Tazem Espumante Bruto (IVV)


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Tazem Espumante Bruto (IVV)

Bebi-o nos 16 anos de meu filho, e bebo-o sempre que a refeição é mais altaneira e precisa de um acelerador de digestão, num hábito que a restauração tem, também, em surpreender o cliente quando a conta é calada. Foi aliás o meu amigo Tito quem me apresentou o conceito e a divagação. Ajuda, pois, embora tenha vindo para casa a pensar que estava presente um espumante, de marca conceituada, sem denominação e sem ano.

Já lá irei à filosofia da botelha, por ora, fiquemos na poesia do gole, a bolha é finíssima, de uma vivacidade que seduz sem esforço. É fruta de um consórcio entre as castas Bical, Cerceal Branco e Baga, ainda que o meu olfato tenha detetado os vestígios cítricos da Malvasia Fina. Terei de exercitar mais a percepção para, com mestria, tomar a goela ao âmago desta complexidade. Elaborado pelo método clássico, com a segunda fermentação a ocorrer no silêncio da garrafa, revela-nos uns módicos, simpáticos e aconselhados 12% de volume alcoólico. O seu estágio mínimo, no repouso das borras, é de doze meses, ostentando um preço, em loja, de 9,55 euros.

Apresenta uma cor limão suave com aromas finos e elegantes. Na boca, destaca-se pelo equilíbrio entre acidez e corpo, com um toque cítrico e final prolongado. E nós, consumidores, teremos de nos aprumar e deixar de preconceitos e ideias feitas. Espumante vem de entrada, de refeição, ou de final, desde que venha nos seus 8°C. No final, depois de uns prodigiosos torresmos e uma feijoada personalizada, caiu que nem ginjas. A idade já me pesa, o beber já não é o muito e bom da irreverente juventude, prefiro apenas o excelso, embora tenha devaneios e mantenha se a mesa o impuser, e apesar da censura familiar, o muito como previdência.

Dito isto, o espumante encantou-me; é uma forma sublime de esgotar stocks e, hoje, é consensual o prazer de um bom espumante. Resta-nos a angústia filosófica: certificar ou não denominar? Creio piamente que o consumidor sai enobrecido com a certificação. O Dão, esse, ganha por inteiro. A Região Demarcada do Dão produz e certifica espumantes com o selo de Denominação de Origem Controlada (DOC). São vinhos de uma frescura indómita, elegantes e de aromas frutados, nascidos das castas autóctones da região. Se as uvas forem de uma só vindima, o rótulo ganha o título de vintage; contudo, é frequente e legítimo encontrar lotes de anos distintos. Mas clamo, em nome do respeito por quem bebe, que se anote a data de dégorgement, esse ato de libertar as leveduras, ou a data de engarrafamento. Só assim se cronometra a evolução do tempo. Eu, que celebrei com prosa sentida os 125 anos do espumante em Portugal, sofro com este desmazelo informativo. A certificação é o que confere valor, proveniência e carácter, embora perceba o refúgio contra as decisões, por vezes cinzentas, da Câmara de Provadores que empurra os produtores para o selo genérico do IVV.

Escorropichando, estamos perante um belíssimo espumante que ganharia outra dignidade com a aposição do ano. Digo-o eu, que desço às trevas das caves para provar a luz: ainda este ano encontrei a glória num de 1987. Duvidem, se quiserem, e riam-se. Mas quando decidirem fazer a viagem e provar a eternidade num copo, venham daí.

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