Foi uma garrafa e meia, essa sensatez restaurativa que nos evita o encómio e que adoçou o melão, depois de uns nacos de vitela, com hortaliça, e umas entradas de morcela, alheira e chouriço, ali mesmo, no Viso, não no de Repeses que está fechado, mas no da Feira São Mateus, onde o Restaurante pousa até seis de Setembro.


Bebi-o na prole, durante uma visita à Feira na companhia de camaradas de ofício e cortesia da Viseu Marca. Almoçámos no Viso, surpreendidos os nacos e a hortaliça por um arroz de míscaros roubados ao anfitrião e que não houvera catrapiscado da ementa.
E foi com este UDACA Colheita 2023, tinto límpido de 13% volume, parido pela União das Adegas Cooperativas do Dão, que a mesa encontrou a sua afinação. Um vinho sem artifícios nem salamaleques, honesto na sua costura e profundamente vincado na matriz da região, desenhado a partir do lote tradicional de Touriga-Nacional, Alfrocheiro, Tinta-Roriz e Jaen.
Apresenta-se com cor rubi franca e um aroma cativante a fruta madura envolto por discretíssimas notas de madeira. Na boca é elegante, fresco e complexo, de taninos macios e um final persistente que soube a pouco. A sua acidez viva fez o corte perfeito à gordura dos enchidos de entrada, enquanto a fruta pura abraçou a suculência da vitela e a fragrância terraça do arroz de míscaros. Servido entre os 16 e os 18 ºC, cumpriu com louvor o seu propósito gastronómico.



O ano vitícola de 2023 no Dão exigiu saber e paciência, a água de Inverno recompôs o solo granítico, a Primavera húmida pediu olho vivo na vinha e a grande amplitude térmica do Verão, com noites bem frescas a temperar dias quentes, garantiu uma maturação equilibrada. O resultado é este vinho de frescura impecável, que não pede vénias, mas tempera a conversa, amacia a comida e dá o justo sentido à jornada.
Saindo do repasto com o corpo aconchegado e o espírito leve, entreguei-me aos passos vagarosos pelo recinto da Feira de São Mateus. Há naquelas alamedas velhas uma febre ancestral, onde o cheiro a farturas quentes e a carvão queimado se mistura com a sombra protectora de Viriato e o cantar distante dos carrosséis. Caminhar ali, à tarde, é deslizar por entre a memória viva da beira, o granito aquecido pelo sol de Agosto, temperado pela chuva que não se fez rogada, o murmúrio das gentes que se cruzam sem pressa e esse pulsar de feira secular que transforma o tempo num parêntesis suspenso.
O vinho ainda a pedir a brisa da tarde, e a Feira, generosa, a oferecer-se inteira aos olhos de quem a sabe andar.






