De vez em quando as prateleiras das garrafeiras apresentam garrafas esquecidas, a bom preço e que cativam a gula. Foi o caso deste, que também ficou olvidado até ser preciso obsequiar a prelatura no complemento do jantar, para tingir a marmelada e o lacticínio espanhol, culpa minha, mas a mundividência também reclama mesa e adoro este em particular. Com espanto, entremeada a prova primeira com tabaco no conforto da varanda, surgiu-me um vinho renovado, em relação ao que provei de 2020 e que consta das bases de dados aqui do Armazém, a 5,10 euros a botelha. E que dizer, dum final de jantar com este Dão tradicional e para o grande consumo?



Dizer, talvez, que o tempo é uma entidade bífida. Se o 2020 era uma memória de estrutura mais rígida e estática, este 2023 apresenta-se com uma vivacidade impetuosa, quase insolente na sua juventude. É um Dão que não pede licença; entra pela alma adentro com uma frescura silvestre e uma frutosidade telúrica, lembrando-nos que a mutabilidade é a única constante da matéria.
Perguntava-me eu, olhando o fumo do tabaco a dissipar-se no éter da noite, será que o vinho evolui para nos satisfazer, ou somos nós que, a cada colheita, reinventamos o palato para suportar a brevidade da existência?
Nesta análise comparativa, o 2020 revelava-se um vinho de guarda modesta, onde a Tinta Roriz parecia dominar com notas de fruta madura e um tanino já domado pelo repouso, quase melancólico. Já este 2023 é um manifesto de pujança tânica e acidez vibrante, onde a Touriga Nacional e o Alfrocheiro parecem gritar a sua origem granítica. Se o antecessor era um abraço de outono, este é um despertar de primavera, mais floral, mais tenso, com uma pureza varietal que o 2020 já tinha sacrificado no altar da evolução. Como pode algo tão democrático e acessível carregar em si a complexidade mística do planalto? Prová-lo é um exercício de humildade. Entre o brilho rubi profundo no copo e o travo especiado que persiste no final de boca, fica a dúvida, estaremos nós a beber o vinho, ou será o vinho que, silenciosamente, consome as nossas certezas sobre o que é o luxo? Essa interrogação é o verdadeiro fulcro da experiência, o momento em que o líquido deixa de ser objeto e passa a ser sujeito. Podemos, e devemos, aprofundar essa dialética.
Nesse instante, o vinho atua como um ácido corrosivo sobre o preconceito. Ele não se limita a passar pelo palato; subverte a hierarquia do valor. Enquanto o degustamos, ele bebe as nossas construções sociais, as etiquetas de prestígio que usamos como armadura. O vinho, na sua nudez frutada e honesta, despe-nos da vaidade de acreditar que o prazer está proporcionalmente ligado ao sacrifício financeiro. Talvez o verdadeiro luxo não seja o rótulo que ostenta uma heráldica secular ou um preço proibitivo, mas sim a liberdade de discernimento. Quando este Cardo Real nos entrega a terra, o sol e a frescura do granito por um punhado de moedas, ele está a cometer um ato de insurgência, está a provar-nos que a beleza é uma epifania gratuita, e que nós, tantas vezes escravos do rótulo, somos os verdadeiros esquecidos nas prateleiras de um sistema que nos ensinou a confundir custo com valor. E isto, tal como o vinho, é subversivo.
No final, não somos nós que avaliamos o vinho; é ele que, no seu silêncio carmim, avalia a nossa capacidade de sermos felizes com o essencial. O vinho consome a máscara do conhecedor para deixar apenas o homem, e esse, talvez, seja o único luxo que realmente importa.



No fim, resta a comunhão entre o queijo, o pão e esta vontade líquida. Se o 2020 foi um capítulo de repouso, o 2023 é um manifesto de urgência. Afinal, o que é a vida senão uma sucessão de garrafas que, entre o esquecimento da prateleira e o sacrifício no copo, nos dão a ilusão de que o mundo, por 5,10 euros, ainda pode ser salvo pela beleza?






