nunca abdicar da acidez que o eleva e o torna gastronómico, um vinho profundo, pensativo e eminentemente português, pronto para a mesa do mundo.
Assim, o seu Picos do Couto Reserva combina o perfil clássico do Dão, acidez e longevidade, com a estrutura e a densidade características dos vinhos da sub-região de Castendo, traduzindo-se num tinto pujante, 15%, mas muito equilibrado.
Vindo das videiras da Quinta do Serrado, uma das quintas mais históricas e prestigiadas da região do Dão, com uma longa reputação de excelência vitivinícola. Somam-se ali 60 hectares de vinha, o epicentro da tradição e da modernidade.



O Picos do Couto Reserva 2021 é um vinho de uma colheita que privilegiou o equilíbrio e a elegância sobre a extração excessiva de anos mais quentes. Os 9 meses de estágio em barrica adicionaram notas de baunilha e caramelo que o rótulo menciona, sem sobrepor a fruta fresca e floral fornecida pela vindima de 2021. O potencial de guarda está lá e mostrou-me num opíparo almoço que me renovou os votos e a fé no Dão.






