Passarela Pai D’Aviz Tinto 2024


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Passarela Pai D’Aviz Tinto 2024

Há dias assim, corridos, em que vamos ao takeaway e de caminho, num qualquer supermercado atiramos a mão à prateleira dos Dão, quando a há, e trazemos uma marca que já nos oferece garantias.

Ora já voz falo destes 6,40 euros de botelha, antes pensar que a produção de Touriga Nacional cresceu tanto que já não lhe damos oportunidade para um solilóquio. E na restauração a ‘Vitela de Lafões’, no forno, com batatas e migas de couve já nos esportula uns valentes 19,50. Feitas as contas 25,90 euros para dois mastigantes. Não sei se é caro, mas também não creio que seja encómio. À botelha, senhores, à botelha.

Este vinho é, antes de mais, um manifesto líquido da resistência e da paciência, onde a herança secular da Casa da Passarella se funde com a crueza granítica da Serra da Estrela. O Pai d’Aviz Colheita 2024 não é apenas um néctar, mas uma meditação sobre a altitude, nascido num vale onde o clima austero e o isolamento moldam um perfil de elegância aristocrática e frescura vibrante. Sob a visão do enólogo Paulo Nunes, este lote, uma coreografia precisa entre a Touriga Nacional, o Alfrocheiro, a Tinta Roriz e o Jaen, recusa o caminho fácil da opulência moderna para abraçar a autenticidade de um terroir único.

A colheita de 2024 exigiu uma entrega quase espiritual dos viticultores; perante um ano de instabilidade climática, a vinha teve de lutar contra a humidade excessiva, resultando numa produção mais contida, mas imensamente expressiva. É aqui que reside a filosofia deste vinho, na aceitação de que a natureza dita as regras. Onde a Touriga Nacional é tantas vezes vitimada por produções industriais que lhe roubam a alma e a diluem em volumes sem carácter, aqui, sob o rigor da altitude, ela transmuta-se. A altitude age como um cinzel, purificando a casta de qualquer excesso de vigor e devolvendo-lhe o perfume etéreo das violetas e o nervo da acidez serrana.

No copo, este tinto de 13,5% Vol. apresenta-se com uma cor rubi profunda e honesta, convidando a uma prova onde o tempo parece abrandar. O ataque é fresco, quase elétrico, com a mineralidade do granito a sustentar notas de fruta vermelha silvestre que persistem no palato com uma polivalência gastronómica invejável. É um vinho que exige companhia, mas que se basta a si próprio numa noite de reflexão, provando que, na Serra da Estrela, o vinho não se faz apenas com uvas, mas com a memória das pedras e o silêncio das montanhas.

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