Terras de Santo António Alfrocheiro 2018


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Terras de Santo António Alfrocheiro 2018

Os Santos são, além da romagem e do ruminar a saudade, lugar de mesa a que se juntam meus primos nestes dias em que a idade avança e que também nós entramos no desconto, que é senda da vida e talvez por isso seja nos Finados, e na Páscoa numa feliz alegoria, que nos juntamos à mesa. E a deste ano foi frugífera. Sabíamos que íamos verter tinto, mas antes entrámos-lhe, sem cerimónias, pelos brancos. Um Dão, para começo de conversa, um Lafões já a lamber a beiça com uma cachola, uma Malvasia que vos conto ali ao lado e, no espreitar da carta, um tinto arejado, um Alfrocheiro, Terras de Santo António, colheita de 2018, um DOC Dão puro de uvas selecionadas e colhidas à mão, de garrafa que custa 19 euros, na botelharia, um pouco mais na restauração, mas nisto de jantares de família sou apenas devoto das vitualhas.

O vinho esse teve uma tiragem curta de apenas 3.366 garrafas pela Sociedade Agrícola Quinta de Santo António, em Fornos de Maceira Dão, sob o pulso dos enólogos Jaime Murça e António Campos, fruta, cor profunda, uma casta vigorosa e fértil, de maturação precoce, pequenas uvas e, para mim um dos meus vinhos de eleição, que me chegou no tempo certo, adstringente, uma pequena rudeza e sim, teve par para dançar, um fabuloso arroz de vinha d’alhos, a que se aditou um supranumerário cabrito, tão ao gosto das minhas mandibulas como do povo que lembra “leitão de um mês, cabrito de três”. E nós, sete na mesa, não vieram os primos mais novos, mas vieram os primos mais arejados na idade. E a mim, privilégio desses meus primos mais velhos, o topo da mesa, coisa que apenas meu pai e meu tio, irmãos casados com duas irmãs e em repouso conjunto, me permitiam.

E, uma nota ao amigo que me mostrou os socalcos numa viagem de jipe que ainda hoje recordo, o Jaime Murta é um dos mais profícuos conhecedores deste Dão e um criador de vinhos de perfil austero, autênticos se preferirem, mas os melhores entre os melhores.

Adiante. Foi com esta irreverência e outros acepipes entradeiros que o vinho se verteu ao copo. Um vinho sensível que estagiou doze meses em barricas usadas de carvalho francês e americano, com uns aprumados 14,5% de álcool, e que, contudo, não deixa de ser um excelso cabouco para uma refeição que se estendeu larga, indo ao queijo de pasta mole e da Serra da Estrela. Adiante que o introito já vai longo e sequioso, mas não sem antes apontar que ainda esta semana o produtor me ligou para saber uns pormenores da história que conto no meu livro sobre a Demarcação do Dão.

A Quinta de Santo António finca raízes em Fornos de Maceira Dão, tendo por figura de proa a capela que se desenha com sobriedade no rótulo da garrafa, símbolo discreto da devoção da terra e do trabalho que ali se faz longe das vistas, perto do coração. É dessas paredes e da vinha ao redor que nasce este vinho, sem artifícios nem maneirismos.

No que toca ao Alfrocheiro e à sua evolução, é sabido que há quem lhe aponte pouca paciência para envelhecer. Contudo, este de 2018 prova o contrário, com a fruta no sítio, a passagem pelas barricas usadas deu-lhe a estrutura necessária para amansar com o tempo em garrafa. Ganhou notas balsâmicas e de especiaria sem perder a frescura e a garra, tornando-se um companheiro de mesa rijo e sereno.

No copo, revela uma cor rubi bem marcada e viva. O nariz abre-se em notas florais intensas combinadas com frutos silvestres e do bosque maduros e um fundo discreto de baunilha herdado da madeira usada. Na boca mostra fruta muito madura, bom volume e uma estrutura límpida, contrabalançada pela suavidade dos taninos e pela frescura própria da região. E Rijo é adjetivo e adágio certo para este belíssimo Terras de Santo António Alfrocheiro 2018!

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