Cabeça d’Velho 2020


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Cabeça d’Velho 2020

Tinto de Verão, é outro assomo, uma impertinência se quiserem, para escapulir aos stocks, dar descanso aos conselhos filiais e aproveitar um prenuncio de calor em manhã fresca. Tinha no frigorifico um ice tea e uma água do Luso aromatizada a frutos vermelhos. Mas tomei a idade ao vinho e logo ali a minha libertinagem perdeu ímpeto. O fulgor não podia aguar um velho, mas ainda mordi a isca. Quatro euros pela botelha, ou há muita produção ou muito vinho a render nos pipos, e molhei os beiços nesse mítico tinto de verão.

O Tinto de Verano aprendi-o com meu cunhado e meus primos do Sul, na Andaluzia, para lá do Guadiana, para cá do Guadalquivir. É sempre essa a memória, a idade de outros Verões. Ou o deste, a Galiza a clamar, o vento de noroeste a dançar com um caloroso sol de Maio. Nos preparos sabia que viriam, do take-away, um arroz de pato e uns secretos, estão por todo o lado só não exibem o ferro da carne certificada, com umas batatas assadas ensopadas em bom azeite. Pelo que, sejamos francos, para um Sábado após meio-dia, meu avô paterno exigia-os dez minutos antes, são responsabilidade muita e cautelas demasiadas, como o embutido espanhol, de colorau e lombo do cachaço. Vento fresco de Noroeste, sol de Maio e pirolito.

E conversa, muita e graúda, com o petiz. Como eles crescem. Carnudo, guloso e tempestuoso. Os dois, o vinho e o cachopo. E um veludo extraordinário, uma delicadeza que só a idade traz ao vinho. Mas fico ainda no de Verão, eu, o Sting, o frescor e as árvores, na sedução dos frutos vermelhos aos anos do tinto. Juro. Foi crime fugaz, não merece contumácia, mas foi bom de refresco.

Porque há sacrilégios que se absolvem a si mesmos quando o termómetro e o espírito conspiram na esplanada doméstica. Rebaixar um Dão de altitude, nascido na pedra fria da Serra da Estrela, em Vila Nova de Tazem a parceiro de um pirolito caseiro, tem tanto de pirataria como de génio.

Mas a verdade é que o Cabeça d’Velho não se deixou vergar pela mistela. O homem da montanha aguenta o calor. Sob o disfarce da frescura e do gás, o tinto impôs o seu pedigree, aquela acidez fina que só a Beira dá, a escorar a gordura generosa do arroz de pato e o azeite dos secretos.

Olhava para o petiz, homem feito a ensaiar os primeiros voos na conversa dos crescidos, e olhava para o copo, onde os cinco anos da colheita de 2020 ainda lutavam contra a irreverência do gelo e da rodela de limão. O tempo passa por eles, de facto, mas guarda-lhes o nervo. Se o embutido espanhol pedia fogo, a Beira respondeu com a frescura do granito.

No fim, quando o vento de Noroeste limpou as últimas nuvens e o sol de Maio se instalou de vez, ficou a certeza de que a contumácia não se aplica aos momentos de pura felicidade. Podem os doutores da confraria clamar pelos copos de balão e pelas temperaturas de adega; nós, por cá, na heresia da tarde, lavámos a alma com o refresco e demos por bem empregues as quatro moedas. O velho tinha juízo, o cachopo futuro, e a tarde, essa, foi eterna.

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