Quando as redes sociais nasceram e bateram à porta do mundo a pedir recenseamento, não vacilei, firmei a jofra e escolhi a mesma ocupação telúrica que me trazia em andanças velhas, de terra em terra, de praia em praia. À época, como morava no casco velho e granítico de Viseu, ficou escrito que era Provador na Adega da Prebenda, onde cheguei a deitar corpo e ter residência. Mal sabia eu, tantos anos e tantas léguas corridas depois, da bendita e pesada crueza deste ofício.



Nesta quinta-feira, foram 44 vinhos os que me passaram pela boca. Fomos a primeira levada de provadores, a primeira linha a calibrar a alma do Dão. Avaliámos tintos profundos, brancos de acidez cortante, rosés e tourigas de raça para o concurso da Comissão Vitivinícola Regional. Éramos 34 provadores, gente sisuda, de ar sério e de cepa rija, divididos por mesas com um presidente a ditar a ordem. Ali busca-se o consenso na viva troca de opiniões, mas impera o mistério, muito vinho de cara tapada e o saltar de rolhas a matraquear nos ouvidos. Não é dar-me a importância que não tenho, mas a tarefa exige método, pinças e responsabilidade. A cuspideira vai-se enchendo; só dou um pequeno golo quando a dúvida aperta e preciso de aferir a fundo a verdade da uva, limpando logo o palato com uma bolacha de água e sal.
Enquanto a prova avança, penso na logística hercúlea necessária para erguer um concurso deste calibre e na nova imagem da Comissão: “o vinho das quatro serras”. Louvam-se o Açor, a Estrela, o Caramulo e o Montemuro. Serão muitas mais serranias a abraçar o nosso planalto, mas ficam as grandiosas. Se me dessem licença, acrescentava-lhe a Nave e o Buçaco, mas não importa, o Dão está bem prebendado. Nas notas, com o bico do lápis e a memória do gosto, fui escrevendo conforme a prova me pedia.
Demarcada no longínquo ano de 1908, a nossa região do Dão não é terra de facilidades, é terra de lavradores antigos e resiliência. Inclui hoje mais de 150 engarrafadores, 2300 viticultores e uma produção anual que roça os 19 milhões de litros, metade dos quais cruza fronteiras e ruma à exportação. É o sustento que brota do granito, uma fonte de riqueza e postos de trabalho que cimenta o desenvolvimento harmonioso da nossa Beira Alta.
Mas eu, que trago a bitola dupla de escanção e provador, fico-me ainda pelas entranhas do Concurso “Os Melhores Vinhos do Dão”. Este ano, contamos com 41 agentes económicos e 176 referências a concurso, o que representa um crescimento de produtores superior a 30% face ao ano transato.
“Este crescimento expressivo do número de participantes demonstra a confiança que os produtores depositam no concurso e reforça a sua relevância enquanto instrumento de valorização e promoção dos vinhos do Dão. Mais do que distinguir os melhores, este é também um momento de celebração da qualidade e da diversidade que caracterizam a nossa região vitivinícola”, afirma, com inteira razão, o presidente da CVR Dão, Manuel Pinheiro.
Esta caminhada que fizemos, a denominada grande prova, foi seguida pela prova finalíssima, momento supremo em que se apuraram os grandes vencedores entre as garrafas mais pontuadas em cada categoria. O júri é um corpo vivo e diversificado de profissionais, jornalistas que correm o setor, sommeliers de fino trato, produtores e enólogos de gabarito. Tudo para garantir uma apreciação puramente técnica, cega e independente. Nesta edição, os presidentes de mesa que nos guiaram foram o enólogo Tiago Macena, o jornalista José Miguel Dentinho e, em representação da casa, Linda Almeida e Miguel Martelo.
O concurso contempla cinco frentes de batalha, Vinhos Brancos de Lote; Vinhos Tintos de Lote; Vinhos Rosados; Monovarietais e Espumantes.



As regras são claras e exigentes, as medalhas Grande Ouro ficam guardadas para os vinhos que obtenham pontuação igual ou superior a 93 pontos; o Ouro assenta nas classificações iguais ou superiores a 89 pontos; e a Prata coroa as referências que atinjam, pelo menos, os 85 pontos. No topo de tudo, entre os premiados, será anunciado “O Melhor Vinho a Concurso”, o soberano de toda a competição.
Ora, para o meu talante, os 96 pontos foram o máximo que escrevi na folha. Um veredicto merecido e suado entre 44 vinhos provados. Avaliar vinhos é ofício que não consente leviandades. Exige nariz treinado ao vento, concentração de monge e uma honestidade brutal, connosco e com quem passa o ano a sachar a vinha. Ou se gosta ou não se gosta. Mas é preciso dar tempo às garrafas para que se mostrem por inteiro. O olfato ajuda, sim senhor, mas nem sempre é o melhor juiz antes de a boca ditar a sua sentença.
Os grandes vencedores serão anunciados no próximo dia 17 de julho de 2026, durante o jantar de gala e a cerimónia de entrega de prémios desta 17.ª edição. O encontro está marcado para as 19h00, no Museu do Vinho e das Artes, em Nelas. Faremos lá a festa com os produtores, e confesso que a curiosidade já me morde o espírito.
Bem hajas ao Luís Gradíssimo que me convidou, à Comissão que nos levou a almoçar na capela do Paço e à memória.

No final dos trabalhos, guardado o vinho preferido de cada jurado, cumprimos o ritual, erguemos os copos e brindámos, todos os da mesa, com o fruto do nosso próprio suor. Eu fui-lhe a fumar um cigarro. Caramba, era de justo. A prova final chega daqui por dias. Até lá, o Dão descansa na adega e nós na nossa beirã lealdade.






