Razão tinha eu no subir e no descer por estes vinhedos de altitude. A experiência começa na mesa, onde o Naco Tinto Reserva 2022 foi chamado a bailar com a tradição, morcela, farinheira, chouriço e as batatas cozidas de truz, uma harmonização simples, rústica, feita à lambareiro, mas que exige dignidade na garrafa.

Este tinto do Dão, da sub-região Serra da Estrela, é um dos supranumerários essenciais. É um vinho elegante e complexo, com uma robustez que corta a gordura intensa dos enchidos, mas cujo preço na faixa dos 6€ a 8€ nos faz questionar a justiça do mercado. É a prova cabal da dicotomia filosófica que o Dão oferece: vinho de estalo a preço de pataco. O Naco, com os seus 13% de volume alcoólico, não é apenas um produto; é um legado. A linha Américo e o nome Naco são uma homenagem sentida a Américo Seabra, patriarca da família Seacampo, sociedade agrícola com morada em Tazem. O rótulo, recentemente alvo de rebranding com um acabamento dourado e elementos gráficos da Serra da Estrela, reflete essa nobreza mantendo-a acessível.



A magia do Naco está intrinsecamente ligada à geografia. As vinhas, que são guardiãs de pipas e de cachos, estão localizadas a 610 metros de altitude, no coração da Serra da Estrela, e essa altitude é o fator decisivo que confere a acidez e a frescura natural que limpa o paladar entre as garfadas de enchido. A colheita de 2022, apesar de ser um ano quente e seco que antecipou a maturação, permitiu que as uvas de altitude produzissem vinhos de excelente qualidade. O tinto é um reflexo das melhores castas da região. Touriga Nacional e Jaen: trazem os aromas, a fruta preta, as nuances tostadas de barrica e a estrutura necessária para a harmonização supimpa. A Tinta Roriz: confere-lhe corpo, um final persistente e o potencial de envelhecimento que este vinho demonstra ter.

No copo o Naco é cor rubi profundo, com um tanino polido e elegante. A sua estrutura é a robustez necessária para o prato de tradição, provando que, no Dão, a terra é de quem a ama e a cuida, oferecendo generosamente um vinho que nos sobressalta sem nos esvaziar a carteira. É um bom exemplo de Dão, elegante, complexo e surpreendentemente acessível. Apesar do calor, as uvas colhidas no Dão em 2022 puderam produzir vinhos de excelente qualidade, tipicamente com boa concentração, cor intensa e que apresentam uma acidez agradável.

No fim, pede-se-lhe mais e não se nega ao lacticínio, um queijo de ovelha de pasta mole, para rematar um vinho elegante e complexo, talvez demasiado barato para o que oferece. Um bom exemplo de Dão com boa estrutura e potencial de envelhecimento.






