Por norma os vinhos de entrada de gama tendem a ter elevada distribuição, o preço manda, mas isso não quer dizer que os desmereçamos. Ou que o vinho não nos mereça. Não é o caso deste. Há ainda outro problema. A reposição nos supermercados obriga, pela pressa e falta de cuidado, a que os primeiros abastecimentos a chegar, sejam os primeiros a ir para a prateleira. A distribuição esmaga os preços, mas deixa pérolas como este vinho, já com três vindimas em cima, que se encontrou depois de vasculhar a prateleira, e que mereceu os secretos, agora tudo é secreto, e as batatas esmurradas e naufragadas em bom azeite. Coisas da Anita, que superintende na intendência doméstica. Disto isto, saiu-me um bom vinho, que não precisa de grandes cerimónias, um vinho do quotidiano, justo para mesa familiar. Um tinto com muito requinte e grande frescura, a idade, essa verdade que teimamos em aligeirar, carácter mineral e terroso e alguma fruta vermelha. Por três euros a botelha, convenhamos, é uma pechincha.



O elogio desta sublime modéstia, é mais do que uma bebida; é um convite à reflexão sobre o valor escondido no que é acessível. O Encosta da Estrela não grita por atenção com artifícios de madeira ou taninos excessivos; ele sussurra a verdade da terra, um hino à modéstia da Região do Dão, onde a elegância e a frescura coabitam sob a bruma serrana. É um vinho Tinto, um Vinho Tinto na sua essência mais pura, um produto da Adega Cooperativa de Vila Nova de Tazem, produtor que congrega esforços para celebrar o terroir e que demonstra que a grandeza pode residir na coletividade e na honestidade do produto final.

O lote é o tradicional, embora pouco comum, trio lírico do Dão, Jaen suculento na melancolia da fruta madura. Tinta-Roriz, alicerces firmes e cor, a Tinta-Pinheira, sim o Pinus, mas eu habituado ao Rufete, a dualidade de nomes para a mesma casta, uma profunda reflexão filosófica sobre a identidade, a perceção e a fidelidade ao lugar. Talvez o nome nos diga que a verdade da casta não reside apenas na sua genética, mas na matriz do seu solo e clima. É o reconhecimento de que a uva é moldada pela floresta que a cerca, pelo frio das encostas e pela mineralidade da terra. Porém o nome Rufete é um eco da história, a identidade pura que ignora a paisagem circundante e se foca na sua própria linhagem. O Rufete tem uma sonoridade mais rústica, mais ancestral, que remete ao trabalho do viticultor e à memória do lagar. É a fidelidade ao nome que viajou no tempo e traz com ela complexidade e a frescura, mesmo que a botelha tenha tido uma vida mais longa do que aquela que se lhe apresentava quando saiu, em 2023, para o mercado.

Com os seus 13% de volume, apresenta-se com um corpo que não é imponente, mas volumoso, cativante e equilibrado. Não é um vinho para ser decantado em sumptuosidade, antes vinho para ser vertido à mesa farta, entre conversas despretensiosas e risos soltos. Este 2022 jovem, mas já com três vindimas de história na garrafa perdida e encontrada, é a materialização do ‘bom-e-barato’, na sua vertente mais nobre. Exige pouco do gastador, mas oferece muito ao degustador consciente que não prescinde do pequeno ritual de paciência, onde a ligeira frescura aviva o palato para os pratos robustamente caseiros, como os secretos suculentos e as batatas esmurradas. E lá está o selo, vendemos selos e ideias tolas, como esta do “vai além do que pensas”, a modernidade tomada pela vanguarda que posterga história e estórias, sem que a Comissão Vitivinicola Regional do Dão perceba o essencial, é lá com eles.

Em suma, o Encosta da Estrela é um vinho íntegro, frutado e terra-a-terra. É o arquétipo do vinho que não precisa de elogios ruidosos, pois o seu mérito reside na lealdade com que cumpre o seu papel, companheiro justo e saboroso do nosso quotidiano, elevando a refeição familiar a um momento de pura e simples celebração. Um embaixador humilde, mas profundamente respeitável, do Dão que sabe ser grande nas pequenas coisas.






