Senhor da Vinha Touriga Nacional Reserva 2023


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Senhor da Vinha Touriga Nacional Reserva 2023

Há vinhos que chegam à mesa com a humildade de quem quer acompanhar o prato. E há outros, como este, que chegam já com ares de estatuto, quase de proclamação social engarrafada. O Senhor da Vinha DOC Dão Reserva 2023, Touriga Nacional, chegou do supermercado para dançar com uma jardineira. Predominantemente Touriga Nacional, com 13% de volume e um preço médio: cerca de 15,99€, em loja já que no supermercado ficou por 4 euros, naquela que é uma marca comercial da Internacional Vinhos, um tinto com estágio em madeira e perfil Reserva.

A grande questão, Reserva, mas de quê, exatamente? Aqui começa a ironia.

No Dão, ao contrário do que muitos consumidores imaginam, a designação ‘Reserva’ não é uma promessa absoluta de qualidade, mas sim o cumprimento de determinados critérios mínimos definidos pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão.

Na prática, isso significa um grau alcoólico mínimo superior ao standard, eventual estágio em madeira e aprovação na Câmara dos Provadores. Não significa, necessariamente, grande vinho. Nem sequer vinho memorável. Ou seja, ‘Reserva’ tornou-se, para muitos produtores, mais um argumento de marketing do que uma garantia sensorial. Uma espécie de auréola que se cola ao rótulo e que o consumidor, ingénuo ou apressado, aceita como dogma. Vamos ao vinho.

Este vinho joga dentro do perfil clássico do Dão moderno, com um ligeiro empurrão de maquilhagem enológica. No nariz, fruta vermelha madura, alguma especiaria, baunilha evidente, a madeira a marcar presença, talvez mais do que devia. Na boca um corpo médio, taninos dóceis, pouco desafiantes e um final correto, mas curto na memória. É um vinho bem feito, mas previsível. Não há arestas, mas também não há rasgo. Dir-se-ia que foi desenhado para agradar a todos, e acaba por não apaixonar ninguém.

Ainda assim cumpriu na mesa, a jardinheira pede um tinto com frescura suficiente para cortar a gordura, fruta acessível e um tanino moderado. E este Senhor da Vinha entrega isso sem levantar ondas. Não eleva o prato, mas também não o compromete. É companhia, não protagonista. Enfim, um vinho que veste fato de domingo para ir ao supermercado.

Tem Reserva no rótulo, Touriga Nacional no argumento e Dão na origem, três selos que deviam carregar peso e história. Mas, no copo, revela-se mais uma construção segura do que uma expressão autêntica. É o tipo de vinho que explica bem o estado atual de parte do mercado, muito rótulo, pouca alma. Bebe-se. Cumpre. Esquece-se.

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