Pelas ruelas do casco velho


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Pelas ruelas do casco velho

Que fazer em dias de sol matinal que não tecer tapeçaria e reclamar semântica. O sol da manhã, ainda tímido, baixo e brando, espreguiça-se sobre o horizonte serrano, pinta nele esse cobre antigo, as cumeeiras de telha de Viseu. A cidade acordou num murmúrio tranquilo e sussurrante, e eu decidi que era dia perfeito para me perder. Não no sentido literal, claro, mas na aventura hedonista de desvendar o labirinto de granito secular, onde cada esquina promete uma história saborosa.

Com a poesia de Luís Miguel Nava debaixo do braço, pensei o quanto esta caminhada traria andanças, essa jornada bonacheirona e serena, a conversa com tempo rilhado, onde, apesar de ser um poeta mais intimista, ele utiliza a imagem da viagem e do movimento como metáfora para a vida e a memória. Evoco, pois, “O Falar dos Objetos” e essa “hora calada. O corpo que me falta tem o sabor exato de um lugar onde não estivemos, nem voltamos, ando, sem pressa, à beira de uma memória que me guia e tem o teu nome, um caminho onde tudo foi silêncio e vento. O frio do asfalto, a mão vazia. O tempo é este, incerto, que caminha devagar, e não se encontra em parte nenhuma.”

Talvez Viseu seja isso, essa cadência deliberada, sem pressa. Nisto, subo à imponente Praça da Sé, o coração pulsante de granito da urbe. A catedral, austera e majestosa, parece observar-me com a sabedoria incomensurável de séculos. Ao seu lado, a graciosa Igreja da Misericórdia, com a fachada barroca a sorrir em contraste com o granito mais sóbrio, convida a uma primeira incursão. E eu, logo ali, à procura do conduto matinal, ávido por manducar de boa gana, pôr os dentes em função, limpar a barbela ao canhão da véstia e afinfar aos cartapácios, batalha sem fim, disse-o gloriosamente Aquilino Ribeiro, que por cá andou, tal como Camilo Castelo Branco, cujo romance “Amor de Perdição” ancora a tragédia na mística Fonte de São Francisco e na altiva Porta dos Cavaleiros.

Já eu é mais cede, e desço sereno ao Bidarra, uma das últimas tascas genuínas da cidade, montra queijeira, bom vinho rústico, melhor conversa, sabedora de usos e costumes. O Camilo deu-nos a marca dos seus amores fatalistas; eu, prefiro as amizades férteis dos vinhos.

Retomo a narrativa e o desejo de evasão. Vamos estrada fora, refugiemo-nos na literatura como num convento acolhedor e tragam vinho, do bom, que “o pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos”.

E nisto, outra poetisa rebelde que a cidade nos deixou, Judite Teixeira, a clamar: “Eu quero a vida inútil e perversa, que só me dê gozo e aflição; O meu coração, que tudo dispersa, Não quer a paz de eterna resignação!”. Camilo Castelo Branco engendrou o epicureu Eusébio Macário, e as “comidas fortes, muito adubadas, recozidas no vinho que lhe deixavam irritações juvenis, ímpetos”. “Está a sopa na mesa”, diria o primo Basílio, eu? É mais rancho.

O Dão é um gigante, e muitos dos seus sabores vêm de Mortágua à Serra da Estrela, de Castendo a Senhorim, de Silgueiros às Terras de Azurara. O Dão tem aromas que precisam de eventos para criarem atração merecida, pena as tabernas estarem em extinção, dorida a alma por não se potenciar o briol da Região. Já a “Custódia Gaudência punha a forjicar um pedaçorro de marrã, se havia defunto no chambaril. Ao cheiro dos petiscos acudiam os afilhados para a varredura dos créscimos, não faltavam os gulosos e os necessitados, e, rilha que rilha, era como nos dias fartos de segada”.

E o imponente Paço Episcopal do Fontelo, um Solar com História, sede da Comissão Vinícola à espera de regressar a uma sede mais consentânea, por onde Aquilino Ribeiro andou até vir chapar o costado aqui ao Paço que foi prisão. Aliás, diz-se mesmo que o mestre daqui se escapuliu escavando um túnel pela que é hoje a garrafeira do Bispo deste Paço Episcopal, que a padralhada esclarecida também merece citação.

A região do Dão são vinte mil hectares de vinha, reunidos numa rica rota que inclui adegas, produtores e quintas. Eu gosto de lhe tomar o pulso matinal a esta Região Vinhateira, a essa cidade que, podendo ser farol, teima em não o ser, mais nomenclatura que literatura.

É claro que não se pode partir de Viseu sem uma referência ao museu que tem o nome de um ilustre pintor viseense do século XVI: Vasco Fernandes — Grão Vasco. Eis a fantástica história de uma região vinhateira com secos e molhados, lendas e facécias do Vinho, criado para a jubilosa alegria dos homens.

José Quitério escrevia: “Eu não costumo obtemperar com os paladares depravados pelas iguarias à francesa. Todo o meu intento, embora mal desempenhado, tem sido posto nos usos e costumes da nossa terra”. Mesa certeira, o Inverno é, por tradição, o reino incontestável dos tintos. Das castanhas ao bacalhau da consoada, o frio pede vinhos encorpados, untosos, envolventes e terrosos, e para essa medida há tintos memoráveis. Agora, um poderoso “copo de três” serão os brancos, os grandes brancos do Dão. Que pedem manhãs de sol.

E eu, já sentado, aí, na bonda dos pasteis de bacalhau, batata só para assar, “comer à lauta, iguarias estas de provar e mugir por mais. O sol a ferrar no cachaço, vinho a rodos, o espírito todo no mangual, homens debiqueiros… Tiremos o ventre de misérias”, que Aquilino o merece.

E retomo Luís Miguel Nava, no seu tom etéreo: “a beleza das coisas é só a cor que o olhar perde, antes de fechar”. É isso Viseu, cidade vinhateira, assim a saibam forjicar.

O Dão é gigante.

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