Lafões


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Sim, conheço-a bem! Desde a infância, quando a subíamos a caminho das férias de Verão, ou quando ficava em Guimarães e vinha por ela, ao Viso, de camião com meu primo Alberto. A Estrada Nacional 16 é uma das rotas mais bonitas e históricas da região Centro, especialmente onde atravessa o coração de Lafões. Antigamente, esta era a principal ligação entre o mar, em Aveiro e a fronteira, no Vilar Formoso. Hoje, Nacional16 tornou-se uma estrada para viajar devagar, tem vários miradouros, proporciona uma bela road trip e tem ao lado, na vilegiatura, amplas termas, água quente, das profundezas da terra.

Se for dos valentes, tem a Ecopista do Vouga, em grande parte deste trajeto. A estrada corre paralela à Ecopista, que ocupa o antigo canal da linha de comboio. Excelente para quem gosta de caminhadas ou ciclismo. E tem algumas antigas estações ferroviárias renovadas. O contraste entre o vale profundo do Vouga e as encostas das serras, torna a condução muito prazerosa, com curvas sinuosas e muita sombra. Há, havendo chuva e sol que ainda vão pelos bosques, cogumelos. Escolha quem conhece. E saiba.

O automóvel é um mimo e esta é uma das ‘Estradas com História’, permite chegar aos vinhos de Lafões, uma das joias escondidas do panorama vinícola português; embora geograficamente próximos do Dão, têm uma personalidade completamente diferente, sendo muitas vezes descritos como um ponto intermédio entre o Dão e o Vinho Verde. Lá estão as latadas a mostrar essa vertente.

Legalmente, e no que abonda, têm estatuto de Denominação de Origem Protegida (DOP) “Lafões” ou podem ser incluídos na Indicação Geográfica “Terras do Dão”. O que me abonda, porque são outra personalidade, o tabelião é a Comissão Vitivinícola Regional do Dão pelo que os acrescento neste proscénio. E começo o troço a partir do Paço Episcopal, ao Fontelo. A estrada sai de Viseu e começa a descer em direção ao vale do Vouga. É um troço arborizado, que passa por aldeias como Bodiosa e Ribafeita, oferece-nos, logo ali, as primeiras vistas sobre a paisagem verdejante de Lafões.

Na Várzea, o Parque das Nogueiras ficou em S. Pedro do Sul a namorar o rio, a estrada aproxima-se de uma das estâncias termais mais importantes da Península Ibérica. As Termas de São Pedro do Sul são paragem obrigatória, não só pelas águas medicinais, mas também pelo ambiente relaxante à beira do rio Vouga. Ao continuar para Oeste, entra-se em Vouzela, uma vila encantadora e muito bem preservada. É impossível passar por aqui sem provar os famosos Pastéis de Vouzela. Um entretém, a mesa, posta ao serviço das botelhas, é de reforço. Mas dessa liturgia, falaremos noutras jornadas. Vai-se ver a Ponte de Vouzela, antiga ponte ferroviária da Linha do Vouga, um adeus à Igreja Matriz e os pastéis estão ali mesmo.

Prossigamos para Oliveira de Frades, percorremos agora um cenário verde e, já na dobra do distrito e no fim da Circunscrição vínica, a paisagem mais moldada pela Albufeira de Ribeiradio e novamente o rio Vouga. Arqueologia, a Anta da Arca e fabulosas vistas sobre as serras do Caramulo e do Ladário.

Em alguns pontos deste troço, ainda é possível ver o antigo pavimento de paralelepípedos de granito original, como em Pinheiro de Lafões. Outro miradouro.

Ao contrário dos vinhos do Dão, que tendem a ser mais encorpados e macios, os de Lafões são conhecidos pela sua frescura e vivacidade. Acidez elevada, é a característica mais marcante, vinhos com um pendor acídulo que os torna muito gastronómicos, sobretudo na soberba vitela, estufada, para mim. Vinhos leves, ideais para refeições longas. Alguns brancos apresentam um ligeiro desprendimento de gás, a famosa agulha que meu avô Lopes, no Pevidém alertava, lembrando essa frescura dos vinhos minhotos. E andam por lá, noutras ocupações é certo, mas não deixam de testemunhar os vinhedos.

A região utiliza castas muito específicas que se adaptam bem ao clima de transição entre o litoral e o interior. No branco, Arinto (Pedernã), a Cercial, a Dona Branca e a Esgana Cão. Resultam em vinhos citrinos, minerais e muito aromáticos.

Nos tintos as estrelas são o Amaral e o Jaen. Produzem vinhos de cor rubi brilhante, com notas de frutos vermelhos e uma acidez que limpa o palato. Traz lá a ‘sopa seca’ fazendo favor. E o essencial? Há uma razão lógica para a Vitela de Lafões ser acompanhada pelo vinho da região, a acidez natural do vinho de Lafões corta perfeitamente a gordura da carne assada, equilibrando o sabor e tornando a refeição menos pesada. É o exemplo perfeito de o que cresce junto, vai bem junto.

A região é pequena, mas tem produtores que mantêm a tradição com muita qualidade.

E na vinda, esse outro relance, de novo às cosmopolitas Termas de São Pedro do Sul, ali abundam lojas de produtos regionais e garrafeiras, com as pequenas edições de produtores locais. Um outro roteiro…, que esta, esta é uma road trip.  

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