Cansado de uma semana que terminou em Boticas, podem encontrar o podcast lá no fundo deste Armazém, de garrafeira vazia e sequioso, fiz-me ao supermercado. Atravessei-me na avenida e primeira constatação. Aos domingos de manhã, manhã cedo, o supermercado é o paraíso dos homens. Nas prateleiras, o vinho da Região do Dão, caramba o supermercado é em Viseu, mal-arrumado e fora de escaparate. Lá encontrei este Meia Encosta a 4,29 euros, depois de colocar e tirar outras referências do saco com que fui munido. Pelo meio, as cervejas matinais domingueiras e o vinho da Menina que é devota de outra circunscrição que aqui não cabe. Seja. Ir ao supermercado é uma aventura, mas com a trabalhadora lá me desenvencilhei, não sem antes concordar com o meu camarada das compras ao lado. Colocam-se as compras à esquerda, precisamente pelo lado da saída. O supermercado está talhado para nós sermos os funcionários dele, o vinho nas prateleiras de topo, à luz dos olhos, quer competir com as garrafeiras, mas falta-lhe o expert que no-lo explique e as garrafas andam por ali desaparelhadas. Enfim, nada mau para uma aventura na compra do vinho. Honestamente, a responsabilidade dos supermercados para a Região onde estão é quase nenhuma. E comprar lá vinho é inquietude. Bom para os de grande consumo, como este que é sempre porto seguro, mau para os pequenos produtores, quando têm espaço e meios para fazer melhor. fazia-lhes bem uma viagem a França, ou mesmo a Espanha.



Do vinho. Bom além de marca conceituada e no mercado desde que me lembre, bebi-o de conversa com a família em ensolarada missa de Domingo entremeada com a escrita. Que dizer do tinto e da marca?
Diga-se, primeiro, que este clássico das Caves Borges, uma casa histórica que deita raízes em 1884, carrega a herança da consistência. E no copo, nesta colheita de 2024, ele não engana. Sendo o Dão uma Região moldada pela frescura das montanhas que a cercam, este tinto entrega precisamente essa elegância sem pretensões.
Com os seus equilibrados 13% de teor alcoólico, apresenta uma cor rubi jovem e viva. No nariz, desperta com notas francas de frutos vermelhos maduros, como a amora e a framboesa, salpicadas por discretas nuances florais que são a assinatura das castas da região, onde a Touriga Nacional, o Alfrocheiro, o Jaen e o Aragonez habitualmente se encontram.


Na boca, confirmou-se o tal “porto seguro”. É um vinho macio, redondo, de taninos polidos e de uma acidez natural que limpa o palato e convida ao próximo tracho. Não carrega o peso ou a densidade de outras paragens, preferindo antes a frescura gastronómica que o torna soberbo para acompanhar desde as carnes assadas ao queijo curado da Beira.
Aos 4,29 euros resgatados da prateleira do supermercado, cumpre o que promete, é um facilitador de conversas, um tinto de “fácil trato” que abraça o domingo em família com a dignidade que se exige a um Dão de grande consumo.






