A conversa dava dois pipos e uma salgadeira. Mas encontrei-o no Pingo Doce, que mesmo mal-arrumado já bota letreiro ao Dão. Custou 2,99, tem assinatura do enólogo e é de 2022. Chamou-me o almoço, um lombo fatiado e umas batatas rústicas com ervas no forno, o preço e o desfrute da Touriga Nacional a salto, a Anita fidelizou brancos e rosés, mais os fumos. Enfim, se o vinho vai de mesa a varanda.



Ainda assim, que audácia, lançar-me a desvendar a Touriga Nacional, a indomável dos tintos lusitanos, e, ainda por cima, sob o manto da grande distribuição. Mas o rótulo fala, e fala em Dão DOC, na sua Região nativa, autóctone se me autorizam a condição, terra que nos acalma o espírito. É a certeza da origem que me puxa a garrafa, um convite direto e sem rodeios.

A conversa, admitamos, fazia-se num vindima, não sou acólito da Touriga em varietal nem endeusei a casta; é poderosa, tem marca e rasgo, mas equilibra os vinhos que eu, de preferências, prefiro loteados. Esses são os deleites. Os pleitos são de engajamento. A cor é prelúdio, uma violeta concentrada, quase tinta, que nos promete profundidade. É o primeiro aceno da Touriga, que não esconde a sua força, mas a serve com elegância. No nariz, a história complica-se na melhor das aceções, não é só fruta. Sim, fruta preta intensa, mas o que me inquietou e inquiriu foi o nariz, cítrico, frescura, e a subtil nota de vegetal, o Dão na sua plenitude, entre serras e pinhais, onde a casta mostra o seu lado mais floral e sofisticado.

O 2022 foi o ano da colheita, ano jovem que antecipa a vivacidade. E o vinho, dizem-nos, estagiou em barrica de carvalho francês, parte dele, o que explica o corpo intenso, encorpado e de final longo que se pressente na boca. É ali, naquele estágio, que a Touriga se doma ligeiramente, ganhando complexidade e aveludado. Quem se abalança a esta empreitada? A Global Wines, nome maior no panorama vinícola português, capitão do Dão e do saber fazer, grandes quantidades também são precisas e Cabriz é, sem dúvida, o que mais se vende e nome de maior notariedade. Porém, ao bebedor atento, não escapa o produtor, outra garantia. A marca Pingo Doce Selecionado Exclusivo é o veículo, mas o motor é o saber da Global, com a assinatura do enólogo Paulo Prior. Isto tranquiliza-nos, pois por trás da distribuição, necessária, e com poderio, revela-se uma equipa que conhece o Dão e a nobreza da sua casta.

Tiradas as narrativas, corridos os atilhos, a Touriga Nacional é a essência de um Dão muito vasto nas castas, e este, vinho e qualidade sob preço acessível, ademais carrega o Selo de Garantia da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, não é um mero pormenor, é a chancela, o assumir da feição, do feitor e do contador.
Anotei, no caderno das provas a gastronomia do vinho e sim, vai de mesa, de pós-mesa, ou, para os amesendados, de entretém. Pelo que oferece. E o facto de estar na prateleira da grande distribuição é a sua maior vitória, democratizar a nobreza. Ainda assim a um preço, comezinho aos bolsos, mas que desmonta a mais-valia dos vinhos do Dão, que precisam trepar em escala de valor, que o tinto, esse é excelso.






