Vinha de Reis Rosé (Jaen) 2023


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Vinha de Reis Rosé (Jaen) 2023

O vinho fui buscá-lo a correr, manhã cedo, ainda mal acordada a alba. Neste andarilho de repórter somam-se viagens, idas e vindas, um desassossego, mas haveria de ter tempo para ele. O vinho e a amizade. Aliás, a primeira pergunta de um dos meus amigos, era sobre o local. A casa antes de mim. O Armazém do Dão, que atiçou a gula, não tem morada física, por enquanto, acrescentei eu. Agora, sentados no cadeirão, bom, nota unânime. Um vinho gastronómico.

Para comer, toda uma refeição, completa, afirmações de meus amigos, o Pedro Garcias, autoridade vínica e no pulsar das letras, e o José Augusto Moreira, grande especialista na escrita vínica e na arte de desancar o osso ao presunto, entre outros feitos que andou pelo Direito e os dois são Mestres para aprendiz como eu que acrescentei o guloso, mas esse adjetivo foi reprovado por inefável maioria.

O conciliábulo fechou-se com o António Alves e o Manuel Azevedo. Reunidos em magna assembleia, apreciámos o vinho como uns anarco-vinícolas, na expressão célebre do biógrafo de Pessoa, em 35 anos e sete volumes, o Jorge Plácido, também ele meu amigo. E do vinho?

É um prazer falar sobre o Vinha de Reis Rosé 2023 da Quinta de Reis, um produtor importante na região do Dão! A botelha, veio em caixa, mas essas contas não importam no agora, a dez mil réis, que eu insisto em comprar nos pequenos produtores, sobretudo quando a distribuição ignora bom senso, concorrência e lealdade ao Dão.

O Vinho é um rosé visualmente claro, com uma bela cor salmão. No nariz, apresenta aromas de frutos vermelhos, típicos da casta; na boca, tende a ser muito fresco, mineral e estruturado, com bom equilíbrio entre álcool – 12,5; acidez viva e um final longo e elegante. Este foi produzido em modo “bica aberta”, que é quando o mosto é retirado rapidamente das películas das uvas tintas, Jaen, para obter a cor rosada, garantindo frescura e leveza. Menos extraído, direi eu.

A Jaen é uma casta tinta de grande prestígio na Região do Dão, e tem forte presença na sub-região de Silgueiros, onde se inclui a Quinta de Reis e história de passagem pelo Mosteiro do Santo Sepulcro. Ainda não averiguei com o rigor científico que a pesquisa me impõe, mas que se anote que o Mosteiro do Santo Sepulcro em Trancozelos, Penalva do Castelo, foi fundado no século XII, no início da nacionalidade portuguesa.

É o primeiro mosteiro construído em Portugal pela Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro e devemo-lo a D. Teresa, mulher do Conde D. Henrique, que decidiu sediar aqui a primeira casa da Ordem na Península Ibérica. O local era conhecido na época como Vila Nova do Santo Sepulcro. Terá sido por ali que entrou o Jaen. Arrisco, com quase certeza.

Jaen e Mencía são a mesma casta de uva tinta, com o primeiro nome consagrado no Dão e o segundo em Espanha, Bierzo e Ribeira Sacra. A Jaen do Dão e a Mencía do noroeste espanhol são sinónimos da mesma casta tinta, conhecida por originar vinhos elegantes, frescos e perfumados, com intensas notas de fruta silvestre. Produtivas e pouco coloradas, são o orgulho do produtor. Acresce que dá um belíssimo Dão Novo, já há quem o coloque no mercado. Por vezes exibe um ligeiro toque vegetal e no Rosé atinge o nirvana, com um perfil frutado, boa acidez, essencial para a frescura.

A Quinta de Reis está localizada na Região Demarcada do Dão, na Sub-região de Silgueiros, vinhas em média a 440 metros acima do nível do mar, sobranceiras ao rio Dão, o que contribui para a amplitude térmica, noites frescas, dias de calor, que privilegiam a maturação lenta das uvas, preservando a acidez e intensificando os aromas. Solos graníticos, e uma distintiva mineralidade.

A colheita de 2023 no Dão teve Inverno chuvoso, seguido de uma Primavera mais seca, e um Verão com algumas ondas de calor, mas com chuvas pontuais que ajudaram a aliviar o stress hídrico em momentos cruciais. Uma colheita com uvas saudáveis e uma boa maturação, com a preservação da acidez, o que é ótimo para a produção de brancos e, especialmente, rosés frescos e equilibrados como este.

Parece-lhe um vinho interessante para experimentar, ou procura algo diferente? Talvez lhe consiga avivar os tímpanos.

Eu despedi-me dos meus amigos e com eles deste Vinha de Reis Rosé, perfil fresco, mineral e vibrante. A cor salmão atraente e os aromas intensos a frutos silvestres tornam-no o convite perfeito para amesendar e cavaquear. Eis a essência luminosa de um momento, amigos que se estimam e pouco se vêm, que as nossas vidas são o que são.

Ao redor deste cálice delicado e sedutor, o tempo abranda. As garrafas abrem-se, e com elas, a conversa flui desimpedida e a alegria contagiosa toma conta da mesa. É o vinho que harmoniza o palato e a alma, ligando amigos em laços renovados.

Uma quase poesia do instante, todos cúmplices na irmandade que procura, entre pratos e amizades longas, celebrar a simplicidade que é estarmos vivos. É quanto me baste.

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