Kelman Encruzado 2023


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Kelman Encruzado 2023

Este é um velho amigo da mesa familiar, usado para envolver carnes grelhadas, mereceu cada gota, um belíssimo exemplar do ‘novo Dão’, que equilibra a tradição da região com uma visão moderna e elegante. O Kelman Encruzado Barrel Fermented 2023 é um vinho que fala sobre o lugar de onde vem. E também diz ao que vem.

Apresenta-se com a audácia de quem não pede licença para ocupar o seu lugar. Nascido da rocha granítica, onde as raízes rasgam o solo em busca da essência mineral, este Encruzado é um manifesto de resistência e de poética telúrica. Há nele uma geometria líquida; uma estrutura vertical, tensa e vibrante, que desafia a gravidade do palato. É um vinho aristocrático, mas sem arrogância. O estágio em barrica não é um disfarce, antes armadura de seda que protege a pureza da fruta, conferindo-lhe uma untuosidade voluptuosa e um fumo discreto, quase um sussurro de lareira antiga em tarde de inverno. Na boca, revela-se amplo, profundo e telúrico, transportando a frescura das altitudes de Nelas numa dança altiva entre a acidez cortante e o corpo sedoso.

Filosoficamente, este exemplar é uma meditação sobre o tempo. Se hoje é um companheiro vigoroso para a mesa farta, guarda em si a promessa de uma longevidade profética. É a prova de que a modernidade não precisa de esquecer os antepassados para ser vanguardista. Beber este Kelman é abraçar o Dão na sua forma mais pura e audaz, um vinho que não se limita a acompanhar o momento, mas que o consagra, elevando a simplicidade de uma carne grelhada ao estatuto de um ritual sagrado. Em loja custa 18 euros, na restauração chegou à mesa por 22, o que mostra que, em querendo, há sensatez no tabelar dos vinhos.

O projeto Kelman é o rosto de uma ousadia que atravessou o Atlântico para reclamar a memória do solo. Sob a visão de Juliana Kelman, as vinhas plantadas no virar do milénio em Nelas não são apenas património agrícola, mas sim um laboratório de identidade e resiliência. Com uma filosofia de intervenção mínima, a produtora recusa o facilitismo da correção química para privilegiar a voz do granito e a pureza das castas autóctones. É nesta simbiose entre o respeito sagrado pelo legado do Dão e uma coragem interpretativa contemporânea que o produtor afina a sua mestria, entregando vinhos que são, simultaneamente, um espelho da terra e um tributo à persistência de quem sabe que o vinho se faz, acima de tudo, com paciência e alma.

Um vinho com alma de pedra e coração de ouro, que sabe, como poucos, que a verdadeira elegância reside na verdade da terra.

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