A maça dos Bravos de Esmolfe


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A maça dos Bravos de Esmolfe

Mais saborosa, o perfume a maça escorre pelas beiras e os negócios estão apalavrados. Há novos agricultores e novíssimos pomares, mas a região da Beira Alta tem capacidade para aumentar a produção. Ainda falta frio, mas a Beira Alta, a Montanha, a Altitude e, claro, a Esmolfe, fazem coro a pedir uma central de vendas comum, mas quase ninguém arrisca dar o primeiro passo.

A produção nacional de maçã é de 300 mil toneladas por ano, 130 mil das quais na Beira Alta, 43 por cento do total nacional, sendo que a Bravo Esmolfe não perfaz mais que seis mil toneladas do bolo total.

Mas há novos pomares plantados e assiste-se a um regresso à lavoura de muita da juventude que dele fugiu. E apesar da quebra da produção, das dificuldades dos produtores em falar a uma só voz e da pouca promoção o otimismo sente-se entre os fruticultores: o futuro está aí e traz esperança.

Não me lembro a data exata em que comi uma maça Bravo de Esmolfe, mas tenho na cabeça o preciso momento em que isso aconteceu, e a circunstância de a ter comido. Consigo descrever o cheiro doce e silvestre da maça que me entrou pela primeira vez no saco quando, a 1 de Novembro, mantinha a tradição e ia “pedir pelos Santinhos”. Era eu ganapo e no saco vinham doces, castanhas e nozes, moedas e maças destas, verdes, brancas, com laivos encarnados e amarelos que são todo um Outono a entrar-nos narinas adentro, goelas abaixo. Ora ontem no Facebook dei com o meu amigo Gabriel Costa agastado porque o autarca da Guarda estava em Paris, a apresentar a Maçã do Bravo de Esmolfe, como sendo uma referência e um produto genuíno do seu concelho. 

Ora o Gabriel, com a autoridade de quem a promoveu e instigador do primeiro congresso deste saboroso fruto, pode falar assim. Em bom rigor o fruto é um Bravo de Esmolfe, aparecido ali pelo século XVIII, e talvez a melhor maça portuguesa. O problema é que este acepipe não é promovido. O meu amigo Abel Marques, lá onde está, haverá de dar voltas. Foi dele outra promoção, em 2005, quando a Compal lançou um sumo de maçã Bravo de Esmolfe, aldeia de 400 almas e que podia ter na maça mais rendimento do que tira da lavoura. Produzimos, grosso modo, 5 mil toneladas desta maça que desde 1994 tem Região Demarcada que inclui concelhos do distrito da Guarda, Castelo Branco e Viseu.

E andamos nisto há anos e nem sequer conseguimos acompanhar a maça de uma brochura que nos explique o que a torna diferente, que nos dê informação nutricional e que nos explique porque é mais cara. Mais cara precisamente por ser uma das variedades tradicionais que é inteiramente portuguesa. E que tem berço em Esmolfe de onde vem esse fruto pequeno, verde, meio esbranquiçado, sumarento e que se guarda em casa, nos açafates para perfumar os ares e para se comer com uma rosca de pão e um copo de tinto. Caramba é uma maça que se come e que fica ali a meter-se connosco, a namorar-nos, a dizer ao que vem e que, sendo de todos, tem casa, origem e patrono. A colheita terminou há dias e haveremos de a festejar neste Inverno fora… e de a lembrar no Largo de Santo Ildefonso. 

Mas é preciso mais do que oferecer a dita em fins de semana de gastronomia. Na minha cidade compram-se ali na rua Nunes de Carvalho, pelas mãos da Cristina na loja ‘que viso eu’, toda ela poema de merceeiro, merecimento com origem que é mulher que sabe explicar de onde vem o que compramos. Do Fundão a Armamar, de Belmonte a Arganil, de Penalva a Tarouca. Em toda a Beira Alta, como a demarcaram os padres, entre os rios Douro e Zêzere. Mas dizer que é daqui, é préstimo sem créscimo. 

É preciso voltar ao antes, ao primeiro congresso, aproveitar as redes sociais, levar a discussão para Esmolfe e saber promover a terra e os seus frutos. Para que os 411 que ainda lá vivem se multipliquem e ganhem a vida. Bem sei Gabriel que tens razão no que dizes. “Ficaria bem dizer assim: a Maçã do Bravo de Esmolfe, em cuja região a Guarda se inclui”. Porém isso não me apoquenta e ficaria mais feliz se a Maça, que se cultiva entre os 350 e 550 metros de altitude, fosse sempre de Esmolfe na promoção e na geração das mais valias. Como o faz a Cristina na sua loja. 

É essa história que temos de contar e não essa coisa pífia que está no site da autarquia, essa parolice como se Esmolfe nos envergonhasse ou permita que outros vivam com o suor das suas mãos. Porque a maça é dos Bravos. Dos Bravos de Esmolfe e saber merecê-los é a primeira das nossas obrigações.

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