Viseu by nigth


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Viseu by nigth

O casco está velho, continua calcetado e com povo na rua, não o botellón, mas os que gostam de tabaco e álcool. Ora de álcool vamos bem, de tinto, do Dão, a coisa está ruim. Velhaca mesmo. E a noite prometia. Saí da Igreja dos Terceiros, a mais bela das igrejas de Viseu, onde fui ouvir o Coro Juvenil do Carmo, de Beja e saí com direção ao centro histórico. Vinho do Dão há em muitos bares, num deles só conta uma marca, que recebe em dobro o castigo com essas encomendas de café e vinho. Tolos. A noite está boa e recomenda-se.

Aviado um tinto na Sé, desço a caminho da Quinta do Galo. De permeio, os sólidos para entalar o vinho, pão rustico, orégãos, queijo e fiambre, fatias generosas, duas dela encavalitadas. O vinho de serviço era um enxertado, fora da Região Demarcada do Dão. Tolos, a rolarem mesas com 4 ou 5 euros de despesa, e outras com vontade de continuar a trincar bom pão e a bebericar. Não há Dão, abala-se. Uma inquietação viseense, a melancolia crítica de quem percorre as ruas de Viseu. Procurei a inquietação cartesiana, aquela dúvida metódica que não aceita o que lhe é servido sem antes passar pelo crivo da razão. Se me falta o néctar do Dão, que razão ontológica me levaria a transpor o umbral do teu bar?

O casco da cidade, essa carcaça vetusta e perene, permanece ali, calcetado de memórias e de um povo que teima em habitar o espaço público. Não falo do botellón efémero e ruidoso, mas dos resistentes, dos que cultivam o vício elegante do tabaco e a liturgia do álcool. Ora, de espírito e destilados parece o mundo sobejamente provido; todavia, de tinto, desse sangue da terra que é o Dão, a penúria é desoladora. Uma carência velhaca, diria, precisamente quando a noite se anunciava como uma promessa por cumprir.

Emergi da Igreja dos Terceiros, esse prodígio de talha e pedra, a mais fulgurante das igrejas de Viseu, onde o Coro Juvenil do Carmo, vindo de Beja, havia deixado um rasto de harmonia. Demandei o centro histórico, mas o que encontrei foi a dúvida hiperbólica de Descartes transposta para a hotelaria. Será que o que vejo nas prateleiras é a realidade ou um mero génio maligno a enganar-me os sentidos? Em certos bares, a oferta é de uma tacanhez franciscana, onde impera uma marca única, castigada pela heresia de se encomendar, em simultâneo e sem critério, o café e o vinho. Tolos.

A noite, porém, persiste amena e convidativa. Após outro tinto, aviado à pressa na Sé, desço em direção à Quinta do Galo. Pelo caminho, busco os sólidos necessários para sustentar a alma e o estômago: pão rústico, o perfume dos orégãos, queijo e fiambre em fatias generosas, de uma opulência quase estratificada. Mas o vinho de serviço? Um enxertado apócrifo, exilado da nossa Região Demarcada. Assisto, entre o espanto e a tirania, mesas que rolam com uma despesa fútil de quatro ou cinco euros, enquanto outras, ávidas de trincar o pão e deambular por sabores mais nobres, são remetidas ao silêncio. Não há Dão.

Contam-se pelos dedos de uma mão, e três dedos sobram, os estabelecimentos em Viseu que dignificam o serviço de vinho a copo com uma curadoria zelosa ou, pelo menos, qualificada. Esta ausência de alternativa é um cárcere para o consumidor; impede a experiência, a degustação plural, o direito de não querer beber a garrafa inteira, mas de exigir a excelência em cada golo. As prateleiras exibem espumantes de rótulos estéreis, enquanto o escaparate do Dão se limita ao mimetismo do supermercado. O que deveria ser um gesto de hospitalidade torna-se um destemor, uma ausência de coragem comercial.

Eis a urgência, recuperar a tradição do vinho da casa, mas sob um rigor renovado. A “casa” deveria ser sinónimo de pertença, de regionalismo autêntico, e não de um facilitismo bacoco. Deixei onze euros e cinquenta por um tinto, um Martini e o sustento; poderiam ter sido muitos mais. Havia movida, havia cultura, havia o fervilhar de conversas inteligíveis sob as estrelas. Mas o vinho… esse turvou-se.

Precisamos de uma honestidade brutal nas escolhas. Se não dissermos ao que viremos, se nos mantivermos caiados e mudos como as paredes de cal, o freguês transmuta-se em fantasma e não regressa. Eu busco a quietude no copo; a Anita prefere o rigor dos destilados, à falta do Dão. Bebo um copo único. A esta desolação acresce a nebulosa legislativa. A falta de uma regulamentação cristalina sobre o serviço a copo vulnerabiliza o consumidor e tolhe a mão das autoridades. No entanto, o cálculo é elementar: poder provar quatro vinhos distintos durante uma ceia é o verdadeiro lucro do restaurador. De outro modo, resta-nos o ritual da despedida, pagamos, agradecemos com uma cortesia tingida de desilusão e terminamos o cigarro já com a mão na ignição do carro. Dificilmente voltaremos. É um crime de lesa-turismo, um insulto à Região e um fardo para quem tem porta aberta. Eles lá saberão, ou talvez, como diria o filósofo, precisem de duvidar de tudo para, finalmente, aprenderem a servir.

O que é mau, para o turismo, para a Região e para quem tem porta aberta. Eles lá sabem.

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