Da Amadora para Vil de Souto, de Rio Tinto para Viseu, do Sátão para o Porto e do Porto para a Covilhã. Daqui para ali, e de acolá para além. O vinho viaja muito. Viaja em cisternas, em contentores, em garrafas, em caixas de cartão que prometem uma origem que, por vezes, o consumidor tem dificuldade em seguir. Não são movimentos orgânicos, são movimentos de mercado. E confesso que nem sempre sei se não os compreendo ou se os compreendo demasiado bem.


O Dão é uma das mais antigas regiões demarcadas de Portugal. Vive da geografia, do granito, da altitude, das serras que a protegem e da reputação construída por gerações de viticultores. A Denominação de Origem não é apenas um selo. É um pacto de confiança entre quem produz e quem compra. A própria definição legal de denominação de origem assenta na ideia de que a qualidade e as características do vinho resultam daquele território específico, dos seus fatores naturais e humanos.
Por isso, talvez o consumidor tenha o direito de fazer uma pergunta simples, se o vinho é do Dão, porque anda ele tantas vezes longe do Dão antes de chegar à mesa?
Não falo de ilegalidades. Falo de perceção, de transparência e de autenticidade. O vinho é hoje um produto global, sujeito às lógicas da concentração industrial, da distribuição e da logística. Mas o consumidor contemporâneo já não é o comprador distraído de há vinte anos. Lê rótulos. Procura a quinta. Quer saber quem produziu, onde foi vinificado, onde foi engarrafado. Quer conhecer a história antes de abrir a garrafa.
E o Dão tem uma história suficientemente rica para não precisar de atalhos.
A Comissão Vitivinícola Regional do Dão tem como missão controlar a origem, garantir a genuinidade e certificar os vinhos da região. Todo o sistema existe para assegurar que aquilo que é vendido como Dão corresponde efetivamente ao que o nome promete. Mas a confiança não vive apenas da certificação. Vive também da proximidade, da clareza e da capacidade de responder às dúvidas legítimas de quem compra.
Quem percorre as estradas do Dão encontra adegas modernas, quintas históricas e produtores apaixonados. Encontra também uma realidade menos falada, muitos produtores dependem de cadeias comerciais e contratos que lhes retiram margem de manobra. Em demasiados casos, a venda direta continua a ser uma exceção quando deveria ser uma celebração. Não faz sentido que uma região que se afirma pelo enoturismo e pela autenticidade tenha ainda tantos obstáculos entre o produtor e o visitante que lhe bate à porta.
Talvez seja tempo de revisitar algumas regras, alguns procedimentos e algumas culturas institucionais. Não para enfraquecer a Região Demarcada, mas precisamente para a fortalecer. O Dão não precisa de ser mais fechado. Precisa de ser mais transparente. Mais exigente consigo próprio. Mais próximo dos consumidores que lhe reconhecem qualidade e estão dispostos a pagar por ela.
Também a Câmara de Provadores, guardiã da certificação e da tipicidade, ganharia em abrir janelas. O rigor é indispensável. O secretismo já não é uma virtude. O vinho moderno vive tanto da confiança como da qualidade.
O Dão tem tudo para ser uma região cosmopolita sem deixar de ser autêntica. Pode falar para o mundo sem perder o sotaque das suas aldeias. Pode exportar milhões de garrafas sem esquecer o consumidor que entra numa adega e quer levar para casa mais do que vinho: quer levar uma origem.
Porque o vinho pode viajar muito. Mas a sua identidade não devia perder-se pelo caminho. E o consumidor, que é quem sustenta toda esta cadeia, merece saber exatamente de onde vem aquilo que tem no copo. Afinal, numa região construída sobre a ideia de origem, a transparência não é um detalhe. É o princípio de tudo.






