O Grão Vasco é marca institucionalizada no Dão. Melhor homenagem não podia haver, com esta remissão à pintura quinhentista, um fresco vinho, este Branco 2023 que me arrancou da mania de lhe dar dois anos, aos brancos e rosados.
Entronizado pela Sogrape, e já lá vamos, traz a elegância de um clássico. E ser-se clássico é bom, sobremodo este, que chega despretensioso e sóbrio. Um vinho de quotidianos, que trouxe do supermercado, apressado para jantar.
Leve, excelente para o dia a dia, também serve à descontração em estando ali nos 8ºC, pronto a servir a que chegar para partilhar mesa.
O supermercado é botica para vinhos urgentes, com o briol ao virar da esquina. O produtor é grande e basto na geografia, mas tomou tino e o pintor quinhentista deixou de ir de excursão ao Douro e passeata ao Alentejo. Ficou-se no Dão, onde nasceu, tem casa, é adorado e glorificado. Como Nosso Senhor.
O pior de comprar vinhos nos supermercados é que, com algumas exceções, a maioria dos retalhistas não tem o liner do Dão bem visível. Somos atirados ao fundo das prateleiras, misturados com outras regiões, quando, um supermercado de responsabilidade social e pragmático da sustentabilidade, teria sempre vinho da região onde lançou caixas registadoras. Enfim, perdem eles. Por culpas nossas.
Este Carvalhais é dos mais assíduos na grande distribuição, nalguma restauração também, a preço competente, são 4,85 euros para um vinho produzido nos 53 hectares da Quinta de Carvalhais, em Espinho, no concelho de Mangualde.
O encepamento é sobretudo branco, com as castas tintas reduzidas a 39% dos hectares. Os solos arejados, arenosos e graníticos, empurram a frescura deste meu Branco.
Regressou a casa, e este rótulo e marca antiga têm história. A mim, abandonado à quietude amesendada, chamei uma alheira aos princípios, ainda embalou a mão-de-vaca e grão, mais cenoura, moira e chouriça, da de carnes. Lasquei vitela, de Lafões, na púcara abalançada a fogo rápido. Ganharam os nacos, ao por cima.
Os 13º não se acobertaram, entraram e saíram com o final da mesa. Vibrante ao palato, versátil e predisposto, é um vinho com uvas da Quinta de Carvalhais, autêntico, moderno sem deixar de ser tradicional no lote.
Bical, Encruzado, Gouveio e Malvasia Fina lotearam, depois das uvas levemente esmagadas, prensagem e mosto decantado a baixa temperatura. São 24 horas de trabalho na adega que correspondem no citrino do vinho. Clareza, nas castas, vinificadas separadamente em cubas de inox. Lá ficaram 15 dias a fermentar, antes da sesta de quatro meses.
Produzido por companhia a quem o Dão só pelo acordar – quanto mais não seja, muito deve, veio de vindima com muito. Dos dois. Qualidade e quantidade.
A safra de 2023 beneficiou de um ciclo vegetativo ameno, com instabilidade durante a vindima. Foi vindima de trabalho, é certo, que trouxe brancos frescos, alguns deles com vinhas de cinco anos, uvas colhidas ainda longe das chuvas de setembro. Uma vindima de 30 dias, de agosto a finais setembro.
Após esse estágio, correu à garrafa, leve e vivo, amarelo citrino, jovem, de garbo aos ombros, mineral. Podemos esquecê-lo na garrafeira, por uns anos, que não se perde nada. Só se ganha.
Engarrafado após um curto estágio de 4 meses em cubas de inox, o resto é logística e um rótulo garantido.
Vinho solícito. E descomplexado.






